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Setembro Dourado: Atenção, pode ser câncer

por Rudimar Galvan

Especialista do HSVP orienta sobre sinais que podem contribuir para o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil

Em alusão ao Setembro Dourado, o Centro Oncológico Infantojuvenil do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de Passo Fundo, reforça a importância da identificação precoce do câncer em crianças, adolescentes e jovens. Embora a incidência da doença seja baixa entre 0 e 21 anos, o câncer está entre as principais causas de mortalidade nessa fase da vida, conforme o coordenador do serviço, oncologista pediátrico e hematologista Pablo Santiago.

A campanha chama a atenção para o fato de que muitos sintomas podem ser confundidos com manifestações comuns da infância, relacionadas à atividade física, à rotina escolar ou às brincadeiras. Por isso, pais e profissionais de saúde precisam estar atentos a mudanças persistentes ou que fogem do padrão habitual da faixa etária. “Muitas doenças apresentam sintomas semelhantes aos do câncer e, diante disso, é comum que se pense inicialmente em uma condição menos grave. A tentativa de acreditar que se trata de outra doença pode se transformar em uma armadilha, pois, muitas vezes, a pessoa não quer lidar com a possibilidade de um diagnóstico oncológico e acredita que, ao considerar outra hipótese, o resultado será diferente. Mas isso não é real”, alerta o Dr. Pablo.

Essa resistência pode atrasar a procura por atendimento, a realização de exames e o encaminhamento para um serviço especializado. Segundo o médico, mesmo quando os exames apresentam sinais que levantam suspeita, pode haver uma tentativa de atribuir os sintomas a outras condições. “Não é porque alguém pensou em câncer que vai fazer com que a doença se estabeleça. O problema ocorre no sentido contrário: quando a doença está acontecendo, mas não se pensa nessa possibilidade, começa-se a perder tempo, o que pode influenciar negativamente no tratamento.”

Atualmente, os resultados positivos do tratamento chegam a 80%, mas variam conforme o país e a região. De acordo com o especialista, além da capacidade dos centros de tratar a doença, os índices de cura estão diretamente relacionados à identificação precoce. “Essa é uma das vantagens observadas nos países que apresentam melhores estatísticas: a capacidade de suspeitar da doença e identificá-la em uma fase inicial, quando o paciente ainda não apresenta complicações.”

 

PERSISTÊNCIA E ASSOCIAÇÃO DE SINTOMAS SÃO SINAIS DE ALERTA

Não existe um único sintoma capaz de indicar câncer. O que deve chamar a atenção é a persistência ou a associação de diferentes manifestações ao longo do tempo. Entre os sinais estão febre prolongada, dor de cabeça persistente no período da manhã, vômitos matinais, desequilíbrio para caminhar, hematomas, aumento de linfonodos, aumento do volume abdominal, perda de peso, suores noturnos e dor óssea. Uma mancha roxa, por exemplo, pode ser associada pelos pais a uma batida durante uma brincadeira. Já a febre é uma manifestação comum na infância e, isoladamente, não significa câncer. Porém, quando persiste por vários dias, especialmente à noite, deve ser investigada.

“Uma febre que dura um, dois ou três dias pode inicialmente não chamar tanta atenção. Porém, quando passam três, quatro ou cinco dias e ela continua presente todas as noites, é necessário investigar. Depois de alguns dias, a criança também pode apresentar suores noturnos, dor óssea, nas pernas ou nas costas e palidez. Essa combinação já pode representar um conjunto básico de sintomas observado, por exemplo, em casos de leucemia”, explica o oncologista e hematologista.

O câncer é uma doença progressiva e, inicialmente, pode não apresentar manifestações evidentes. À medida que evolui, os sinais podem se tornar mais perceptíveis e se acumular. “No começo, ninguém necessariamente percebe o que está acontecendo. À medida que a doença progride, porém, ela começa a se manifestar de maneira mais relevante e evidente, podendo acumular sintomas de forma grave e, em alguns casos, fazer com que o paciente chegue ao serviço já em estado grave”.

 

O PRIMEIRO PASSO É PROCURAR ATENDIMENTO MÉDICO

Diante de sinais persistentes ou de alterações que chamem a atenção, a orientação é procurar atendimento médico em uma unidade básica de saúde ou consultório. A partir da avaliação clínica, podem ser solicitados exames básicos que auxiliam na investigação. “No caso da leucemia, por exemplo, a suspeita, na maioria das vezes, pode ser levantada por meio de um simples hemograma e do exame físico. Ao examinar uma criança e identificar, por exemplo, aumento do baço ou do fígado, o profissional já pode levantar uma suspeita bastante forte, seja de câncer ou de uma doença tão grave quanto ele”, disse o Dr. Pablo.

Quando há suspeita, o encaminhamento para um serviço especializado deve ocorrer de forma rápida. Em Passo Fundo, os pacientes são direcionados ao Centro Oncológico Infantojuvenil do HSVP, onde passam por avaliação e investigação para confirmar ou descartar a hipótese e, quando necessário, iniciar o tratamento. “Quando existe a possibilidade de câncer, o ideal é encaminhar o paciente para um serviço especializado, como o nosso, onde o atendimento é rápido. Depois que o paciente chega ao serviço, a investigação é realizada para confirmar ou descartar a suspeita e, com o diagnóstico estabelecido, podemos iniciar o tratamento”.

O médico ressalta ainda que o encaminhamento para investigação não significa que o paciente tenha câncer. “O encaminhamento e a suspeita não farão com que a doença se estabeleça caso ela não esteja acontecendo. É muito pior deixar de pensar na doença e descobrir posteriormente que realmente se tratava de câncer e adiar uma avaliação por receios, muitas vezes, de natureza psicológica.”

 

PRINCIPAIS TIPOS DE CÂNCER EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Os tipos de câncer mais frequentes também variam conforme a idade. Na primeira infância, as leucemias, especialmente a leucemia linfocítica aguda, estão entre as principais neoplasias, seguidas pelos tumores do sistema nervoso central e pelos tumores abdominais, como neuroblastoma, tumores renais e hepáticos.

Na adolescência, o perfil se modifica, com maior ocorrência de linfomas e tumores do sistema nervoso central, além de tumores gonadais, como os testiculares e ovarianos, e tumores ósseos relacionados ao crescimento. “Dependendo da faixa etária, nós temos uma distribuição diferente dos tipos de câncer. Na adolescência, aparecem com maior frequência os linfomas e os tumores do sistema nervoso central, além dos tumores gonadais e ósseos”, destacou o Dr. Pablo

A investigação parte da avaliação clínica e pode incluir exames simples como hemograma, raio-X, ultrassom e outros procedimentos, conforme os sinais apresentados. O objetivo é identificar alterações que indiquem a necessidade de aprofundar a investigação e realizar o encaminhamento adequado.

 

REDE DE ATENDIMENTO CONTRIBUI PARA IDENTIFICAÇÃO PRECOCE

Quando uma equipe de saúde identifica uma suspeita de câncer, o paciente é inserido no sistema eletrônico de gerenciamento regional e direcionado ao Centro Oncológico Infantojuvenil do HSVP. O fluxo é monitorado continuamente e, geralmente, a consulta é realizada na mesma semana. “A responsabilidade não está somente no centro especializado. Quem está na ponta tem um papel fundamental, porque é ali que nasce a suspeita e começa todo o processo de investigação e encaminhamento”, ressalta o Dr. Pablo.

É justamente para reforçar essa importância que o Setembro Dourado dedica um período à conscientização sobre a suspeita e o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil. Assim como ocorre em outras campanhas de saúde, a iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre os sinais de alerta e estimular a busca por atendimento. “O Setembro Dourado é uma oportunidade de chamar a atenção para a suspeita e para o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo identificarmos, melhores são as possibilidades de tratamento”, afirmou.

Por isso, fortalecer a atuação dos serviços de saúde, ampliar a capacidade de identificar os sinais e garantir o encaminhamento adequado são medidas fundamentais para agilizar o diagnóstico e aumentar as chances de cura. “Precisamos aumentar a capacidade de suspeitar, identificar precocemente e encaminhar esses pacientes para transformar e salvar vidas”, conclui o especialista.

*Hospital São Vicente de Paulo

Central de Conteúdo Unidade Tua Rádio Cacique

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