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A fuga

Marta Maria Godoy

Meu texto de hoje será dividido com Dostoiévski, o Fiódor. Diz ele: “Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência das certezas. Mas é isso que tememos, o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são os lugares onde as certezas moram. ” (In: Os Irmãos Karamazov).  Pretensão? Talvez. Ainda mais que não vou dizer nada novo; serei repetitiva, apenas me somando às vozes dos que clamam por tudo o que se encontra fora das gaiolas, no vazio, porque é preciso alçar voo para poder vê-los: liberdade, justiça, paz, respeito à vida, diálogo, aceitação profunda do diferente, construção de esperança, confecção de bem em tecido de maldade. Mas não quero parar no clamor, que minha voz quase já se some. Gostaria de propor a fuga.

Pois nestes nossos tempos de sombras, repletos de gaiolas inundadas de certezas, postas no mercado como produtos de última geração, por que se buscar a leveza da luz de liberdade, no vazio de um voo, e de tudo que vem no rastro do incerto quando, ao contrário, todos querem “ter certeza”? Os apelos para a certeza são fortes e estão aqui, bem perto. E nem é preciso prestar muita atenção no que é dito em qualquer fala na tv ou outro meio qualquer: “é isso”, “é o melhor”, “é pra ti”, “busca agora”. Do religioso, ao ideológico; do vestir ao comer; o que estudar e onde; como dormir e como acordar; o que ler e o que negar; como ser magro, e até como matar e como deixar viver! O desfile de gaiolas é amplíssimo! Isso quando não são nossos próprios amigos e parentes que detêm as chaves das gaiolas e com toda a sua “complacência” para conosco ajudam a nos manter lá dentro – junto a eles, claro.

Passemos à fuga. Para empreendermos a fuga das gaiolas (e toda a obra de Fiódor passeia por essas possibilidades) será preciso olhar para o mundo, sim, primeiro lutando para reconhecer o espaço da liberdade, o que por si só não é fácil – e do alto, dificultando mais ainda, ruflando as asas em tentativa de voo, lançarmo-nos no vazio... talvez o grande problema esteja no vazio. O que será o vazio? Compondo-se de uma negação (“ausência de certezas” – não há certezas), ele pode confundir. Ah, pode! Mas parece que ele contém uma solidez sem precedentes já que é composto a priori pela liberdade, cujos princípios, sem a ajuda das certezas, claro, irão constituir o novo, o desconcertante, o desestabilizador, tudo isso muito solidamente instalado! Pois é... Se esse “olhar” conseguir ser o impulso para fora da gaiola, para o nada do tudo, seremos os descobridores do modo de jamais negociar nossa liberdade por falsas certezas (aliás, quase todas são falsas, porque falseadas) e seguiremos, impávidos, buscando o voo livre com humildade e riqueza de espírito, extasiando-nos diante do novo, abandonando o fundamentalismo de qualquer regra fechada, que escraviza e mata. Veremos, então uma nova perspectiva de nós mesmos; veremos que somos pequenos no vazio, aprendentes para sempre, curiosamente em voo livre. E só então poderemos chorar de alegria, amar sem medida, sermos auxiliares na construção do mundo! Isso, porém, só a partir da fuga.

Sobre o autor

Marta Maria Godoy

Religiosa consagrada. Graduada em Letras. Pós-graduada em Linguística Aplicada - Leitura e Produção textual. Mestranda em Teologia pela EST/S. Leopoldo, na área de Teologia Prática.

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