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Os apagões da nação brasileira

Miguel Debiasi

 

Percebe-se de uma vontade política empenhada na construção de um muro entre o setor privado e o setor público no Brasil. Ao setor privado são ressaltadas as suas capacidades enquanto afirma-se que o Estado é incapaz e ineficiente. Se isto for verdade, pergunta-se: De quem são as responsabilidades de suprir as demandas da população em prol de uma nação mais justa, equitativa, fraterna, democrática?

Diariamente assiste-se TV, ouve-se rádios, lê-se revistas, jornais, artigos de opinião entre especialistas do setor privado e público. No campo da economia, apresenta-se definições de setor público onde o Estado é o centro. Já no setor privado defende-se um conjunto de iniciativas econômicas que não dependem do Estado. Enquanto no setor público o protagonismo está nas mãos do Estado, no setor privado a empresa é o sujeito do crescimento e desenvolvimento da nação.

No campo da assistência e seguridade social, os especialistas apontam que cabe ao Estado harmonizar a nação e apresentar programas para a erradicação da pobreza e da desigualdade social. Os defensores privados defendem que o Estado se envolva o mínimo possível na vida econômica da população, o imposto deve ser mínimo, o livre mercado precisa ser incentivado e praticado entre as empresas, proporcionando aumento de empregos, a erradicação da pobreza e a riqueza da população deve ser desenvolvida unicamente pela meritocracia. 

Esse antagonismo público e privado continuará entre os especialistas em ciências econômicas. Mas esclarecida a noção do que é público ajudará os cidadãos a serem porta vozes do que cabe ao Estado. Ciente do papel do Estado, o cidadão se tornará sujeito das coisas comuns e coletivas. De elevada consciência dos deveres do Estado, o cidadão enfrentará os discursos subjetivos e a luta ideológica adversa as políticas públicas justas. E para haver um cidadão evoluído em sua consciência e em sua ação é preciso que tenha acesso a um plano educativo qualificado.

O teórico suíço Jean Piaget (1896-1980), considerado um dos mais importantes pensadores do século XX, argumenta que os métodos pedagógicos aplicados dependem do seu êxito, como da mudança de consciência e transformações sócio-políticas. A afirmação de Piaget nos leva a perguntar: Podemos considerar o método pedagógico responsável pela formação da consciência crítica e experimental, como da transformação sócio-política? Os pedagogos vão dizer que o método pedagógico aplicado na rede de ensino público e privado é um instrumental imprescindível na formação da consciência humana.

Embora Piaget tenha mostrado a importância dos métodos pedagógicos para evolução mental das crianças e para resolver alguns problemas no campo da educação e do conhecimento, tem-se ciência que são imprescindíveis outras condições e estruturas para o desenvolvimento educacional e humano. Recentemente o Brasil sofreu de forma propositada um apagão no campo da educação, a ponto de autoridades questionarem a escolaridade obrigatória, a gratuidade do ensino, o sistema de bolsa de estudos, a necessidade de estruturas de profissionais, técnicos e de estabelecimentos escolares por todo um país.

Assim como não foram empenhados suficientes recursos para financiar programas, estruturas educacionais, o Brasil sofreu o apagão em outras áreas como da seguridade social, infraestrutura, habitação, tecnologia, inovação, indústrias, prestação de serviços públicos e outros setores. Todavia um país que pensa numa perspectiva educacional de formação de consciência e qualificação técnica e profissional dos seus cidadãos, é sabedor que precisa também construir um conjunto de estruturas sociais, culturais, materiais, tecnológicas, públicas para toda população.

Nos últimos anos, sob impulso da promessa da economia neoliberal buscou-se politicamente aparelhar o Estado e sua estrutura na prestação de serviço ao setor privado, com isso, desvanecendo-se de lutas e de compromissos de mudança social. Na promessa da livre economia provocou-se um crescente ceticismo em relação às coisas públicas e as políticas do Estado. Houve um menosprezo ao papel do Estado em prol do setor privado apresentado como salvador da pátria.

O mantra cantada pelos homens dos negócios, muitos dos quais ignoram qualquer compromisso com a elevação dos níveis educacionais e de transformação social do país, prejudicou ambos os setores, público e privado. A privatização da Eletrobrás em 2022, a maior empresa fornecedora de energia do Estado Brasileiro, é fato emblemático, do sem escrúpulos com as coisas públicas. Com o apagão do dia 15 agosto, que atingiu 25 Estados da nação e o Distrito Federal, criou-se um ambiente de insegurança pública e privada. Como se não bastasse, nenhum acionista majoritário da Eletrobrás assumiu as responsabilidades com os prejuízos causados pela interrupção da energia elétrica. Obviamente, que o apagão revela a guerra entre os acionistas majoritários na Eletrobrás, todos disputando controle e lucros.

O interesse e o desejo da população é que se estabilize e se valorize no Brasil os setores considerados básicos para os benefícios do público e privado, como da educação, infraestrutura, saneamento básico, seguridade social, cultural, habitação, economia e outros, evitando qualquer apagão. E acontecerá isso quando a população tiver acesso gratuito ao ensino e usarmos métodos pedagógicos eficientes como aponta o Piaget. Essas conquistas virão muito da organização e da pressão dos movimentos populares sobre o governo e a sociedade.

Público e privado, ambos precisam um do outro. Quanto mais fortes forem os dois setores, todos ganham e se beneficiam do trabalho de ambos. Em contrário, haverá outros apagões.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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