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Nome e sobrenome

Gislaine Marins

Na Europa imersa numa crise sanitária (como no mundo todo), numa crise econômica (como no mundo todo), numa crise política (assediada por populismos pseudorreligiosos e por populismos xenófobos - como em quase todo o mundo), encontraram espaço para discutirem se um bolinho salgado achatado, popularmente conhecido como hambúrguer, pode ser denominado assim, se não for produzido com carne, mas com verdura.
A resposta é: pode.

Hambúrguer é uma palavra derivada de nome próprio, a cidade de Hamburgo, onde - dizem - originou-se a popular almôndega achatada grelhada na hora.

Portanto, a paternidade do prato não está ligada a um ingrediente específico, mas ao local onde foi criado. Isso é interessante, pois mostra como a língua, às vezes, pode ser um instrumento para compreender outros conceitos, como o de cidadania ou mesmo a origem dos nossos sobrenomes.

Para falar de cidadania, basta pensar que há dois padrões no mundo: a cidadania por direito de sangue ou por territorialidade. No Brasil e nos Estados Unidos tornam-se cidadãos os que nascem no país, só recentemente o Brasil adotou a possibilidade de conceder cidadania permanente aos filhos de brasileiros nascidos no exterior, pois alguns jovens, se não retornassem ao país aos dezoito anos, corriam o risco de se tornarem apólidas, por não terem direito à cidadania no país em que nasceram.

Já na Itália, vigora o direito de sangue. Há milhares de jovens nascidos aqui, filhos de imigrantes, que consideram o italiano a sua língua materna, mas que enfrentam uma enorme burocracia para adquirirem a cidadania do país onde cresceram. Não basta nascer na Itália para ser italiano.

Nos nossos sobrenomes essa questão também está presente nos sufixos –ês e –ano. Quem possui, por exemplo, um sobrenome como Rodrigues provavelmente é pertencente, na origem, à família de Rodrigo. Quem possui um sobrenome como Serrano, por exemplo, talvez tenha tido um antepassado cuja identificação era associada ao seu local de origem.

Mas voltemos ao hambúrguer: se os carnívoros admitem variações como hambúrguer de suíno, hambúrguer de frango, por que não podem aceitar um hambúrguer vegano?

A discussão não está propriamente nos ingredientes e na paternidade, mas na característica de alguns pratos veganos de serem preparados de forma a imitar a aparência dos pratos à base de carne. É comum a gente ler artigos sobre consumidores que experimentaram pratos veganos e não conseguiram distinguir de pratos tradicionais à base de proteína animal.

Adoro verduras, mas essa postura imitativa é irritante. Quando vejo um vegano tentando me convencer a comer um prato vegetal como se fosse carne, imagino alguém que tenta vender gato por lebre. Imitar hambúrguer não agrega valor ao mundo vegano e nem vegetariano, não valoriza o produto, não valoriza os ingredientes.

Eu teria uma comparação política a fazer sobre isso, mas deixo à criatividade dos leitores.

Limito-me a acenar que muitas coisas nos são apresentadas como se fossem outras, muitas batalhas "ideológicas" são travadas em nome de uma denominação e não daquilo que representa realmente. Muitas pessoas são enganadas por programas apresentados como legítimo equivalente de outro.

No mundo animal e vegetal não há equivalências. Assim como não há na política e não há na vida. Pensem no hambúrguer vegano quando votarem no próximo mês.  

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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