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Conscientização e empowerment em tempos de definição

Marta Maria Godoy

Vivendo o momento histórico irrompido nos nossos dias, por aqui, meu pensamento rodopiou por sobre as notícias, falsas ou verdadeiras, os debates, reais ou imaginários, e toda a parafernália de palavrório oriunda de toda espécie de mídia e foi se aninhar numa palavra lá do “trás” da história... e eu tenho duas razões muito atuais pra me lembrar dela: os 50 anos da “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, celebrados neste 2018 e minha tese de mestrado em andamento, abordando a Educação Popular. Não pude deixar de me lembrar dela num momento tão extraordinariamente estranho de nossa vida pública, em que vemos igualmente estranhos pensamentos, sorrateiramente alguns, rondando nossas vidas, perigosamente querendo se instalar... empowerment: essa a palavra, assim mesmo, em inglês! Ela entrou no nosso vocabulário, na língua brasileira, mais conhecidamente, via Paulo Freire, embora haja quem afirme que ele pouco a usou. Não tenho espaço para uma análise mais profunda sobre esse fato aqui, mas há fontes bem seguras no site do Instituto Paulo Freire, entre outros.

Quero me ater à palavra.  Durante muito tempo, como professora, estive com ela entalada no coração. A tradução, claro eu sabia, mas o que ela significaria de verdade? Até porque pairava, ainda, mesmo depois da abertura (?) política, pelos anos 1980, uma certa demonização dos escritos freireanos e de sua própria pessoa, em algumas partes de nossa sociedade. Portanto, pensar em “empoderamento”, ainda mais ligado ao povo pobre e marginalizado, era, no mínimo, algo meio alienígena, com ranço de resistência... Os estudos relacionados à Educação, ao Ensino, muitas vezes perifericamente remetiam a Paulo Freire como um “filósofo da educação”, alguém que “refletia” sobre educação, mas que nem sequer “era da educação” (sua formação era no direito)... e assim por diante. Contudo, havia os que o estudavam, refletiam sobre seus escritos, desde os anos 1960, com o frescor de quem vê a possibilidade de transformação da realidade à volta, a partir de um empoderamento coletivo – a Educação Popular! Todos nós conhecemos, hoje, (ao menos assim espero) os capítulos da história de Paulo Freire e a educação no Brasil e no mundo daqueles anos para cá.  Mas será que nos lembramos do empowerment?

Fui encontrar em Leila de Castro Valoura, na sua obra Paulo Freire, o educador brasileiro do termo empoderamento em seu sentido transformador (Instituto Paulo Freire, 2005), uma significativa forma de “definir” a palavra: o empoderamento, nesse sentido (transformador), implica conquista da liberdade, avanço e superação do estado de subordinação (dependência econômica, física, etc.) por parte daquele que se empodera (sujeito ativo do processo), e não uma simples doação ou transferência por benevolência. Interessante. A questão que fica talvez seja: como se conquista o empoderamento? Pois o Paulo também tem uma rota: a conscientização. Então, pode-se deduzir que conscientização e empowerment andam juntos! Haverá um sem o outro? O Oprimido da Pedagogia de Freire morreu de velho aos 50 anos?  Acredito que não, ficou na descendência! Se, ao pensar conscientização, certamente Freire delineou este caminho no rumo de uma transformação, tudo é muito atual, infelizmente – do próprio Oprimido à necessidade urgente de uma transformação da sociedade!

O tema vai longe! Muito gostaria de esticá-lo. Mas não dá. Então fiquemos assim: “Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível nos defender do frio ou do calor, se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da natureza, por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da política? ” (Paulo Freire)

 

 

Sobre o autor

Marta Maria Godoy

Religiosa consagrada. Graduada em Letras. Pós-graduada em Linguística Aplicada - Leitura e Produção textual. Mestranda em Teologia pela EST/S. Leopoldo, na área de Teologia Prática.

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