Da “Casa” para a “Tenda”
Após um período de escuta, de preparação e discernimento, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2031 foram aprovadas por unanimidade dos bispos na 62ª Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida. A essência das Diretrizes é: “Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, missionária e misericordiosa, em saída para as periferias existenciais e geográficas, a serviço do Reino de Deus”.
O foco prático das Diretrizes é a sinodalidade, a superação de práticas autorreferenciais e a transformação da Igreja em uma verdadeira comunidade em saída. A sinodalidade acontece no fortalecimento da corresponsabilidade e da escuta ativa entre todos os membros da Igreja; seu alcance concreto consiste no chamado não apenas para acolher quem busca a paróquia, mas também para ir ao encontro dos distantes, feridos, marginalizados e excluídos socialmente.
A vigência das Diretrizes foi estabelecida para um período de seis anos em vez de quatro, permitindo um planejamento pastoral mais amplo e estruturado para as dioceses e paróquias, bem como o compromisso integral com o sofrimento humano e com a Casa Comum. O documento das Diretriz contem seis capítulos.
1º capítulo: A Igreja: como a “Tenda” do encontro – a Igreja é compreendida como uma tenda do encontro. A tenda acolhe todos, ela pode ser, sempre de novo alargada, de acordo com as necessidades.
2º capítulo: Escuta dos sinais – a escuta tanto dos sinais dos tempos, que dizem respeito à realidade atual do mundo, quanto dos sinais de esperança e da ação do Espírito Santo que podem ser vistos nas comunidades de todo o país.
3º capítulo: Discernimento para uma Igreja sinodal – essa parte retoma os aspectos fundamentais que haviam sido apresentados durante o Sínodo dos Bispos em 2023 e 2024, como os princípios da comunhão, da participação e da missão.
4º capítulo: Povo de Deus em missão – aborda que todos os batizados são chamados a testemunhar e anunciar o Evangelho: laicato, ministros leigos e leigas, famílias, crianças e adolescentes, jovens, mulheres, pessoas com deficiência e neurodivergência, idosos, vida consagrada, ministros ordenados e povos indígenas.
5º capítulo: caminhos da missão – apresenta as indicações sobre os modos concretos de efetivar as propostas das Diretrizes da Ação Evangelizadora, não apenas com ações, mas que todos encontrem na tenda lugar, sentido e envio na missão. Os caminhos dizem respeito à animação bíblica da pastoral; a iniciação à vida cristã; à liturgia e à piedade popular; o serviço à vida plena para todos; à evangélica opção preferencial pelos pobres; à promoção e defesa da vida e à ecologia integral.
6º capítulo: Compromissos sinodais – os compromissos nascem das conclusões do Sínodo sobre a Sinodalidade. Os compromissos são a essência das Diretrizes, que incluem: conversão das relações, que envolve a proteção de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis e a comunicação social; a conversão de processos, que exige a promoção da sinodalidade, como as assembleias diocesanas e os conselhos de pastoral e econômicos, além da questão da transparência; a conversão de vínculos diz respeito aos organismos do povo de Deus, aos projetos missionários, ao Pacto Educativo Global lançado pelo Papa Francisco; e à questão do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.
Nas novas Diretrizes pode-se destacar que o grande sinal é “simbólico”: da transição da imagem da Igreja como uma “Casa”, de estrutura rígida para a imagem bíblica da “Tenda”. A imagem da “Tenda” reforça a sinodalidade que enfatiza a necessidade de flexibilidade e acolhida de todos por parte da Igreja.
Esta mudança de paradigma o Papa Francisco já havia apontado em sua primeira encíclica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), publicada em 2013. A encíclica é considerada o plano do pontificado de Francisco, convocando a Igreja a uma renovação missionária, ao combate à desigualdade social e a um acolhimento focado na misericórdia e na ternura. Ou seja, da superação de uma Igreja engessada, imóvel para uma Igreja que acompanha os tempos à luz do Evangelho.
A Igreja da “Tenda” pode ser alargada com a concretização da sinodalidade se baseia em três pilares fundamentais da vida cristã: a Fé, a Esperança e a Caridade. As Diretrizes não são propostas estáticas, mas oferecem um horizonte de missão para todas as realidades brasileiras. Elas partem dos desafios locais – desde a urgência da ecologia integral e da defesa dos povos originários e ribeirinhos na Amazônia, até a realidade pastoral do Rio Grande do Sul e de cada comunidade. Valorizando as diferenças regionais, históricas e culturais, as Diretrizes fomentam uma pastoral encarnada, que fecunde as particularidades locais sem perder de vista a unidade e a catolicidade da Igreja do Brasil.
Esse processo sinodal que a Igreja “Tenda” se propõe a percorrer acontece na base quando valoriza o povo de Deus e seu anseio por animação bíblica, fortalecendo o processo de Iniciação à Vida Cristã e iluminando a fé e sua ação. Essa dinâmica fomenta a missão do laicato de maneira incisiva na transformação social, política e na defesa dos direitos humanos.
As Diretrizes dialogam com as novas fronteiras sociais, alertando para a necessidade do uso ético da inteligência artificial e garantindo que o ser humano não seja reduzido a simples meio para o lucro, como alerta o Papa Leão em sua encíclica Magnifica Humanitas. Propõe-se, assim, uma Igreja “Tenda” – acolhedora, com portas abertas e sem discriminações, onde a tomada de decisões é verdadeiramente participativa e baseada na escuta mútua entre bispos, clero e fiéis, refletindo a sintonia com as orientações universais do Vaticano.
Enfim, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora transcendem as fronteiras da organização institucional. Elas são um verdadeiro sopro do Espírito Santo para continuar avançando para renovar e vitalizar a ação evangelizadora em todo o território nacional. Usando de uma metáfora – elas são a bússola que garante à Igreja caminhar unida, fiel à sua missão e sempre pronta para estender suas lonas, abraçando as dores e as esperanças de todo o povo brasileiro.

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