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O futebol merece o Messi

Miguel Debiasi

 

Embora o futebol tenha raízes em jogos rústicos da Antiguidade e da Idade Média, sua formalização na Inglaterra, em 1863, buscou padronizar a prática. Desde então, o esporte evolui continuamente, integrando novas dinâmicas táticas, regras, gestão profissional e ferramentas tecnológicas.

Hoje, o futebol transcendeu o campo para se tornar uma indústria global bilionária. Marcado pela hipercomercialização e intensa financeirização, o esporte é frequentemente movido por interesses corporativos e pela espetacularização, normalmente sobrepondo-se aos seus valores sociais e esportivos originais. Os maiores holofotes recaem sobre a Copa do Mundo da FIFA, a UEFA Champions League e as principais ligas nacionais: Premier League, La Liga e o Brasileirão.

As ligas europeias destacam-se pelo altíssimo investimento financeiro e pela concentração dos melhores talentos do planeta. Entre elas, a Premier League (Inglaterra) é amplamente reconhecida como a mais competitiva, rica e assistida do mundo. A La Liga (Espanha), consolida-se por abrigar potências globais e instituições históricas, como o Real Madrid e o Barcelona.

A Série A (Itália) é tradicionalmente valorizada por sua excelência tática e legado esportivo, enquanto a Bundesliga (Alemanha) atrai pela forte organização financeira e partidas de vocação ofensiva. Paralelamente, o Brasileirão consolida-se como a principal força do futebol sul-americano e uma das ligas mais disputadas e valiosas do mundo fora da Europa.

Neste cenário, destacam-se os grandes torneios continentais de clubes. A UEFA Champions League é a competição mais prestigiada e valiosa do planeta, reunindo a elite do futebol europeu. Já a Copa Libertadores da América é o torneio mais importante da América do Sul, famoso por sua intensidade e pela fervorosa paixão das torcidas.

O projeto de organizar uma Copa do Mundo de Futebol teve início com a criação da FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) em 21 de maio de 1904, em Paris, França, e atualmente tem sua sede em Zurique, Suíça. O torneio foi oficialmente aprovado em 26 de maio de 1928, em Amsterdã, Holanda, com o objetivo de criar uma competição nos moldes dos Jogos Olímpicos. A edição inaugural ocorreu em 1930, no Uruguai, país-sede que também se sagrou campeão entre as 13 equipes participantes. Com o passar dos anos, o crescimento do torneio exigiu a criação de uma fase classificatória, que hoje reúne cerca de duzentas seleções afiliadas à FIFA.

A 23ª edição do torneio, realizada em 2026 em conjunto por Canadá, Estados Unidos e México, terminou com o bicampeonato da Espanha. O torneio entrou para a história do futebol como a maior e mais rentável, com a ocupação de 99,7% dos estádios e receita recorde de US$ 13 bilhões pela FIFA. O torneio teve a participação de 48 seleções somando um total de 104 jogos.

Além de todo o espetáculo e entretenimento, a magnitude do megaevento atraiu intensos debates e críticas tanto nos bastidores quanto nas redes sociais. A insatisfação principal concentra-se na extrema mercantilização do esporte e na seletividade política da FIFA, fatores que levantam questionamentos sobre a equidade e o futuro competitivo de seleções de países em desenvolvimento e de pouca tradição no futebol.

A Copa do Mundo de Futebol tornou-se sinônimo de elitização extrema. Essa elitização extrema elevou os preços das entradas a patamares comparáveis aos de um carro zero-quilometro, transformando os estádios em espaços exclusivos das elites. Esse cenário de valores astronômicos, somado às polêmicas de práticas de comercialização, atraiu o escrutínio de procuradores de Nova York e Nova Jersey, que investigam as políticas de venda e revenda de ingressos adotadas pela FIFA.

Outro alvo de críticas envolve os problemas de hospitalidades e as rígidas políticas de imigração do país anfitrião, EUA. Essas restrições acabaram afetando diretamente e culminando em incidentes polêmicos, como a proibição de entrada e o consequente corte do árbitro somali Omar Artan. O episódio ganhou grande repercussão nas redes sociais, gerando uma onda de apoio global ao profissional, que foi impedido de realizar o sonho de apitar a Copa do Mundo devido à questão de visto.

A própria governança e a condução do torneio pela FIFA evidenciam escolhas questionáveis. A forte influência do governo de Donald Trump – alinhada à gestão polêmica do presidente da entidade, Gianni Infantino – transformou o maior evento do futebol em um palco de interesses geopolíticos. Esse cenário gerou forte desconforto, marcado por relatos de barreiras a torcedores de federações africanas e asiáticas e por decisões logísticas absurdas, como a exigência de pausas de hidratação em arenas climatizadas artificialmente.

A eliminação melancólica na Copa do Mundo de 2026 e a escolha de um treinador estrangeiro escancararam a crise de identidade da Seleção Brasileira. Sem um coletivo coeso, o time sofreu com a falta de craques decisivos e viu seus atletas reféns de um marketing agressivo, distantes da garra e da conexão com o país. Isto fica tão evidente que somente um jogador que não entrou em campo durante os jogos e nem a própria comissão técnica retornou ao Brasil com voo oficial da CBF, após a eliminação. 

Mais do que a organização tática e de planejamento amador da CBF, o verdadeiro declínio do futebol brasileiro reside na perda de suas raízes. O país que antes forjava craques geniais na terra batida e na várzea, onde o talento puro superava a falta de infraestrutura, hoje perdeu a sua essência. Afastados dessa realidade, os jogadores brasileiros se tornaram previsíveis e distantes da alma que transformou o Brasil no país do futebol.

Enquanto o declínio dentro das quatro linhas se acentua, o Brasil consolidou-se como o país que lidera o ranking global em volume de acessos e tráfego em sites de apostas esportivas (bets), representando cerca de 25% de todo o mercado mundial online. O mercado brasileiro movimenta centenas de bilhões de reais anualmente, ultrapassando tradicionais mercados europeus como o Reino Unido em volume de acessos. Segundo pesquisas do Ministério da Fazenda, este é um dos motores de endividamento no Brasil, afetando o orçamento de milhares de famílias. Pesquisas apontam que cerca de 30% a 40% dos apostadores acumulam dívidas devido aos jogos. O montante gasto nas plataformas chega a ultrapassar R$ 30 bilhões mensais.

Lionel Messi é considerado um ícone global do futebol graças à sua genialidade técnica, consistência em alto nível e conquistas históricas, como a Copa do Mundo de 2022 e suas oito Bolas de Ouro. Em campo, sua visão de jogo periférica e capacidade de elevar o nível dos companheiros resgatam a essência pura do esporte, baseada no talento, na coletividade e na vontade e na alegria de jogar.

Fora das quatro linhas, sua postura profissional, vida familiar discreta e trabalho na Fundação Leo Messi o consolidam como um modelo de conduta para as novas gerações. Diante do atual cenário preocupante e mercantilista das apostas esportivas, a trajetória do argentino serve como um farol, lembrando-nos do verdadeiro valor do jogo. O futebol, em sua essência, merece o Messi – alguém que personifica a paixão e a integridade, provando que a magia do esporte deve sempre prevalecer sobre a especulação econômica.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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