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Lemos a realidade pela espiritualidade

Miguel Debiasi

 

Os filósofos leem a realidade com os olhos da filosofia. Os teólogos com os olhos da teologia. Os economistas com os olhos da economia. Os políticos com os olhos da política. Os historiadores com os olhos da história. Os psicólogos com os olhos psicologia. Os cristãos com os olhos da espiritualidade. Como são múltiplas as vivências de espiritualidade, múltiplas são as leituras da realidade.   

Toda pessoa nasce inserida em uma realidade. O estender da vida acontece na realidade no mundo real, a pessoa aprende a contextualizar-se e inculturar-se nele. A compreensão da realidade, hoje é um trabalho cotidiano. Os avanços da tecnologia podem criar a fantasia que vivemos em outro mundo, como o virtual, para além dos espaços físicos e materiais.

Neste mundo real dos avanços da tecnologia, nem todos têm as condições de acesso às escolas, universidades e às ciências. A espiritualidade passa a ser a chave de compreensão da realidade e do mundo.  

Na narrativa bíblica, a espiritualidade está ligada ao espírito. O espírito dá vida ao ser que somos. Ele está na pessoa e a move para toda ação. A espiritualidade é espírito, é respiração. Quem respira está vivo. A espiritualidade é vida.

A espiritualidade de Jesus nasce da vida e do mundo de sua missão, no viver o passo-a-passo do projeto redentor da humanidade. A compreensão do contexto que o cercava foi um dos pilares da espiritualidade de sua vida e de sua missão (João 17). Um alimento que o sustentou no caminho da cruz para viver seu mistério na plenitude.

A espiritualidade cristã nasce do seguimento de Jesus Cristo. Ela preenche o espírito do cristão com aquilo que Jesus ensinou e vivenciou no mundo da vida. A oração é apenas um pilar da espiritualidade cristã. Ela vai além da experiência contemplativa e da prática religiosa.

A espiritualidade cristã é espírito, portanto, vida. Como escreve São Paulo, o Espírito sonda todas as coisas, até as coisas mais profundas de Deus (1Coríntios 2,10). A espiritualidade é espírito que penetra no mistério da vida humana e de Deus, faz compreender o mundo e os caminhos que precisam ser percorridos e as ações serem praticadas. Ela é vida conduzida pelo espírito (João 14,16-26).

Na história do cristianismo, ou da Igreja cristã, pode-se observar que houve equívocos e distorções na compreensão e na vivência da espiritualidade. Após o século IV do cristianismo, na espiritualidade houve distorções. A distorção foi fruto de uma visão teológica e doutrinaria. Buscou-se a espiritualidade verticalista e individualista, da comunhão pessoal com Deus e com base aos preceitos e normas religiosas e morais. 

Na espiritualidade bíblica e a de Jesus Cristo integra a relação de amor a Deus e ao próximo. A relação com Deus e com o próximo se constitui um importante critério para observar a qualidade e a intensidade da espiritualidade cristã. Quando um cristão assume posturas individualistas, egoístas, preconceituosas e de intolerância, manifesta não possuir espiritualidade. O ciúme de Caim com a oferta de seu irmão Abel a Deus, evidencia de sua espiritualidade empobrecida e totalmente nula (Gênesis 4,3-5).

A espiritualidade cristã constitui-se um espírito verdadeiro e puro, que relaciona o amor a Deus com o amor ao próximo. A qualidade da espiritualidade cristã depende dessa relação: “aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão” (1João 4,21). A espiritualidade do amar a Deus e ao próximo, relaciona a pessoa com a totalidade da vida, não se basta com as práticas devocionais e a frequência ao templo material.

A espiritualidade cristã é vivida em todos os espaços que a vida humana acontece: na fábrica, na rua, no exercício da cidadania e nas obrigações diárias. Ela faz compreender e viver o mistério de Deus na realidade da vida. Quando a vida é ferida e desvalorizada, ela busca mudanças transformadoras de si mesma e, por consequência produz mudanças nos outros. Ela produz mudanças e transformações.

Estamos num contexto religioso que produz muitas espiritualidades. Há espiritualidade do grito, do barulho, do emocionalismo, dos chavões, do espetáculo, da observância, do legalismo e até da imunidade. Todas elas são geradas e produzidas de uma subcultura religiosa alienante. Esse modelo deformado de espiritualidade, tem resultado em alienação social, reproduz o sistema, e não leva à mudança transformadora.

Seus adeptos não têm percebido que a espiritualidade não se desconecta da vida, do mundo ao qual estão circunscritos. A ligação com a vida é condição da espiritualidade. O fato é que estas espiritualidades têm levado muitos adeptos a sérios desajustes psicológicos, emocionais, racionais e até de planejamento econômico. Nestes meios religiosos há ainda a propagação da espiritualidade baseada em meia teologia, do academicismo puritano, do negacionismo da vida real. 

Parece-nos muito oportuno, pelo trabalho pastoral da Igreja, resgatar a espiritualidade de Jesus Cristo, aquela sustentada na realidade que gera vida no espirito. A espiritualidade que transforma seus seguidores e os meios em que elas vivem segundo a verdade, sem alienações e ficções da vida: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4,15). O verdadeiro seguimento em Cristo é libertação, vida transformada e em ação pelo Reino de Deus.       

Uma pessoa cristã é um ser humano conduzido pelo espírito, que é vida. É vida que compreende a própria vida e que leva sabiamente a pessoa interpretar sua realidade da vida. Jesus critica seus interlocutores, que sabiam identificar as mudanças climáticas, mas não tinham desenvolvido capacidades para discernir as realidades da vida em qual Deus se revela e age (Mateus 16,2-23; Lucas 12,54-59).

Lemos a realidade da vida com os olhos da espiritualidade. Isto não é nada negativo, pelo contrário é salutar e preciso. A fé cristã é sempre luz que ilumina e liberta das realidades injustas. Hoje, frente a tantas propostas religiosas, a tarefa exigente é viver espiritualidade que nasce da vida e do amor ao Evangelho.

Com a verdadeira espiritualidade cristã lermos a realidade tal como ela se apresenta, sobre qual, espera uma ação coerente de seguidores de Jesus Cristo, o Mestre que tudo transforma e libertada.  

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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