Você está ouvindo
Tua Rádio
Ao Vivo
20:00:00
Tua Essência
23:59:00
 
 

O pior inimigo a ser superado, nós mesmos!

Miguel Debiasi

O Papa Francisco publicou em 2020 uma carta encíclica tratando da amizade social, sob o título Fratelli Tutti – todos irmãos. O pontífice apontou para a necessidade de olhar para as conflituadas relações sociais que vigoram em nível mundial. Nas conflituadas relações sociais, vê-se o ser humano como inimigo a ser combatido.

Quando o Papa Francisco publicou a encíclica Fratelli Tutti, o contexto social mundial de 2020 era marcado por uma série de crises globais, como a pandemia de COVID-19, tensões políticas e sociais em diversas regiões do mundo e a intensificação das desigualdades sociais e econômicas. A pandemia de COVID-19 revelou as desigualdades no acesso a saúde e aos recursos, mostrando a situação de vulnerabilidade de populações marginalizadas e dos problemas sociais preexistentes, como o desemprego, a pobreza e a fome. Essas crises expuseram a fragilidade da cooperação global e da diplomacia mundial.

A encíclica Fratelli Tutti critica o modelo socioeconômico neoliberal, que tem gerado exclusão social e empobrecimento em muitas partes do planeta. Em contrapartida, convidou homens e mulheres para uma reflexão sobre a importância do diálogo, da solidariedade e do cuidado com o próximo como bases para a construção de uma sociedade mais fraterna e acolhedora.

No segundo capítulo da encíclica, o pontífice fez a seguinte reflexão: “A vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro”. Francisco ressalta a importância do encontro com o outro e da construção de laços fraternos para uma vida plena e significativa, em contraste com a cultura do individualismo e do descarte que muitas vezes prevalece na sociedade atual.

O dramaturgo romano Tito Mácio Plauto (254 a 184 a.C.), em uma de suas peças famosas é Asinaria, escreveu uma frase que se tornaria célebre: “Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non vit”, ou “o homem é lobo do homem, e não homem, quanto não conhece o outro”. Plauto descreve a natureza desconfiada e potencialmente hostil do homem em relação a outros, principalmente quando não os conhece bem.

Séculos depois, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em suas obras, como “Leviatã” e “Do Cidadão”, utilizou uma versão da frase de Plauto: “homo homini lúpus”, que significa “o homem é o lobo do homem”. Hobbes descreve a natureza humana em seu estado de natureza, antes da formação de um governo, onde a competição e a violência seriam inerentes a essa condição social à qual estava submetido o ser humano.

Num estado de natureza, sem leis ou governo, os seres seriam movidos por seus próprios interesses e desejos, o que levaria a uma guerra de todos contra todos, onde cada indivíduo seria um potencial inimigo do outro. Os seres humanos são naturalmente egoístas e propensos a conflitos, vendo uns aos outros como próprios inimigos potenciais, a tendência natural levaria a uma “guerra de todos contra todos”.

Para Hobbes, a criação de um Estado forte, constituído por um contrato social, seria o caminho para garantir a paz e a segurança social do homem. No contrato social, os indivíduos abrem mão de parte de sua liberdade em troca de um Estado forte que lhe oferece segurança e proteção que contenha a natureza selvagem e egoísta do ser humano e garante a paz social.

Passados mais de dois milênios da afirmação de Plauto, séculos da proposta de Hobbes e alguns anos a do Papa Francisco, as crises e insegurança social se fortalecem em nível mundial. Essas crises e conflitos sociais são construídos por muitos fatores e questões históricas que se tornam ferramentas poderosas para perpetuar domínios e poderes. Vê-se no outro ou nas etnias diferentes o próprio lobo que precisa ser eliminado, como o único caminho da segurança e paz mundial.

Hoje, são fatores de conflitos globais as disputas territoriais e as reivindicações de soberania. Crises surgem de tensões entre grupos étnicos ou religiosos rivais, muitas vezes com raízes históricas. A disparidade na distribuição de riqueza e recursos tem gerado, historicamente, conflitos intermináveis entre estados e grupos econômicos.

A competição por recursos escassos, como água, petróleo e minerais, tem elevado o conflito entre nações, quanto dentro delas. As mudanças climáticas, que tem aumentado com frequência e intensidade os desastres naturais, como secas e inundações, tem exacerbado tensões sobre recursos e imigrações, desencadeando deportações de imigrantes que ferem os direitos humanos. 

Há disputa pelo domínio da informação, da comunicação, da tecnologia e outras. Estas crises são apenas um exemplo do que está ocorrendo no cenário mundial. Elas manifestam que o maior inimigo do homem é o próprio homem, capaz de recorrer às maléficas potencialidades, como do uso de bombas nucleares.

 Plauto, dramaturgo romano, apostava no conhecimento do outro para superar a hostilidade entre as pessoas. Hobbes apostava no Estado forte para superar essa condição natural e social do homem. O Papa Francisco aponta numa alternativa acessível a todos: o diálogo, a empatia, até o perdão e o bem-comum para estabelecer as relações sociais que contraponha o ódio e as guerras.

O futuro da humanidade em muito dependerá da ação dos Estados fortes, pelos quais, os governantes mundiais precisam trabalhar mais pela paz mundial, reagindo com planos contra toda guerra.  O futuro da humanidade, que seja seguro e justo para todos, também depende do indivíduo, evitando alimentar a inimizade social e cultivando a cultura do respeito, da compreensão e da colaboração.

Enfim, o homem pode ser para outro um irmão, um amigo, não o lobo e nem o inimigo a ser combatido e eliminado. A construção da paz mundial e da harmonia solidária entre povos e pessoas, é desafio que exige reflexão e ação em nosso tempo, para hoje.   

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

Enviar Correção

Comentários

Newsletter Tua Rádio

Receba gratuitamente o melhor conteúdo da Tua Rádio no seu e-mail e mantenha-se sempre atualizado.

Leia Mais