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Uma instituição criticada, mas sólida e profética

Miguel Debiasi

O desenvolvimento da sociedade acontece pela solidez de suas instituições. A civilização depende da eficácia das instituições e de seu trabalho prestado. A Igreja Católica, prestes a celebrar 2000 anos de existência, tem recebido severas críticas. Isto não abalou a Igreja, mas a fortaleceu enquanto instituição e comunidade.

As instituições de nosso país podem ser classificadas em três setores. O primeiro setor refere-se ao Estado em suas diferentes esferas – federal, estadual e municipal, e seus órgãos como os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário. Estas Instituições Públicas incluem autarquias, fundações e empresas públicas, e sociedades de economia mista, que atuam em diferentes áreas para atender ao interesse público.

O segundo setor são as organizações que atuam no mercado com fins lucrativos, produzindo bens e serviços para atender às demandas da sociedade. Este setor abrange os diferentes setores da economia, como o primário – agricultura, pecuária e extrativismo, secundário – indústria e o terciário – comércio e serviços.

O terceiro setor é formado por Organizações Não Governamentais (ONGs). São entidades privadas sem fins lucrativos que atuam em diversas áreas sociais, como saúde, educação, meio ambiente, direitos humanos, entre outras. Essas Instituições sem fins lucrativos abrangem fundações, associações e outros tipos de organizações que buscam promover o bem-estar social e o desenvolvimento da sociedade. A Igreja Católica está inclusa neste setor.

Os três setores interagem e se complementam, cada um com suas particularidades e importância para o desenvolvimento social e econômico do país. Estas instituições são estruturas sociais organizadas que desempenham funções cruciais na manutenção da ordem, na transmissão de valores e na facilitação da interação social. Elas estabelecem normas e regras que guiam o comportamento individual e coletivo, promovendo a estabilidade e a coesão social.

A Igreja Católica Apostólica Romana, segundo sua doutrina, foi fundada por Jesus Cristo. A Igreja considera que Jesus estabeleceu a base da Igreja e deu a Pedro a autoridade de liderança: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18-19). No dia de Pentecostes, por volta do ano 33 d.C., a descida do Espírito Santo marcou o início da missão dos apóstolos de divulgar o Evangelho e estabelecer a Igreja no mundo (Atos dos Apóstolos 2).

Aos poucos, a Igreja Católica foi se constituindo como a única, santa, católica e apostólica Igreja fundada por Jesus Cristo, cujos bispos são sucessores dos apóstolos. Ela foi se desenvolvendo ao longo dos séculos, com a definição de doutrinas, ritos e a expansão da fé cristã.

O termo “católica”, quer dizer universal, aparece pela primeira vez em uma carta de Santo Inácio de Antioquia por volta do ano 110 d.C., para referir-se à Igreja em geral. O Édito de Milão, em 313 d.C., legalizou o cristianismo, mas a Igreja Católica já existia e se desenvolvia pelo mundo.

Ao longo da história a Igreja Católica tem sido alvo de diversas críticas, que abrange as questões doutrinárias, institucionais e práticas. As críticas variam de acordo com a perspectiva de quem as faz, com alguns focando em contradições entre o discurso e as ações da Igreja, e outros questionam sua estrutura de poder e influência.

No período da cristandade, do século V ao XVIII, as áreas mais criticadas foram direcionadas a doutrina e a prática. Críticas foram dirigidas à política religiosa das Cruzadas (1095), das guerras santas que causaram grande violência e sofrimento. A Inquisição (1231), responsável pela perseguição de hereges e opositores, vista como um período sombrio da história da Igreja. Crítica pela sua influência nos poderes temporais, sobre governos e sociedade. E, pela influência cultural, impondo valores, crenças em contexto de colonização e de evangelização.

No período da Reforma (1545-1648), a Igreja foi criticada pela prática da venda de indulgências, que prometia o perdão dos pecados mediante pagamentos, questionando a ideia de salvação pela fé. A hierarquia e sua organização, considerada uma estrutura hierárquica, com o Papa no topo, é vista por alguns como autoritária e pouco democrática, limitando a liberdade individual e o papel dos leigos. A crítica pelo suposto luxo e riqueza, em contraste com a pobreza e humildade pregadas por Jesus Cristo.

Em era contemporânea, a crítica tem sido dirigida por suas posições sobre temas como aborto, controle de natalidade, casamento gay, sendo acusada de ser conservadora e de não acompanhar as mudanças sociais. A crítica pelos escândalos do abuso sexual de menores e vulneráveis, envolvendo membros do clero. As acusações de corrupção financeira, que tem abalado a credibilidade da Igreja Católica.

Há as críticas que vem dentro da Igreja, incluindo teólogos, padres e leigos, que expressam preocupações sobre a instituição e suas práticas, em prol de uma atualização e fidelidade ao ensinamento de Jesus Cristo. Outras críticas estão direcionadas a autoridade da Igreja, falta de transparência, afastamento da realidade social e a dificuldade de adaptação à modernidade e de compromisso com a justiça social.

A Igreja Católica se aproxima da data de celebrar 2000 anos de existência, sendo a mais antiga e a maior Instituição da civilização, com maior número de adeptos e com maior poder de influência. O futuro da Igreja Católica depende da fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. Quanto mais fiel ao Evangelho mais influente e profética se tornará a Igreja para qualquer tempo da história da civilização. As críticas ajudam a atualizar e reafirmar a Igreja em seu compromisso com o Evangelho, consequentemente, com a construção de um mundo mais justo e fraterno.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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