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Inflação de 24,52% e salário mínimo de 5,26%

Miguel Debiasi

 

O teólogo protestante Jürgen Moltmann (1936) escreve que em Cristo ressuscitado dá-se maior sentido à história, ilumina-se a vida presente e esta abre-se para as realidades últimas. A ressurreição é o maior ato de Deus em favor da humanidade e da história da civilização. Na fé em Cristo ressuscitado, os cristãos conduzem sua história até as realidades últimas, a nova vida, como dom de Deus. A reconciliação universal é a esperança de Deus que perpassa toda história do cristianismo e da civilização. Esta deve ser a esperança da humanidade, sobretudo dos últimos da sociedade.

Em Moltamann a esperança cristã articula a relação presente e futuro que dá sentido e trâmite pleno a vida humana. A esperança atua como uma luz na vida e na fé cristã. Ela vive da ressurreição de Cristo crucificado e se projeta na direção das promessas do futuro universal reconciliado com Deus. Neste sentido, a esperança cristã se projeta a partir do Cristo ressuscitado não como doutrina, mas como uma vida orientada para o futuro, para o tempo da escatologia, da experiência da salvação. E, o dia após dia do cristão precisa ser vivido nesta esperança do Reino de Deus, como sinal visível de sua realização, que passa pela libertação dos pobres de tantas opressões (Êxodo 3,7-10). Os cristãos tem a missão de fecundar na história da humanidade a esperança do Reino de Deus.

A esperança cristã tem um primado sobre o mundo histórico e que jamais desaparece no horizonte: acreditar em Deus da promessa que leva a novo futuro a história do mundo e da vida humana. A esperança da fé cristã é potência que realiza as realidades últimas por modificar a vida do presente. O cristão torna-se partícipe da glória de Deus quando encontra-se com a realidade presente e a modifica. A esperança da fé em Cristo não se deixa privatizar, mas assume responsabilidade social com a justiça, a liberdade, a dignidade humana. Essa experiência de Deus orienta para o novo futuro com os pés na realidade, no chão da vida. Desse modo, na ressurreição de Cristo é possível vislumbrar uma vida futura, aquela que não perdeu a esperança de lutar pelo Reino de Deus como experiência presente na história.

Em sua teologia da esperança Moltmann escreve que a fé diz respeito ao futuro, como sua confiança. Logo, a fé cristã não é uma fé cega para este mundo. A fé cristã é a confiança em Deus experimentado ao longo da história e da situação da vida, do povo empobrecido. Pelo fato de Deus Pai ter ressuscitado seu Filho, o cristão empenha sua esperança nas realidades últimas vivendo o presente à luz de Cristo. Como os profetas puderam proclamar a esperança sobre a vida do povo de Israel, assim, os cristãos pela fé em Cristo não fogem da responsabilidade da mudança da vida e das realidades históricas. A esperança de fé cristã é luz para vida do mundo quando enfrenta as contradições e exerce sua função crítica da realidade e da situação humana presente.

Qualquer cristão que se ponha a pensar como Motmann, com a seriedade e a serenidade da fé cristã, compromete-se com o presente da civilização. Pela esperança de fé em Cristo, o cristão tem uma palavra a dizer sobre a vida das pessoas, da sociedade e dos governos. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) o acumulado da alta da inflação do ano de 2020 chegou a 24,52%, índice superior de 2019. O Governo Federal através da assinatura da Medida Provisória (MP) aprovou o novo valor do salário mínimo nacional de R$ 1.100 para 2021. O aumento é de 5,26% em comparação ao valor de 2020, de R$ 1.045.  O novo valor do salário mínimo é aplicável a todos os trabalhadores, do setor público e privado, e também para os aposentados e pensionistas.

Com base no aumento da inflação do ano que foi de 24,52%, o novo salário mínimo ficou devassado em 19,26%. Os produtos e as mercadorias que o trabalhador consome, tiveram um aumento de 24,52%, enquanto ele esperou doze meses para receber uma reposição de 5,26%. Na realidade, o trabalhador num ano empobreceu 19,26% e enquanto o lucro dos empresários aumentou em 24,52%. Se somarem os dois números, da inflação 24,52 e da perda do assalariado 19,26, a diferença do trabalhador para o empresário foi de 43,78%. Os números mostram para quem o governo federal governa.

A fé em Cristo é um projeto que torna-se real quando a justiça e a dignidade do outro são respeitadas e promovidas. Viver em Cristo nunca dispensa uma paixão responsável pelo pão sobre a mesa, dignidade humana, bens suficientes para vida, são obras do Reino de Deus. Em contexto de grande desigualdade social e diferença econômica o Cristo ressuscitado tem muito a dizer aos cristãos contemporâneos, como não aceitar essa política econômica perversa e que favorece aquele que está no topo da riqueza. Deus não consente com a injustiça humana, eis um ato da fé cristã.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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