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Espantar-se é bom, espantar-se mais é melhor

Gislaine Marins

Durante a pandemia, um profissional italiano da área cultural que arredondava o subsídio governamental fazendo entregas a domicílio sofreu um infarto enquanto empurrava o carro enguiçado e tentava manter a pontualidade do serviço. Esta semana, uma declaração impactante da Justiça italiana colocou sob os holofotes o problema dos trabalhadores de aplicativos: não são escravos, são cidadãos.

Lembro exatamente do dia em que lidando com um texto de jornal com alunos italianos, a aula foi interrompida por um questionamento: “Escravidão? É uma metáfora, professora?”

Não, o artigo não usa nenhuma metáfora: está tratando de escravidão – respondi. Essa conversa aconteceu há mais de quinze anos, a notícia relatava um caso de inspeção do Ministério do Trabalho e a libertação de trabalhadores reduzidos ao estado de escravidão no Brasil.

Sem respaldos além de denúncias esporádicas veiculadas pelos jornais e o conhecimento das dinâmicas históricas, enfrentava essas situações com a coragem que se exige de todo professor, dando algumas sugestões de leitura, para que os alunos compreendessem a situação, tirando as suas próprias conclusões. Resumindo: apagava incêndios com conta-gotas.

Também lembro quando as plataformas digitais chegaram ao Brasil entusiasmando muita gente com a ideia de economia compartilhada, enquanto na Europa, em particular no Reino Unido, os juízes do trabalho começavam a reconhecer a dinâmica de exploração e a violação dos direitos das pessoas que trabalhavam para os aplicativos. Passei um bom tempo pregando no deserto, enquanto pessoas do meu círculo ouviam as minhas contestações com a benevolência de quem escuta um sermão retrógrado, ultrapassado, anacrônico, antiquado: uma argumentação de quem não conseguia ver que o mundo estava mudando – para melhor – assim como as pessoas e a economia. Eu não concordava com nada disso.

Contudo, a lembrança mais remota é de quando li seriamente pela primeira vez as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O protagonista, depois de contar que recebera o diploma de bacharel em Coimbra sem fazer esforços e que sentia uma sensação de “alforria” – esta é a palavra usada no romance -, relata que o jumento no qual vinha montado empacara. Nisso, Brás fica com o pé trancado no estribo, o jumento corcoveia e quase se consuma uma tragédia, evitada pela chegada de um tropeiro, que domina o animal e liberta o cavaleiro. Então, Machado de Assis ilustra uma teoria das relações entre bacharéis e os outros, que tão bem ilustra a mentalidade sobre o trabalho:

Espantado e grato por ver-se salvo de um eventual acidente grave, Brás pensa em recompensar o tropeiro. Os sentimentos agitam o coração da personagem e ele decide dar ao homem três moedas de ouro. Não era o preço da sua vida – a de Brás, que era inestimável, nas suas próprias palavras – mas era uma recompensa digna. Mas eis que ao alinhavar palavras de agradecimento ao tropeiro, este, muito modesto, minimiza o seu papel e atribui à graça divina boa parte do êxito. Brás, então, repensa a sua gratificação e avalia se duas moedas de ouro já não seriam suficientes para o homem. Talvez uma bastasse, afinal ele era um pobre-diabo – assim o descreve Brás – e tira do bolso uma moeda. O tropeiro intui o gesto e faz uma série de elogios ao dono do jumento, que o recompensa com uma moeda: de prata. Encerrado o caso, Brás sobe no animal e segue a trote largo, pensando, em seguida, que talvez a moeda de prata pudesse ter sido excessiva. Nos bolsos levava uns vinténs e era isso, afinal, que poderia ter sido o pagamento justo, pois o tropeiro não fora movido por um interesse, mas por impulso natural.

O episódio pode ser sintetizado da seguinte forma: a vida do bacharel não tem preço, tem valor; a dos outros não tem valor, tem preço - baixo. A moral não é que uma vida pode ser compensada por uma moeda de prata, em vez de três moedas de ouro. A moral da história é que qualquer vintém basta para quem não tem valor. A vida do trabalhador está sempre sujeita ao rebaixamento do preço. A vida dos donos de jumento é sempre inestimável. Hoje os donos de jumento são donos de aplicativos. Não é possível espantar-se com as analogias, é preciso espantar-se com a falta de respeito.

A escravidão é típica da modernidade. Quando se fala de escravidão moderna, convém lembrar que há uma continuidade histórica e conceitual, que nos leva do colonialismo ao neo-colonialismo atual. A escravidão atlântica representou a base do lucro da economia colonial e o rebaixamento do preço do trabalho é um resquício da mentalidade cristalizada, segundo a qual o custo pode ser abatido até o nível mais baixo admitido pela hipocrisia da sociedade, que substitui palavras como “exploração da mão-de-obra” por “economia compartilhada”, e “escravidão” por “formas assimiladas à escravidão”. Gostamos de eufemismos e certamente não superamos a índole de Brás Cubas, o bacharel sem remédio.

Esta semana, a Procuradoria de Milão divulgou os resultados de um inquérito referente aos maiores aplicativos que usam o conceito de economia compartilhada para dar aos trabalhadores alguns vinténs e nenhum direito trabalhista previsto por lei. Com a explosão da pandemia, os serviços de entrega sofreram um incremento, assim como a exploração dos entregadores. Um dos procuradores, ao ilustrar o inquérito e as recomendações, declarou: “Acabou a fase de dizer que são escravos, é hora de dizer que são cidadãos”. A palavra “escravidão” foi digitada pelas agências de notícias, foi retomada por dezenas de jornais. Não é uma escravidão que não existe mais, como pensavam os meus alunos anos atrás: é a escravidão de hoje, estimada em sessenta mil pessoas, só na Itália.

É hora de dizer que o mundo não pode mais admitir escravos, tropeiros agradecidos, Brás Cubas hipócritas, economia compartilhada para o bem do comércio e para a ruína das pessoas. Nessa pandemia que deu oportunidade para tantas afirmações indignas, é hora de dizer que a economia precisa de pessoas. Pessoas vivas, sadias e dignamente retribuídas: quem afirma que é hora de dar a própria vida para salvar a economia possui um desprezo extremo pelo ser humano, tanto quanto os traficantes de escravos dos séculos do colonialismo. São infames e míopes, por não entenderem que uma economia com pessoas mortas não existe, que um país sem população desaparece. E um país de escravos é inadmissível. Os meus alunos tinham razão de ficar espantados. Como é que nós não ficamos?

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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