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A libertação da religião

Miguel Debiasi

As Sagradas Escrituras narram que Deus chamou Abraão para constituir um numeroso povo e livre da escravidão (Gênesis 12,1-9). Na esperança de cumprir a aliança de Deus com Abraão o povo de Israel percorreu o deserto rumo à libertação sociopolítica com a conquista da terra prometida. Jesus é a encarnação da nova aliança para além de um único povo, mas Deus com toda humanidade. O Evangelho de Jesus Cristo é a Boa-Notícia libertadora. A história da salvação indica que toda experiência religiosa e cristã deve ser libertadora. Em cenário de pluralidade religiosa, a libertação da religião é desafio urgente para os cristãos.

A realidade religiosa católica e cristã do Brasil é constituída por uma pluralidade de experiências, em grande parte sustentada por visões de Deus que responde pela recompensa material. Em meio a plural experiência religiosa manifestam-se mecanismos de caráter emocionais, sentimentais e conteúdos ideológicos que manipulam o verdadeiro sentido do Evangelho. O padre Vitor Galdino Feller constatava na virada do milênio seis tendências na Igreja Católica: a) o tradicionalismo das elites, que tem uma tendência fixista da fé desligada da vida; b) o tradicionalismo do povo: a religiosidade popular, vivência profunda, mas em termos pré-modernos com a visão fatalista e determinista da religião, passiva diante das injustiças; c) o tradicionalismo paroquial, tradicional ou renovado na linha do Concílio Vaticano II; d) o catolicismo social com empenho de inspiração cristã na transformação da sociedade através das CEBs, pastorais sociais e movimentos populares; e) o catolicismo privativo: acento na dimensão emocional da fé e participação em movimento de expressão espiritual; f) a marginalização religiosa frente ao mundo do crime, da prostituição, das drogas, dos menores abandonados, dos sofredores de rua e outros.

Passada duas décadas da análise do padre Vitor Galdino Feller poderíamos acrescentar outras tendências no campo religioso católico, como: a catolicidade da indiferença; a catolicidade da recompensa material e da prosperidade; a catolicidade da obrigatoriedade religiosa; a catolicidade ecumênica; a catolicidade libertadora; a catolicidade evangélica e outras. A experiência religiosa católica e cristã é muito dinâmica. Ela se move no compasso e ao mesmo tempo no descompasso com a vida da sociedade. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman apresenta a sociedade moderna como um movimento e em que a verdade parece não subsistir por muito tempo. O teólogo luterano Oneide Bobsin, pesquisador da ciência da religião, buscar entender o subterrâneo religioso e registra que este permanece bastante inescrutável. A compreensão da experiência religiosa plural em presente contexto histórico é desafiadora para os estudiosos da religião.

Para o filósofo Manfredo Araújo de Oliveira na experiência religiosa cristã brasileira contemporânea sobressaem duas tendências: o neopentecostalismo evangélico e a renovação carismática católica. Numa análise sociorreligiosa é possível à percepção de elementos de aproximação e diferenciação nas duas tendências. Ambas se identificam na linguagem, na exploração das emoções e sentimentalismos, nas visões de mundo e no conteúdo da pregação centrado nos demônios, na prática de cura e gestos. Diferenciam-se a favor do neopentecostalismo sua maior inserção entre os pobres. A favor da renovação carismática sua maior inserção entre a classe média. Ambos buscam um ajustamento e integração social com o fenômeno urbano. Porém, há um desligamento social a partir de uma visão dualista da vida humana e da sociedade moderna propondo uma questão central para a prática da religião: da libertação do diabo, dos demônios e a prosperidade financeira, da saúde, do triunfo dos empreendimentos e dos próprios fiéis. A visão dualista fortalece a sociedade moderna com acomodações dos cristãos que produz uma nova cultura religiosa de massa.

As igrejas ao realizar profundas acomodações com a sociedade moderna por uma visão humana dualista e sectária da fé com a vida, estas experiências religiosa crescem com sucesso junto à população empobrecida e desprovida de maior cultura. Este sucesso esconde um grande perigo do afastamento da verdadeira missão do Evangelho que é a libertação das pessoas e da transformação da sociedade. A Igreja católica carismática e a neopentecostal responde em boa parte aos interesses da sociedade moderna ao fazer a harmonização dos fiéis com a paz interior e do consolo diante das injustiças sociais. O resultado desta prática religiosa é a submissão das massas pelas visões distorcidas da realidade e pelas visões arcaicas como da restauração das forças psíquicas e espirituais dos crentes. As mídias religiosas tem vinculado esse discurso diariamente que encontra aceitação das massas e por elas acontece o distanciamento da fé cristã da verdadeira mensagem do Evangelho de Jesus Cristo.

Este cenário religioso católico e cristão brasileiro, em virtude de seu dualismo, é um problema grave a ser corrigido pela Igreja. A verdadeira fé em Cristo responde a libertação integral do ser humano que vai muito além de “expulsar” os demônios e “fazer” curas e acomodações sociais. O Evangelho de Jesus mostra que a fé além de ser uma experiência subjetiva libertadora é caminhada comunitária transformadora. A fé em Cristo assumida na sua integralidade passa ser consciente e libertadora. A religião cristã ou é libertadora ou não é religião.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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