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Se queres roubar, crie um banco!

Miguel Debiasi

Em A República, o filósofo Platão alerta que a sociedade é arruinada por líderes movidos pelo ganho pessoal em detrimento do bem comum. Ele defendia que os governantes deveriam ter uma vida de virtude e sabedoria. A gravidade dessa responsabilidade é evidenciada em sua célebre frase: “A punição que os homens bons sofrem, quando se recusam a governar, é viver sob o governo dos homens maus”.

Ao longo da história republicana do Brasil, consolidou-se um imaginário social, jurídico e midiático que estigmatiza populações negras e de baixa renda, alçando-as à condição de ameaças à ordem pública. Essa consolidação cultural e institucional é a base do racismo estrutural e da seletividade do sistema penal brasileiro. Este perverso imaginário opera historicamente sobre três pilares.

O primeiro remonta ao sistema escravista, que durou 353 anos, estendendo-se da década de 1530 até sua abolição formal com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888. Durante esse período, o Brasil tornou-se o maior importador de africanos escravizados das Américas. Após a abolição, a população negra foi marginalizada, sem acesso à terra, emprego ou moradia. Para lidar com a pobreza resultante, o Estado brasileiro criminalizou a cultura e os modos de sobrevivência dos negros. O Código Penal de 1890, por exemplo, criminalizou a capoeira e a prática da vadiagem. Assim, a elite da época passou a ver o negro libertado não como um cidadão, mas como um “criminoso em potencial” e uma ameaça à ordem pública.

O segundo pilar diz respeito à questão da aporofobia e à seletividade do sistema penal. O Estado opera com dois pesos e duas medidas: os crimes de rua, como furtos e roubos, são tipificados como crimes graves e costumam resultar em penas severas de encarceramento em massa da população periférica e negra. Em contrapartida, os crimes de colarinho branco, como sonegação, corrupção e desvio de recursos públicos, que envolvem cifras bilionárias que prejudicam toda a sociedade, mas frequentemente resultam em prescrição. Algumas vezes, em penas alternativas ou prisões domiciliares em mansões, graças aos recursos financeiros que permitem a contratação de grandes bancas de advogados.

O terceiro pilar histórico dessa engrenagem de marginalização é a grande mídia hegemônica, cuja cobertura criminal opera de forma profundamente seletiva. Ao noticiar delitos cometidos por pessoas da periferia, os veículos frequentemente ostentam a cor da pele preta e o local de moradia como elementos justificadores da violência, criando um espetáculo punitivo. Por outro lado, ao cobrir crimes praticados pela elite econômica ou política, a imprensa adota um tom corporativo e benevolente, recorrendo a eufemismos como “desvios”, “suspeitas” ou “erros administrativos”. Essa dualidade de tratamento protege a imagem dos poderosos enquanto criminaliza a população negra e periférica.

Essa cultura atualiza constantemente a provocação do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht, que questiona: “O que é roubar um banco comparado a fundar um banco”? Brecht cunhou essa reflexão no romance Os Três vinténs, de 1934, para criticar o sistema financeiro e o capitalismo. O impacto financeiro e social causado pelas grandes instituições, através de juros, taxas e especulação, revela-se frequentemente muito mais devastador para a sociedade do que o roubo cometido por um indivíduo.

O Banco Master foi uma instituição financeira brasileira que, após um rápido crescimento na Avenida Faria Lima, entrou em colapso.  Fato que marca a história do sistema financeiro nacional como um dos maiores escândalos de fraudes do país.

O banco foi fundado em 1970 com o nome de Máxima Corretora de valores e títulos mobiliários. Em 1990, a empresa expandiu suas operações e passou a atuar como Banco Máxima. Em 2018, foi adquirido pelo empresário Daniel Vorcaro, sendo oficialmente renomeado para Banco Master. Em 2019, o Banco Central, então presidido por Roberto Campos Neto, autorizou formalmente a instituição a operar oficialmente como Banco Master.

Para captar recursos, a estratégia do Banco Master baseou-se na oferta de CDBs com rentabilidade muito acima da média do mercado, chegando a pagar 140% do CDI. Esse modelo atraiu bilhões de reais em investimentos, em parte oriundos de fundos de pensão estaduais e municipais, permitindo movimentar volumes massivos e até adquirir o banco digital will bank em 2024.

No entanto, em novembro de 2025, o Banco Central, sob a presidência de Gabriel Galipolo, decretou a liquidação extrajudicial da instituição. A medida deflagrou uma série de investigações e a prisão do seu controlador, Daniel Vorcaro.

Ainda é incerto até onde as apurações da Polícia Federal, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União (TCU) chegarão para esclarecer o que já é considerado um dos maiores escândalos do setor financeiro na história do Brasil. As apurações buscam determinar como a instituição manteve balanços de aparente sucesso, operava sob grave asfixia financeira e usava ativamente os volumosos aportes em ativos de alto risco e baixa liquidez.

Pesa ainda sobre os envolvidos a suspeita de alinhamento político e cooptação para garantir captações irregulares junto a fundos de pensão estaduais e municipais, tornando o caso uma das maiores e mais críticas investigações do setor financeiro do brasileiro. O amplo alcance das apurações, que também envolve acordos de delação premiada, determinará a extensão total dos danos e as responsabilidades de todos os atores corporativos e políticos envolvidos.

A derrocada do Banco Master subverte a narrativa histórica de que a criminalidade é um reflexo da vulnerabilidade social. O episódio transfere a autoria da desordem e do prejuízo publico para a elite que Platão já apontava como desprovida de virtude e sabedoria. Espera-se que o avanço das investigações rompa com a seletividade penal que historicamente poupa o colarinho branco e pune a periferia.

Por fim, a história recente deixa claro: enquanto a base da sociedade luta pela sobrevivência com dignidade e honra, o topo formula os mecanismos mais sofisticados de espoliação ou saque, provando que, no Brasil, o verdadeiro perigo social veste terno e gravata, morando em grandes centros e em mansões.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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