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Fraternidade e Ecologia Integral

Miguel Debiasi

Fraternidade e Ecologia Integral e “Deus viu que tudo era muito bom” (Gênesis 1,31), provoca reflexão e a ação na busca de caminhos novos para a humanidade e para a preservação do meio ambiente. Entre os muitos desafios dos cristãos para nosso tempo, um é este, de aceitar a proposta da Campanha da Fraternidade de 2025.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao eleger a temática da Campanha da Fraternidade e da Ecologia Integral aponta para uma problemática a ser superada: da divisão social, da polarização ideológica política e do desequilíbrio climático e ambiental. Essa problemática não é nova, muito menos desconhecida da humanidade e dos cristãos. Diga-se, de uma problemática que implica reflexão e práxis da fé cristã.

A Campanha da Fraternidade valoriza os dez anos da Carta Encíclica Laudato Sî e a Exortação Apostólica Laudate Deum, do Papa Francisco; a celebração dos 800 anos do Cântico das Criatura de São Francisco de Assis; e o Jubileu de 2025 anos de Encarnação do Verbo de Deus, Jesus Cristo. Acontecimentos estes muito significativos para os cristãos e para a humanidade.  

A Campanha da Fraternidade colabora com a Conferência das Nações Unidas – a COP 30, que ocorrerá na cidade de Belém, Pará, no período de 05 a 21 de novembro de 2025. Sendo a primeira Conferência das Nações Unidas, sobre as mudanças climáticas, a ser realizada na Amazônia. A COP 30 é um evento que reúne os chefes de Estados e a comunidade mundial para avançar na reflexão e na ação ecológica integral e no desenvolvimento econômico sustentável.

A Campanha da Fraternidade já se tornou um marco para o trabalho da Igreja do Brasil. Apresentada ao povo brasileiro na quarta-feira de cinzas, na abertura do tempo quaresmal, a Igreja motiva para uma maior conversão humana e para uma maior ação cristã e cidadã. Em sintonia com o movimento franciscano que celebra os 800 anos do Cântico das Criaturas de São Francisco, através da Campanha da Fraternidade a Igreja apresenta o santo de Assis como modelo da vida cristã integral. Na perspectiva de Francisco de Assis a vida humana precisa estar em plena comunhão com a natureza e universo, com a obra de Deus.

Outra motivação da Campanha da Fraternidade são os dez anos da Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, que chama atenção para o cuidado da Casa Comum. É urgente olharmos para as catástrofes climáticas que afetam a população mundial. As catástrofes climáticas e ambientais são consequências do modelo de desenvolvimento econômico e de sua lógica extrativista dos recursos naturais. Modelo e ação que visam lucro a qualquer preço, colocando em risco o equilíbrio do ecossistema e a vida do planeta, de todos os seres vivos.

Na perspectiva de Francisco Assis, do Papa Francisco e da Igreja com a Campanha da Fraternidade, a Ecologia Integral compreende o cuidado com a obra de Deus e com a Casa Comum como um dever de todos os humanos e dos sistemas de produção e de desenvolvimento. A questão climática e ambiental não é apenas de responsabilidade espiritual, teológica, moral, mas política, econômica e social universal, traduzida num esforço global pelo equilíbrio da vida planetária.

O Evangelho e a fé cristã têm conexão com a justiça socioambiental. O texto base da Campanha da Fraternidade diz que o grito da Terra e o grito dos pobres são frutos da mesma causa, do perverso modelo de produção econômica e da cultura consumista. Será preciso uma relação justa com o Planeta Terra e com os seres humanos que são interconectados, em primeira medida, cuidar do mais vulnerável.

As muitas reflexões e ações que a Campanha da Fraternidade propõe são oportunidades para a construção de um futuro mais sustentável e uma sociedade mais fraterna e integrada. Diga-se, de uma sociedade constituída por cristãos e cidadãos conscientes e comprometidos com o plano de Deus e com a sustentabilidade de todos e do universo. O texto base da Campanha da Fraternidade apresenta muitas ações que são possíveis de acontecer em todos níveis, pessoal, comunitário, social, institucional.

A Campanha da Fraternidade recorda que em tudo tem as digitais do Criador e que nada do que foi criado é inútil e dispensável. Todos os seres, os humanos e a natureza não evoluem por ritmos contrapostos. Todos estamos vinculados e toda ação causa impactos da vida na Terra. O livro dos Gênesis descreve que há uma interdependência das criaturas com os seres humanos e com Deus. O ser humano depende do ar, do sol, da chuva, da terra, dos animais, das aves, da noite, do dia, do calor, do frio e de todos os outros seres. Para a subsistência de todos é preciso cuidar antes dos outros seres e do planeta (Gênesis 1).

O Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis e as narrativas bíblicas da criação tudo chama para o cuidado, para o amor à vida. O autor do livro dos Gênesis diz que Deus criou todas as coisas e nelas está a beleza, o bom (Gênesis 1). Salienta que o Criador abençoou sua obra, sendo ela um paraíso e o concedeu ao ser humano para cuidá-lo, assim, tornando-se um corresponsável (Gênesis 1,26-31).

Muito se falou e muito mais irá se falar sobre a crise climática e ambiental, que também é uma crise de humanidade. A maléfica ação humana tem alterado e provocado mudanças negativas ao planeta. Ação devastadora das florestas nativas, a poluição do ar, dos rios, solos, exacerbado consumo, produção de lixo têm levado a reação implacável da natureza. A crise ambiental tem raízes na crise antropológica, e nos fala sempre de quem somos e de nossas escolhas.   

Há inúmeras pessoas, textos, instituições e iniciativas que reconhecem sabiamente que todo planeta que abriga a vida é sagrado. Todo sagrado precisa ser reverenciado e protegido pelo ser humano. Para tanto, será preciso reflexão e ação para educar-nos para um novo jeito de viver, do cuidado a biodiversidade e da bio-centralidade.

A Igreja pela Campanha da Fraternidade 2025 nos convida para um novo jeito de sermos e vivermos, desenvolvendo em cada ser humano a cultura do cuidado, assim, construindo novos futuros para as novas gerações. Por último, olharmos para o planeta com os olhos afetuosos e percebermos o entrelaçamento da espécie humana com a natureza e com Deus, convictos reafirmamos: “Deus viu que fora criado é muito bom”. Bom para Ele, para o universo e para tudo e para todos.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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