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A porta da Esperança

Miguel Debiasi

Um dos programas de televisão brasileiro de maior sucesso de audiência nos domingos à tarde, entre 1984 e 1996, exibido pelo SBT e apresentado por Silvio Santos chamava-se Porta da Esperança. O sucesso de audiência do programa deve-se a muitos fatores como o marketing de comunicação e a situação social, econômica e cultural dos brasileiros. Sem entrar no mérito do sucesso fico com o nome: Porta da Esperança. Estes são termos familiares à fé cristã. Estamos no ano de jubileu da esperança.

Pelos textos bíblicos a iniciativa de constituir o ano de jubileu foi do povo hebreu. Prática que consistia em celebrar o jubileu a cada 50 anos, a contar da data de entrada na Terra Prometida após a libertação da escravidão do Egito.

O texto bíblico escreve: “o quinquagésimo ano será jubileu; não semeiam e não ceifem o que cresce por si mesmo nem colham das vinhas não podadas. É jubileu e será santo a vocês; comam apenas o que a terra produzir. Nesse ano do jubileu cada um de vocês voltará para sua propriedade” (Levítico 25,11-13).

O ano jubilar para o povo hebreu era a ocasião para uma revisão de sua caminhada e de sua organização social, de restabelecer uma relação correta com Deus, entre as pessoas e com a criação. A fidelidade ao ano de jubileu implicava a restituição de terrenos arrendados, repouso da terra, remissão das dívidas e a libertação dos escravos.

Jesus Cristo ao iniciar sua missão pública, entrou na sinagoga em dia de sábado e lendo na Torá um trecho do profeta Isaías (61,1-2), valorizou a tradição do povo hebreu: “O Espírito do Santo está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor” (Lucas, 418-19). Jesus assumiu a mensagem do texto e fez dela seu projeto messiânico.

No percurso da história do cristianismo e da Igreja o ano jubilar perdeu um pouco da sua relevância. Em 1300, o Papa Bonifácio VII, retomou a tradição bíblica de celebrar o ano jubilar. Quase dois séculos após, em 1475, a Igreja decidiu que o jubileu ordinário fosse celebrado a cada 25 anos. E, estabeleceu que os jubileus podem ser ordinários e ou extraordinários.

Até o momento foram celebrados 26 anos santos ordinários e três extraordinários. Os extraordinários foram o ano da Redenção, em 1933, com o Papa Pio IX, em 1983, com o Papa João Paulo II e com o Papa Francisco em 2015, o da Misericórdia. No ano 2000, foi celebrado o último jubileu ordinário, marcando a passagem de século e de milênio.

Na história da Igreja o jubileu é celebrado a partir do acontecimento central da fé, da encarnação de Jesus, do Filho eterno, que entrou para a história e consagrou a temporalidade como tempo de construção do reino de Deus. A Igreja celebra neste ano 2025 anos do nascimento do Salvador Jesus Cristo, com o lema peregrinos de esperança.

Hoje, os cristãos tendem a valorizar o Ano Santo pela indulgência e o perdão geral, menos na revisão da relação com Deus e entre as pessoas. Para obter o merecimento da indulgência geral o cristão precisa realizar algumas obras de caridades e penitenciais. No caso específico de 2025, o suplicante pode peregrinar e visitar as basílicas que foram determinadas pelo Papa Francisco ou as igrejas pelos bispos diocesanos.

Nas orientações bíblicas o ano de jubileu vai além das ações espirituais, penitenciais e caritativas. O Papa Francisco quando decretou 2025 ano santo, tem em mente essa compreensão bíblica. Obviamente, que está ciente da realidade mundial e das situações de desumanização das pessoas e de povos. Em sua vida sacerdotal e de pontífice nunca separou a fé em Cristo das situações que ferem a dignidade, a ética e a criação.

Por inúmeras vezes o pontífice apelou às autoridades mundiais para maiores esforços para a superação de conflitos e guerras entre países que levam à morte milhares de inocentes e indefesos. Em suas encíclicas nunca ignorou a destruição e desequilíbrio do Planeta Terra, da perversa economia da indiferença, dos preconceitos religiosos e morais, da discriminação de pessoas como dos imigrantes, dos atentados contra a vida humana e da falta de empatia, solidariedade e responsabilidade política e moral.

O ano santo para o Papa Francisco é um tempo para novas posturas, sejam no campo religioso, social, político, econômico, a ponto de se traduzirem numa ação que reorganiza a vida da sociedade mundial. Posturas que superem a miséria, a fome, as guerras, discórdias e desigualdades sociais e econômicas. Este é o sentido da celebração do Ano Santo, da passagem para uma vida condizente com a que propõe Jesus Cristo e seu Evangelho.

Neste propósito do Ano Santo, peregrinar e visitar os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, além das basílicas papais de Roma, passando pela Porto Santa ou pela Porta da Esperança, ou por alguns santuários diocesanos, devem levar à conversão das pessoas e da humanidade.

A Porta da Esperança da Basílica de São Pedro foi escancarada na noite de 24 de dezembro para o mundo. A abertura da Porta da Esperança ou da Porta Santa, representa o convite de Jesus que disse: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá e encontrará pastagem” (João 10,9).

A Porta da Esperança tem muitos significados, portanto, comunica muitas coisas para Igreja e para qualquer ser humano. A porta pode ser um sinal de acolhida daqueles que batem. Milhões de pessoas que precisam encontrar a porta aberta do emprego, da moradia, da dignidade, da paz, da igualdade social e econômica.

A esperança se fundamenta na confiança no Senhor, que é uma virtude daqueles que creem e que pela fé e obras realizam o plano de Deus. A esperança corresponde a um estado de vida cristã comprometida. Equivale a um estado de vida cristã de “viva esperança” (1Pedro 1,3). É a perfeita comunhão com Deus, pela qual o Espírito Santo faz a esperança transbordar a vida (Romanos 15,13). A esperança é âncora da alma humana” (Hebreus 6,19).

A Porta da Esperança para a Igreja não é show, espetáculo de audiência, mas sinônimo de vida comprometida com o plano de Deus. O Papa Francisco diz que a “esperança que não engana”. Que o Ano Santo ajude abrir a Porta da Esperança em cada coração endurecido para torná-lo comprometido com o projeto de Deus, que é libertação e salvação humana.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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