Páscoa: a passagem da morte à vida
A Páscoa é a celebração central da liturgia cristã. A Igreja elabora a teologia e organiza o calendário litúrgico a partir da celebração da Páscoa de Cristo. Com teologia e com liturgia a Igreja orienta e anima ao povo de Deus a viver a fé à luz do Mistério Pascal de Cristo. A cada Nova Ceia Pascal celebramos a nossa própria passagem: da morte para a vida plena.
A Ceia Pascal de Cristo reúne a longa caminhada da civilização humana, da crença de muitos povos e a revelação e a ação do próprio Deus. A Ceia Pascal de Cristo celebra as muitas passagens humanas. A fé em Deus sempre é uma passagem, como da escravidão a libertação, das injustiças a realidade da justiça, do pecado a salvação.
A origem da Páscoa cristã está ligada aos povos primitivos, aos pagãos, ocupados com o cuidado da terra e dos rebanhos. Neste período antigo, a Páscoa era uma festa primaveril, celebrada na passagem do inverno para a primavera. Era uma festa da alegria porque a natureza morta pelos rigores do inverno se refazia verdejantes com as condições climáticas da primavera.
No início do tempo bíblico, por volta de 2000 a.C., os hebreus, povo de origem semita, destacaram-se na antiguidade ao estabelecer-se em Canaã, às margens do Rio Jordão, na árida região da Palestina. Daí vem o seu nome hebreu que significa “povo do outro lado do rio”. O patriarca Jacó, filho de Isaac, filho de Abraão, ele e os seus doze filhos, pais das doze tribos de Israel, com sua numerosa descendência chegou ao país do Egito e com o passar dos anos foram escravizados pelos egípcios.
Quase 800 anos depois, por volta de 1250 a.C., os hebreus liderados por Moisés se libertaram da escravidão do Egito e voltam à Palestina, que passaram a celebrar esta festa com outro significado (Êxodo 1,15-22; 2,23-35). Agora, celebrada não mais como passagem da natureza morta pelo inverno para a vida nova da mesma na primavera, mas como passagem sua da escravidão do Egito para a liberdade na Terra Prometida (Êxodo 13,1-7). O povo eleito celebra a Páscoa como memória e agradecimento pelas maravilhas que Deus realiza nele e por ela renova sua aliança e compromisso com seu Deus.
Segundo os textos bíblicos, foi durante a caminhada de volta dos hebreus à Palestina que Moisés recebeu as tábuas contendo os dez mandamentos de Deus (Êxodo 32,15-19; 34). Pela caminhada dos hebreus surge o judaísmo, religião baseada nas antigas escrituras, que servem de fundamento para sua crença, mas também como documento histórico para registrar sua trajetória de observância à Lei do Senhor.
No judaísmo, a Páscoa é chamada de Pessach, a comemoração da libertação do povo judeu pós um período de 400 anos de escravidão do Egito. O termo hebraico Pessach significa passagem ou travessia. Assim, a festa litúrgica da Páscoa celebra a travessia dos judeus pelo mar Vermelho em direção à Terra Prometida, conforme a promessa de Deus.
A Páscoa judaica é um dos eventos centrais da história do povo de Israel. Evento este como relata a Sagradas Escrituras tem sua culminância com o mistério pascal de Jesus Cristo. Jesus Cristo dá sentido pleno e definitivo à Páscoa do povo de Israel. Em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, que sofreu, morreu e ressuscitou, o ser humano obtém a salvação eterna e a libertação plena, do perdão dos seus pecados, da reconciliação com Deus e da vida na sua plenitude.
A Páscoa cristã possui um intrínseco vínculo com as festas dos povos primitivos e com a Pessach judaica. Jesus Cristo fazia parte do povo escolhido, o povo de Israel. Anualmente Jesus se reunia com sua família de José e Maria e, posteriormente, com o grupo dos apóstolos e apóstolas para celebrar a Ceia Pascal.
No Egito, Deus ouviu o clamor do seu povo escravo e interveio libertando-o da escravidão (Êxodo 3,37-10). Agora, Deus interveio de forma definitiva pela Encarnação do Verbo, da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e realiza a plenitude dos tempos (Gálatas 4,4). No passado, Deus enviou Moisés para libertar seu povo da terra da escravidão, agora, Deus envia o seu próprio Filho, que é verdadeiramente aquele que vem em nome do Senhor, uma vez que desceu do seio da Trindade. Ele é o Novo Moisés, que liberta toda humanidade da escravidão do pecado e das injustiças. Com sua Santa Páscoa, Cristo conduz seu povo rumo à verdadeira terra prometida: a pátria celeste, o céu, a vida eterna, a visão de Deus tal como Ele é, em seu Reinado.
Na longa história da festa da Páscoa dos povos primitivos e do povo hebreu, Cristo introduziu nela um novo significado e uma nova maneira de celebrá-la. Ele transformou o pão ázimo em seu corpo e o vinho em seu sangue e deu para os apóstolos e apóstolas comerem e beberem. A estes e estas, primeiros seguidores, deu-lhes o poder de fazerem o mesmo. Hoje, fazemos em cada Nova Ceia Pascal, é aquilo que Ele viveu na Cruz e na Ressurreição.
Agora e em todos os tempos, a definitiva Páscoa celebra a passagem de Cristo, de sua Morte para sua Ressurreição. Vivendo da Páscoa de Cristo, a humanidade realiza a sua contínua Páscoa. Da contínua passagem do egoísmo, da ganância para o espírito comunitário e fraterno, do ódio e da intolerância para o amor e a acolhida, do individualismo e da omissão para o compromisso libertador das opressões. E, finalmente, é da passagem da vida deste mundo para a vida eterna na presença de Deus e seus eleitos.
A cada ano participando da celebração ativamente da Páscoa do Senhor nos alimentamos para lutarmos pela nossa libertação da escravidão e de todo mal para vivermos a liberdade de filhos e filhas de Deus. Lutamos para libertar o mundo de tantas injustiças, da opressão, das indiferenças e das desigualdades sociais escandalosas para fazê-lo passar para a fraternidade universal, a constituir toda humanidade em bem-aventurada, a civilização do amor.
Em cada Nova Ceia Pascal, que se realize em cada cristão e em todo ser humano, aquilo que Ele, Cristo, viveu da passagem da Cruz para a Ressurreição da vida. Num mundo de tantas cruzes e tantos sofrimentos, uma libertadora e transformadora passagem!
Comentários