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É preciso pôr fim ao “quintal”

Miguel Debiasi

No início do século XV, as grandes navegações europeias, impulsionadas por Portugal e Espanha, abriram caminho para a colonização em diversas regiões do mundo. Portugal e Espanha colonizaram vastos territórios pelo mundo. O atual governo dos EUA trabalha para retomar a colonização, a política do quintal.  

A colonização portuguesa e espanhola praticamente terminou no final do século XIX e início do século XX, após um longo período de sangrentas lutas por independência. Já no século XVII John Locke, filósofo inglês, e no século XVIII, Jean-Jacques Rousseau, filósofo francês, em suas doutrinas filosóficas argumentaram em favor da independência.

John Locke desenvolveu a ideia política do contrato social, argumentava que os governos são constituídos mediante acordos entre indivíduos. Ao governo cabia a tarefa de proteger os direitos naturais dos indivíduos, como a vida, a liberdade e a propriedade. A população tinha a liberdade de mudar um governo que não cumprisse o contrato social diante de um soberano tirânico. O povo deveria resistir em sua independência.

Estas ideias políticas influenciaram a Declaração de Independência dos Estados Unidos, que se baseia na ideia de que os governos derivam seu poder do consentimento dos governados.

Jean-Jacques Rousseau desenvolveu a ideia da soberania popular, onde o poder reside no povo, e a independência de um país deve ser a expressão da vontade geral, isto é, o interesse comum dos cidadãos. O poder soberano reside no povo, que deve exercer seu direito de autodeterminação e decidir sobre seu próprio governo. A independência de um país é uma expressão da vontade geral, ou do interesse comum dos cidadãos.

Outros filósofos como o francês Montesquieu, no século XVIII, com sua teoria da separação dos poderes, defendia a importância de um governo equilibrado para garantir a liberdade e a independência. Voltaire, outro filósofo francês do século XVIII, com sua argumentação em defesa da liberdade de expressão e de pensamento, também contribuiu para as ideias que levaram ao movimento de independência.

Estes filósofos, juntamente com os pensadores iluministas, especialmente do século XVIII, tido como “séculos das luzes”, por força de suas doutrinas, influenciaram movimentos independentistas ao redor do mundo. A formação dos países independentes, como os conhecemos hoje, começou no fim do século XVIII e início do século XIX, em várias regiões do mundo, especialmente nas Américas e na Europa.

A independência dos Estados Unidos da Grã-Bretanha, em 1776, foi um marco fundamental na história da formação de países independentes.  A Revolução Americana (1775-1783) inspirou outros movimentos de independência em todo o mundo. Na Europa, a Revolução Francesa (1789-1799), com ideologia de liberdade, igualdade e fraternidade, influenciou a criação de países independentes ao longo do século XIX.

Nas nossas proximidades, a Independência das Colônias Espanholas na América (1810-1825), período em que as colônias da América Latina iniciaram um processo de independência, com a liderança de figuras como Simón Bolívar e José de San Martín, resultando na formação de países como Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela e Bolívia.

O Brasil se tornou independente de Portugal em 1822, com a proclamação da independência por Dom Pedro I. O movimento pela independência também resultou na Unificação Alemã e Italiana, no século XIX processo que levou à formação de novos países independentes, com a união de vários estados e regiões.

Após as Guerras Mundiais, iniciou-se um processo de descolonização na África e na Ásia, com a formação de muitos países independentes. A descolonização, tanto na Europa, quanto na América, África e Ásia, começou com as revoluções do final do século XVIII, deu-se sob um processo de lutas por independências, revoluções sociais, movimentos nacionalistas e conflitos armados. A independência de um país significa autonomia, soberania e libertação política.

A autonomia política de um país significa poder de governar-se sozinho, decidir sobre seus próprios assuntos, sem a interferência externa ou de outros países. Já a soberania significa que o país tem o poder máximo sobre seu território e povo, e que não está sujeito à autoridade de outro país. A libertação de um país é quando um país se liberta de um governo ou domínio estrangeiro.

A independência de um país implica ter um próprio território e povo, suas próprias leis, governo, forças militares e a capacidade de tomar decisões políticas econômicas e sociais independentemente do restante do mundo. Isto é ignorado pelo Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth que em abril afirmou à Fox News: “Que o governo Trump está pegando de volta seu quintal”.

O Secretário de Defesa dos EUA está se referindo a Trump como alguém que está pegando de volta a América Latina, a colônia que ele acha que lhe pertence. O Secretário e o presidente Trump em suas declarações, demostram que estão0 empurrando os EUA para o mais arcaico sistema político, o neocolonialismo.

O governo Trump ao tratar a América Latina como “quintal” dos Estados Unidos, viola a independência, a soberania e a liberdade dos países sul americanos. Também Trump já manifestou sua vontade de tomar à força outros países como Canadá, o Canal de Panamá e Groenlândia, como se fossem posses do EUA. Por trás desse movimento da política colonialista e imperialista de Trump, evidencia-se sua perda de credibilidade com a opinião pública e no terreno político e econômico a nível mundial.

A presença do Secretário de Defesa Pete Hegseth em conferência com países da América Central e Latina é uma manifestação da descabida vontade dos Estados Unidos de subordinação que pretende impor à região. No movimento de Trump e de seu governo indica: os Estados Unidos não abrem mão de sua politica de dominação e controle dos continentes, como se fossem “quintal”, da Casa Branca.

A tarefa das autoridades dos países da América Latina também é clara: derrotar Trump e sua política neocolonial. A política do “quintal” é violação das soberanias nacionais, delírio político e loucura descabida.   

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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