O presente que olha para seu futuro
A vida ensina que nada poderá voltar a ser o que era antes. Concepção esta que para a filosofia antiga é a fonte da sabedoria. A sabedoria do presente está em discernir qual o caminho a percorrer para tornar mais promissor o futuro. Em novembro de 2023 no encontro do G20, chefes de Estados, representantes dos mais diversos movimentos sociais e estudiosos do mundo sentaram-se juntos para tomar decisões para agir no presente que olha para o seu futuro.
O filósofo grego Platão (428 a.C. 347 a.C.) em sua obra A Repúbica, publicada por volta de 380 a.C. apresenta a alegoria da caverna ou o mito da caverna. Cada elemento da alegoria refere-se ao ser e ao conhecimento, questão muito presente no dualismo ontológico e epistemológico de Platão. Na alegoria da caverna há uma relação entre os conceitos de escuridão e ignorância; luz e conhecimento; aparência e realidade; imagem dos homens presos em uma caverna - nível inferior, e dos homens liberados no exterior - nível superior.
Vejamos o significado dos elementos da alegoria da caverna: Os homens presos ou os prisioneiros na caverna são uma imagem de qualquer pessoa presa às suas percepções, à realidade visível e as compreensões que lhe são apresentadas e originadas do cotidiano ou que são repassadas de geração em geração; As correntes que prendem os prisioneiros representam o falso conhecimento das coisas, à ignorância presente no senso comum; As sombras projetadas nas paredes da caverna são meras projeções que produzem ilusão e certo conforto; As luzes que entram pelo túnel da caverna representam a racionalidade, o conhecimento da verdade, o entendimento das coisas, algo difícil de ser enxergado.
Quando os prisioneiros conseguem libertar-se das correntes e saírem da caverna podem ficar confusos com a luz solar, mas aos poucos adaptam-se e decidem pela busca do conhecimento e da verdade. Com o conhecimento e a verdade o homem observa o vasto mundo e ajuda os companheiros a chegarem a real compreensão das coisas e uma vida plenamente libertada de todas as amarras e ignorâncias.
A alegoria da caverna é uma narrativa que serve para todos os tempos. É preciso ajudar as pessoas a pensarem nas condições que se encontra a vida humana, a libertarem-se da caverna, ou seja, do mundo físico, sensível. A narrativa provoca a pensar o nosso tempo com uma visão sistêmica contrapondo toda visão dominante, alienante. Por meio do conhecimento verdadeiro superar todos os indícios de ilusões e na sabedoria agir no presente tomando decisões para o futuro.
Nos dias 14 a 16 de novembro, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna, realizou-se o encontro da Cúpula Social do G20, do qual, nasceu uma Declaração Final, lida e aprovada por todos os representantes dos mais diversos movimentos sociais. Esta Declaração foi entregue ao presidente Luiz Inácio da Lula da Silva e ao presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, que assumiu a liderança do G20 para 2025.
A reunião dos chefes dos Estados e líderes mundiais do G20, realizada entre os dias 18 e 19 sob a coordenação da Presidência Brasileira, debateram esta Declaração Final que apresenta três propostas consensuadas em torno de três temas centrais: Combate à Fome, à Pobreza e à Desigualdade; Sustentabilidade, Mudanças do Clima e Transição Justa; Reforma da Governança Global.
A Declaração Final entregue aos chefes do G20 é fruto de um debate da sociedade civil, dos diversos movimentos sociais e segmentos da comunidade global, como: de mulheres, negros e negras, povos originários e indígenas, comunidades tradicionais, pessoas com deficiências, LGBTQIA+, jovens, crianças, adolescentes, pessoas idosas, populações deslocadas ou situação de rua, migrantes, refugiados e apátridas, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, da economia formal, informal, solidárias e de cuidadores. Diga-se, de uma representação social mundial que nunca é consultada e ouvida nas grandes decisões geopolíticas e macroeconômicas, até então conduzidas por um seleto grupo de mandatários.
Podemos dizer que a Declaração Final é fruto de um plural debate sinodal civil e popular, do pensar junto ao outro e a outra e da vontade de assumir juntos compromissos comuns e globais. Como afirmamos, a sabedoria está em discernir juntos as ações do presente para um futuro melhor para as gerações que darão continuidade a história.
O encontro dos representantes da Cúpula Social do G20 e a reunião dos chefes da Cúpula do G20, ao chegarem a um consenso comum com propostas assumidas e consensuadas mostraram que é possível a humanidade livrar-se das cavernas nacionalistas e ideológicas. É desejo de livrar-se das cavernas dos grupos seletos de mandatários para alcançar um outro mundo melhor possível para todos, mediante a escuta de vozes que historicamente foram silenciadas e ignoradas.
Este mundo melhor pelas decisões do G20 inicia-se com uma urgente e prioridade máxima, de assumir a iniciativa da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Aliança que promova a cooperação e a intercooperação entre países e organismos internacionais, estabelecendo um fundo específico para financiar políticas públicas e programas de combate à fome, de forma a garantir aos famintos o acesso à alimentação adequada.
Outras iniciativas para construir o melhor para todos e para evolução do planeta passa pela proposta da sustentabilidade, mudança do clima e transição justa; e da reforma da governança global, ou seja, construir um organismo capaz de oferecer respostas aos desafios contemporâneos e a manutenção da paz. Para os participantes do G20, a reforma do Conselho de Segurança da ONU é imprescindível para garantir a diversidade de vozes globais e promover soluções mais equilibradas e eficazes frente aos desafios atuais.
Essas propostas se transformadas em compromissos do tempo presente contribuíram com uma humanidade mais igualitária e comprometida com o bem comum e a sustentabilidade do planeta a nível global. Se colocadas em prática a sabedoria do pensar e agir em conjunto nos tira da caverna dos nacionalismos e individualismos. Enfim, libertando-nos das correntes e das cavernas históricas, mediante propostas que nascem para um bom fim global e do futuro.

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