Profetismo no pontificado de Leão
Deus elege profetas para ajudar na condução da história da salvação. O profeta atua como mensageiro de Deus, proclama sua palavra, denuncia injustiças e clama pela conversão. Fiéis à sua missão, os profetas se tornaram independentes das autoridades religiosas e políticas. A história da salvação e da Igreja avança pela atuação dos profetas.
Jesus de Nazaré para constituir sua Igreja divina e humana, terrena e celestial, temporal e eterna, disse a Pedro seu escolhido: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mateus 16,18). Esta declaração, dita após sua confissão de fé, marca o papel de Pedro como fundamento da Igreja. Ao lhe confiar a condução da Igreja, dizendo: “lhe darei a chaves do Reino dos Céus” (Mateus 16,19), Jesus entrega a Pedro a responsabilidade de governá-la. Assim, Jesus fundamentou a primazia e a autoridade de Pedro e de seus sucessores, os Papas.
Ao longo da História da Igreja, os Papas foram eleitos sempre como pilares de fé e unidade. Desde Pedro até o Papa Leão XIV, a Igreja sobreviveu a inúmeros impérios humanos, transformações sociais, mudanças culturais e conflitos políticos. Alguns Papas tornaram a Igreja uma referência por suas posturas, que vão da unidade à ação pastoral de conduzir o rebanho do Senhor ou a humanidade.
Quando os Papas enfraqueceram o papel da Igreja, Deus elege profetas para conduzi-la fiel à sua missão no mundo. Na eleição do Papa João XXIII, os cardeais o viam como um “homem da diplomacia”, um “curinga”. Mas ele, em 1959, convocou o Concílio Vaticano II, um novo aggiornamento para a Igreja, que a desafiou a dialogar com o mundo moderno com voz profética.
Após o longo pontificado do Papa João Paulo II, prolongado pelo sucessor Bento XVI, que renunciou ao cargo em 2013, Deus elege um novo profeta para conduzir a Igreja, o Papa Francisco. A visão dos cardeais sobre a eleição do Papa Francisco, era dividida entre aqueles que viam seu estilo de vida simples e seu foco nos pobres e nas periferias como positivo. E, aqueles que o viam com receio de suas reformas e de uma abordagem que consideravam excessivamente progressista e pouco ortodoxa.
A eleição de Francisco foi uma mudança de paradigma, afastando a Igreja de uma abordagem mais conservadora e doutrinal para uma mais pastoral e acolhedora. O povo via em Francisco um profeta, que apresentou uma nova Igreja, identificada com Jesus Cristo, acolhedora dos pobres. Com voz profética, denunciou as injustiças sociais provocadas por um sistema econômico excludente, abordou temas de suma relevância para a humanidade, como ecologia integral, diálogo político, amizade social, acolhimento de marginalizados, valorização das mulheres e dos gêneros, tolerância religiosa e superação de preconceitos sobre pobres, migrantes.
Na eleição do Papa Leão XIV, a humanidade se perguntava se seu pontificado daria continuidade ao profetismo de Francisco. Na ansiedade, todos buscavam informações de sua trajetória para verificar se havia uma aproximação com Francisco. Embora a história do papado mostra que cada pontificado é diferente, e que nem todos conduziram a Igreja com profetismo.
Para contrapor essa expectativa, vale lembrar do teólogo jesuíta alemão Karl Rahner (1904-1984), que criticou a visão triunfalista da Igreja e do Papa de possuir todos os carismas. Obviamente, o Papa Leão XIV não possui todas as faculdades, dons e carismas para conduzir a Igreja de Cristo; para tanto, será preciso que ele conte, em especial com a graça de Deus e a força do Espírito Santo.
O Papa é o líder espiritual de mais de 1,4 bilhão de católicos e, ao mesmo tempo, um chefe de Estado com grande influência diplomática e política. Como chefe da Igreja, seu papel para a humanidade é ser um guia para a fé cristã, um defensor dos direitos humanos e um agente de paz, promovendo o diálogo e a solidariedade mundial. Ele representa a unidade da Igreja e pode atuar em questões globais, como pobreza, meio ambiente e conflitos sociais e políticos.
Já se passaram 190 dias de sua eleição, ocorrida em 08 de maio, e o novo pontífice, Robert Prevost, o Papa Leão, até o momento tem uma postura de escuta quanto aos problemas da humanidade e da Igreja. Seu ouvir transparece em sua primeira exortação apostólica - Dilexi Te – “Eu te amei”, publicada em outubro, que tem como tema central o amor e a solicitude pelos pobres e marginalizados, as questões como guerras, emergências climáticas e migrações. Trata-se de questões cruciais para o nosso tempo e para o futuro.
No Congresso Mundial sobre a Alimentação (FAO), que aconteceu em outubro em Roma, Itália, o Papa Leão declarou que a luta contra a fome requer ação concreta e não apenas slogans, abordando a fome como um “fracasso coletivo” e a alimentação com um direito e não uma mercadoria. Também ressaltou o papel fundamental das mulheres na segurança alimentar e condenou o uso da fome como arma de guerra.
Papa Leão disse que “slogans” não acabam com a miséria e que palavras devem ser transformadas em gestos concretos de solidariedade. Reafirmou que a segurança alimentar é um direito e não um privilégio, que deve ser garantido para todos. Valorizou o papel das mulheres como primeiras que lutam pelo pão, afirmando e reconhecendo que seu papel é essencial para um modo de vida mais justo e sustentável.
Papa Leão torna a Igreja mais profética ao denunciar o uso da fome como arma de guerra, afirmando que conflitos armados prejudicam a produção e a distribuição de alimentos, aumentando a miséria e sofrimento das pessoas. É profético ao considerar que a morte de milhões de pessoas vítimas da fome representa um fracasso coletivo, que precisa ser enfrentado pela comunidade internacional.
No conteúdo de sua exortação apostólica, em muitos de seus discursos e de suas mensagens há uma semelhança com o pontificado do Francisco. Havendo profetismo no pontificado de Leão XIV, é esperança que a história da humanidade e da Igreja possa avançar no viver e realizar a obra de Deus, onde o amor, a justiça, a dignidade e a paz, possam reinar em tudo e em todos.

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