Ela nasce do andar de cima
Longe de ser um desvio recente, a corrupção econômica no Brasil é um fenômeno estrutural que nasce no andar de cima. A herança colonial, analisada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1936), consolidou o ‘patrimonialismo’, onde a fronteira tênue entre o público e privado permitiu que elites tradicionais, senhores de engenho e fazendeiros se apropriassem do Estado. Essa prática sofisticou-se, mantendo sua origem na cúpula social e econômica, perpetuando o benefício próprio em detrimento do coletivo.
Estudos indicam que a corrupção de alto nível, marcada pelo desvio de verbas públicas e pelo suborno de agentes públicos e autoridades, tem origem no conluio entre setores de grande poder econômico e político. Altos executivos e grandes empresários, ao oferecerem vantagens indevidas, configuram a corrupção ativa. Além disso relatórios recentes da Transparência Internacional alertam para acentuada infiltração de interesses privados e do crime organizado no Estado brasileiro.
Nos últimos dez anos, o Brasil enfrentou uma onda de escândalos corporativos envolvendo fraudes contábeis e corrupção econômica. O Grupo Odebrecht, atualmente Novonor, gigante da construção civil, admitiu ter pago bilhões em propinas para obter contratos. Em 2023, a empresa Americanas S.A. revelou um rombo contábil de cerca de 20 bilhões. As empresas JBS e BRF foram alvo da Operação Carne Fraca, que desvendou esquemas de suborno de inspetores agropecuários.
Recentemente, escândalos envolvendo a elite brasileira trouxeram novos e graves capítulos de corrupção ao setor bancário. O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o caso do Banco Master, como possivelmente a maior fraude bancária da história do Brasil, e talvez uma das maiores do mundo.
A trajetória do Banco Master tem raízes em 2017, quando o “banqueiro” Daniel Vorcaro tentou obter autorização do Banco Central para assumir o controle do Banco Máxima. A autorização foi concedida em agosto de 2019, resultando no rebatismo para Banco Master. A instituição adotou um modelo nada convencional para os padrões de investimento no país, oferecendo CDBs com taxas até 140% do CDI, comercializados sob o argumento de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que assegura reembolso de até R$ 250 mil por pessoa física em caso de liquidação do banco.
Com a promessa de altos rendimentos, o Banco Master atraiu investidores públicos, que passaram a aplicar recursos na instituição. As aplicações, que somam valores expressivos e estão sob investigação da Polícia Federal, incluem: o Estado do Rio de Janeiro (RJ) com R$ 970 milhões do Rioprevidência; o Amapá com R$ 400 milhões da Amprev; o Amazonas (AM) com R$ 50 milhões; Maceió (AL) com R$ 97 milhões; São Roque (SP) com R$ 93,15 milhões; Cajamar (SP) com R$ 87 milhões; Itaguaí (RJ) com R$ 59,6 milhões; Aparecida de Goiânia (GO) com R$ 40 milhões; Araras (SP) com R$ 29 milhões; Congonhas (MG) com R$ 14 milhões. A Polícia Federal apura possíveis irregularidades nesses aportes após indícios de problemas na liquidez do Banco Master.
Ainda, as investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero focam em Fabiano Campos Zettel, pastor, empresário e cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por doações suspeitas nas eleições de 2022. As investigações, confirmadas pelo presidente do Partido Liberal – PL – Valdemar Costa Neto, indicam um repasse de aproximadamente de R$ 3 milhões à campanha presidencial de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas ao Governo de São Paulo em 2022.
As investigações e denúncias públicas apontam conexões entre a Igreja Batista de Lagoinha (BH), o Banco Master e o uso suspeito de emendas parlamentares, envolvendo alegações de lavagem de dinheiro, desvio de “emendas Pix” e blindagem política. O caso ganhou repercussão no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Comissão Parlamentar Mista de Investigação (CPMI) do INSS. Diante dos indícios da falta de transparência, o ministro Flávio Dino (STF) determinou que o senador Carlos Viana (Podemos-MG) explique o repasse de R$ 3,6 milhões em emendas para a Fundação Oásis, braço social da Igreja Batista da Lagoinha.
O caso do Banco Master expõe uma grave falha de supervisão do Banco Central sob a gestão de Roberto Campos Neto, que aprovou a expansão da instituição. Em 2024, o cenário tornou-se escandaloso, com o Banco de Brasília (BRB) adquirindo carteiras de crédito suspeitas de serem inexistentes do Master, num volume que, segundo a Polícia Federal, aponta um rombo bilionário. Esta operação escancara a promiscuidade entre o mercado financeiro e a política institucional, com suposta intermediação de figuras influentes como o senador Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União Brasil).
Em setembro de 2025, a blindagem política intensificou-se em um momento crítico da crise. O deputado Felipe de Barros (PL-PR), aliado de Eduardo Bolsonaro e investigado no inquérito das Fake News, tentou ressuscitar a “emenda Master” na Câmara para dar sobrevida à instituição. O deputado Cláudio Cajado (PP) agiu para aprovar, em regime de urgência, um projeto que permitiria ao Congresso destituir a direção do Banco Central. Isso demonstra uma clara tentativa de intimidação para frear investigações e garantir a impunidade dos envolvidos, evidenciando o uso do poder legislativo para proteger interesses privados.
A liquidação extrajudicial do Banco Master e de sua controladora, Will Bank, decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, não foi apenas uma falência técnica, mas a implosão de um esquema fraudulento sofisticado. Com um rombo histórico que ultrapassa os R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o caso escancara como o andar de cima captura instituições públicas e manipula o sistema financeiro para financiamento de atividades corruptas.
Este colapso evidencia uma corrupção sofisticada e de colarinho branco, onde a engenharia financeira é usada para desviar recursos e blindar fraudadores. Diante da magnitude de tal fraude, que afeta a estabilidade do sistema, culpar o pobre pela corrupção no Brasil torna-se um exercício de cinismo ou profunda inanição mental. O verdadeiro saque ao Estado acontece, frequentemente, no andar de cima, local social distante dos mais pobres. O maior assalto no Brasil, efetuado pelo Banco Master, mostra que tem CNPJ e endereço em condomínios de luxo.

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