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As duas quaresmas para os cristãos católicos

Miguel Debiasi

No livro do Gênesis lemos que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,26). Ainda que o texto bíblico faça essa descrição positiva do ser humano, mas sua relação com Deus precisa ser cultivada. Para o cristão toda pessoa é vocacionada ao chamamento de Deus, e quando aceito enriquece a si mesma pelo envolvimento com a obra divina. A quaresma cristã opera neste sentido de possibilitar ao ser humano uma renovada acolhida do mistério de Deus e viver segundo sua projeto.

O memorial da Páscoa de Cristo é o centro da fé e das celebrações religiosas cristãs. A Páscoa de Cristo acontece novamente na páscoa dos cristãos e na páscoa dos cristãos renova-se a Páscoa de Cristo. Para celebrar o memorial da Páscoa de Cristo exige dos cristãos viver um tempo quaresmal ou de preparação com maior ardor espiritual e conversão pessoal. A quaresma inicia com a quarta-feira após carnaval com a celebração de cinzas colocadas na testa dos fiéis como símbolo da transformação e mortalidade humana. As celebrações litúrgicas, a meditação dos textos bíblicos, cantos e orações quaresmais tem um forte chamamento a conversão humana-espiritual. Todo processo de conversão humana exige no mínimo um tempo de 40 dias de intensa oração pessoal e comunitária, como convida a liturgia da Igreja. Os cristãos através da oração e da prática da abstinência e da caridade buscam conversão pessoal e preparam-se para celebrar a festa da Páscoa do Senhor, a páscoa de toda Igreja.

Aos que se sentirem chamados por Deus dispõem de tempo para o crescimento da fé. O crescimento espiritual vem de um processo intenso de oração, de meditação da palavra do Senhor e da prática da caridade. A Sagrada Escritura narra que os grandes personagens da História da Salvação vivenciaram um prolongado tempo de intensa oração levando a conversão pessoal. Em tempo de corre-corre da vida secular e urbana, olhar estes sábios personagens são experiências iluminadoras a todos que desejam responder com maior profetismo ao chamamento de Deus. Nos textos bíblicos são muito valorizados os 40 dias de Noé e de sua família em oração na Arca (Gênesis 7,12); os 40 dias de Moisés de oração elevado numa nuvem para o Monte Sinai (Êxodo 24,18); 40 anos de peregrinação do povo de Israel no deserto (Deuteronômio 2,7); do profeta Elias que caminhou durante quarenta dias e noites para à montanha de Deus, o Horeb, buscando sua própria conversão (1Reis 19,8); e dos 40 dias de Jesus no deserto, em oração preparando-se para assumir a missão de anunciar o Reino de Deus Pai junto as comunidades de Israel (Mateus 4,2).

Certamente, da oração profunda vem um novo nascimento na fé e uma renovada disposição de servir ao chamado de Deus. Em 1224 são Francisco de Assis, inspirado pelo Deus criou a quaresma de São Miguel. A quaresma de São Miguel é também um período de 40 dias de oração que começa no dia 15 de agosto e se estende até 29 de setembro, dada que a Igreja comemora os santos Arcanjos. A inspiração de São Francisco em constituir a quaresma de São Miguel visa em rezar em especial pela salvação das almas das pessoas não convertidas, por aquelas que aceitam a fé na hora da morte e para retirar as almas do estado do purgatório. Aos poucos o exercício da quaresma de São Miguel ganha força entre os cristãos católicos que rezam pela conversão pessoal e em especial dos mais necessitados da luz e da graça de Deus. Esta iniciativa de Francisco é muito oportuna diante uma sociedade secularizada necessitada de tempos maiores de oração e de encontro com Deus.

A Igreja Católica motiva aos fiéis a viverem com intensidade o tempo da quaresma em preparação a Páscoa do Senhor, através de intensa orações e práticas de abstinências e de obras espirituais e corporais da misericórdia. As cruzes da vida serão enfrentadas pela força espiritual e confiança em Cristo, como escreve São Paulo “dando-nos a conhecer o mistério de sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo a sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas, as que estão no céus e que estão na terra” (Efésios 1,9-10). Em tempo de secularismo, de consumismo e de exacerbação do hedonismo, parece-nos oportunas duas quaresmas para o crescimento de fé dos cristãos católicos e para ajudar na conversão dos não crentes. Sob olhar religioso, em presente contexto duas quaresmas são mais que necessárias, a oração, o jejum e a caridade nunca serão demais, dada a condição da natureza humana. As duas quaresmas nos aproximam de Jesus que na solidão, à noite, a madrugada ou as escondidas estava em constante oração a Deus Pai (Mateus 14,23).      

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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