Com credibilidade, mas com enormes desafios
Com credibilidade, mas com enormes desafios
A sociedade humana atravessa milênios no suporte das instituições e de seus trabalhos prestados à população. Todos nós pertencemos a uma ou mais instituições, como família, Estado. Na atualidade as instituições têm sido objeto de avaliação de sua credibilidade. Essa avaliação é fundamental para as instituições e também para a população que delas precisa.
As instituições tiveram origem com o desenvolvimento das primeiras cidades e Estados, a partir do período conhecido como Neolítico, por volta de dez mil anos antes de Cristo. Nesse período, com o domínio de técnicas de agricultura e da pecuária, deu-se início à sedentarização humana, o que permitiu o surgimento de cidades e, por conseguinte, da organização de instituições e estruturas sociais. As instituições configuram normas, valores e comportamentos, permitindo que os indivíduos cumpram papéis e responsabilidades essenciais para determinada sociedade.
O pensamento moderno, especialmente o de autores como Michel Foucault e Zygmunt Bauman, critica as instituições sociais por sua tendência à normatização e ao controle dos indivíduos, muitas vezes de forma sutil e naturalizada. Essas instituições, como família, escola, Igreja e Estado, são vistas como mecanismos que produzem corpos dóceis e sujeitos conformados às normas sociais, limitando a liberdade e a autonomia individual. Também, podem ser fontes de desigualdades e opressão, perpetuando relações de poder e injustiças.
As instituições são estruturas essenciais para a ordem e a estabilidade social, promovendo a cooperação e a resolução de conflitos, além de facilitar a socialização e a transmissão de valores. O desafio está em garantir que as instituições sejam justas, inclusivas e responsáveis, e que sirvam aos interesses de todos os membros da sociedade.
O instituto de pesquisa Datafolha, a pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), realizou uma pesquisa nacional para avaliar o nível de confiança da população nas instituições brasileiras. O levantamento, realizado entre os dias 7 e 14 de julho de 2025, entrevistou 2.005 pessoas em 130 cidades de todas as regiões do país. O levantamento trouxe informações importantes em relação a três instituições, como as da República, além da OAB e das igrejas Católica e Evangélica.
De acordo com a pesquisa, 85% da população confia na Igreja Católica e 83% na OAB. São as duas instituições que têm maior credibilidade perante a população brasileira. Na sequência, aparece a Igreja evangélica com 77% e o sistema do judiciário, representado por órgãos como Supremo Tribunal Federal (STF) e Superior Tribunal da Justiça, com confiança de 70% dos entrevistados.
A pesquisa apontou que a Câmara dos Deputados e a Presidência da República são instituições que menos inspiram confiança da população. Aproximadamente 78% dos brasileiros acreditam que os deputados federais e senadores priorizam seus próprios interesses em detrimento das necessidades da sociedade. E, 36% dos entrevistados consideram o trabalho dos parlamentares ruim ou péssimo.
Sendo assim, a pesquisa mostra que a população brasileira ainda confia mais na religião e na justiça, e menos nos políticos e na política. A pesquisa pode representar um certo alento para a Igreja Católica, por ser a instituição de maior credibilidade do país. Isto não é pouca coisa. Em contexto de forte proselitismo religioso e de ataques às instituições históricas, a Igreja Católica mantém-se no topo da confiança.
O padre Karl Josef Erich Rahner (1904-1984), sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do século XX, preocupado em como transmitir a fé e a doutrina da Igreja em um contexto moderno, afirmou: “A história da Igreja não acabou, não é tradição morta, devemos continuar a trabalhar nela”. Rahner percebeu o impacto do pensamento moderno sobre a Igreja Católica, que questionou sua influência cultural na condução da humanidade. Para a Igreja continuar mantendo influência, faz-se necessário uma permanente atualização de suas formas e métodos de evangelização, segundo Rahner.
Em nosso milênio, o Papa Francisco observou a necessidade de uma “Igreja em saída”, para chegar a todas as realidades existenciais. Na encíclica Evangelii Gaudium, publicada em 2013, escreveu: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos (n. 49)”.
Se algo desafia a Igreja Católica é a tentação de fechar-se em suas estruturas. A Igreja, por força das estruturas da instituição, tende a enfraquecer sua missão e esfriar o encanto pelo Evangelho. A excessiva preocupação com a doutrina rouba a escuta da realidade e da interpelante Palavra de Deus. A rigidez da instituição com suas estruturas pode levar a Igreja a afastar-se dos pobres, alertava o Papa Francisco.
Certamente, a credibilidade da Igreja com a opinião pública vem de sua história de anunciar o Evangelho e de suas ações concretas, sobretudo, com os mais pobres e vulneráveis da sociedade. Jesus, ao fundar sua Igreja, enviou seus discípulos a percorrer esse itinerário do anúncio do Evangelho e trabalhar pelo Reino de Deus (Mateus 28,19-20). Este parece-nos ser o itinerário da credibilidade da Igreja Católica, estar “em saída”, nessa direção.
Hoje, no topo da credibilidade da opinião pública, desafios pastorais não faltam para a Igreja. Historicamente, mesmo em tempos de perseguição, superou tantos desafios. Num cenário de concorrência religiosa e de muita dificuldade pastoral, a Igreja Católica dá sinais claros de que continuará superando os desafios de cada tempo, todos pela sua fidelidade a Jesus Cristo e encanto pelo Evangelho.
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