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Reencontro com o Cristo da Paixão

Miguel Debiasi

Santo Agostinho afirmou que “o pecador não suporta nem a si mesmo”. Para este grande santo, o pecado é a tristeza do ser humano. A alegria do ser humano é sempre a santidade. A quaresma é tempo de mudança humana. É tempo de sair da tristeza ou do pecado para entrar no estado da felicidade e da santidade. É tempo quaresmal, eis outra oportunidade para a mudança.

Na tradição cristã a quaresma como período de preparação para a celebração da Páscoa, tem início na quarta-feira de cinzas e vai até o Domingo de Ramos. Tradicionalmente falamos em 40 dias, mas a quaresma se estende até a quinta-feira santa, num tempo de 44 dias. É quase impossível datar o ano exato do início do período quaresmal na liturgia cristã. Mas o significativo é a sua validade.

Sabe-se que essa prática se consolidou no século IV do cristianismo ou da Igreja Católica. Pelos escritos antigos, as datas mais prováveis sejam após o Concílio de Niceia no ano de 325, que estabeleceu os critérios litúrgicos para a celebração da Páscoa como de sua data a ser celebrada. Nos textos litúrgicos antigos foi depois do ano 350 e ou próximo do ano 384, quando o calendário litúrgico da Igreja de Roma assumiu essa prática de preparação quaresmal.

Tem-se conhecimento que o arcebispo Pedro I de Alexandria, entre 300 a 311, venerado como santo pelas Igreja Copta, Católica e Ortodoxa, determinava que os exercícios penitenciais e o jejum a serem impostos aos penitentes devia ser de 40 dias, entre a admissão e a reconciliação. É nítido que os textos litúrgicos cristãos antigos foram todos escritos em vista da preparação dos batizados.  

Esses textos litúrgicos antigos descrevem que alguns exercícios espirituais, como o jejum pascal, eram observados na sexta-feira e no sábado santo. Aos poucos esse jejum estendeu-se para toda semana santa. Esse mesmo tempo de penitência ao longo dos anos estendeu-se na preparação dos catecúmenos que deveriam ser batizados, na noite da Vigília Pascal. Nesse período do cristianismo e da Igreja, a preparação dos catecúmenos ou dos candidatos a serem cristãos acontecia durante três anos ou até mais tempo.

Para o padre e compositor jesuíta católico francês, Joseph Gelineau (1920-2008), estudioso da música litúrgica e da liturgia, a prática do jejum é o elemento que, historicamente, inspirou a organização litúrgica desse tempo quaresmal. A prática do jejum deveria preparar os fiéis à celebração do mistério redentor, os catecúmenos ao batismo, os penitentes à reconciliação. É em função desse objetivo que os textos litúrgicos foram escolhidos e redigidos. Eles apresentam e desenvolvem a ideia de 40 dias, como preparação para a Páscoa. Tempo que o próprio Cristo consagra, assim, viveu Moisés e Elias, e o próprio povo de Israel, caminhando quarenta anos pelo deserto, rumo à Terra Prometida.

Esses textos litúrgicos antigos insistem sobre o jejum, não no sentido de que recomendam a prática aos fiéis e aos catecúmenos. Os textos procuram orientar o espírito para essa prática de preparação, afastar-se do pecado. O afastar-se do pecado aconteceria: pela prática do amor a Deus e ao próximo; pelo alimentar-se abundantemente da Palavra de Deus; levar uma vida cristã de oração mais intensa; fazer com que os pobres sejam beneficiados com o que se economiza jejuando, escrever padre Gelineau.

Pela tradição e pelo ensino da Igreja o tempo quaresmal é um período de muita sobriedade espiritual e moral. Tempo em que o cristão exige mais de si mesmo, usando mais da vigilância evangélica, com a finalidade de renovar o senhorio de Deus sobre os seres humanos. É um tempo de reencontro com Cristo que vai ao encontro de sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Na Igreja Católica e nas Igrejas cristãs há muitas práticas de viver o tempo quaresmal. As práticas são inumeráveis para reencontrar com o Cristo da Paixão. Uns viveram o tempo quaresmal mais no esforço de viverem melhor seus deveres familiares e profissionais. Outros buscaram ser mais sóbrios no consumo, como comer, beber e comprar bens. Outros poderão renovar sua própria paciência com todos, sobretudo, com seus familiares, colegas de trabalho e com os irmãos de comunidades religiosas cristãs.

A Igreja do Brasil oferece em preparação à Páscoa, a Campanha da Fraternidade, com suas evangélicas motivações. Neste ano com o tema: Fraternidade e Ecologia Integral, e com a motivação bíblica: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gênesis 1,31). O texto base da Campanha da Fraternidade apresenta muitas motivações e ações.

Aqui deve-se lembrar o apelo do Papa Francisco do cuidado com a Casa Comum, ou com a mãe Terra e toda criatura criada pelo Supremo Criador. Como São Francisco de Assis soube tão bem vivenciar sua comunhão universal e ecológica, cada ser humano pode melhorar seu agir com a Mãe Terra. Cada cristão pode criar suas próprias práticas de preparação para a celebração da Páscoa.

Os textos litúrgicos antigos parecem-nos por demais sábios em suas orientações para vivermos o tempo quaresmal. Entre as práticas penitenciais para serem admitidas à reconciliação estava o gesto concreto de doar dinheiro e bens para os pobres e obras da caridade, valor advindo da abstinência. Os primeiros cristãos colocavam em prática as palavras de Cristo: “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).

O espírito austero e sóbrio da quaresma que viviam os primeiros cristãos provocava mudanças na vida social e nas pessoas. Para estes era um tempo de penitência, de preparação, de maior oração, de participação nas reuniões litúrgicas da comunidade, de encontro com os grupos familiares. Também tempo propício para receber o batismo e o perdão dos pecados. Era tempo de profunda mudança pessoal que impactava na vida social e comunitária da cidade, de um povoado.

Hoje, o tempo é outro. Ainda que a Igreja não determine mais o jejum e abstinência a não ser quarta-feira de cinzas e sexta-feira santa, isto não significa que a austeridade e sobriedade da quaresma não deva ser vivenciada. A Igreja insiste na ideia na mortificação que propõe os profetas e assumida por Cristo: “não sabeis acaso o jejum que mais agrada? – liberta os oprimidos, quebra as opressões; reparte o teu pão com quem tem fome, dá abrigo ao pobre abandonado ...” (Isaías 58,6-8).  

A quaresma é tempo de novo reencontro com Cristo, que vivenciou o deserto, praticou a caridade, experimentou as dores e a pior humilhação pública, o suplício da cruz e o escárnio das autoridades, mas que chegou a Verdadeira Páscoa da Ressurreição. Afinal, é tempo de entrar na estrada de Cristo, de percorrer uma nova caminhada na fé.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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