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A era dos falsos messias

Miguel Debiasi

 

O Messias já chegou? Hoje, na era da pós-cristandade, a política foi engolida por uma nova febre messiânica. Estamos fascinados por líderes que prometem paraísos, usando os mais abomináveis instrumentos de desinformação e ódio. O perigo real não é apenas o líder que se apresenta, mas o fetiche da sociedade por um salvador que a liberte da responsabilidade de pensar e de agir de forma libertadora.

O fascínio pelo messianismo não é um fenômeno novo, mas atravessa séculos de história humana. Historiadores e biblistas contemporâneos apontam que o Oriente Médio, há pouco mais de dois mil anos, era um solo fértil para o surgimento de profetas e de aclamados messias. Nesse cenário, Jesus Cristo foi compreendido por seus contemporâneos dentro da moldura daquela época, inserindo-se numa linhagem de figuras que tentaram responder aos anseios de libertação do seu tempo (Lucas 7,18-23).

Diante de um cenário propenso ao surgimento de falsos messias, é preciso perguntar-se: por que a mensagem de Jesus Cristo atravessou séculos e chegou aos quatro cantos do mundo, diferenciando-se de outros líderes que ficaram pelo caminho? Segundo os textos bíblicos, a primeira razão é a sua origem divina: Jesus era o Messias esperado por longos anos, o enviado do Pai para salvar a humanidade (João 3,1-21). A sua Palavra possui perenidade porque não traz apenas um ensinamento humano, mas a própria verdade divina (João 6,1-15).

Em segundo lugar, sua mensagem perdurou porque Ele se encarnou na história, vivendo junto ao povo que há séculos aguardava a vinda do Messias e constituiu uma comunidade de seguidores. Após sua morte e ressurreição, esses discípulos testemunharam com fé e martírio o amor pelo Messias, organizando sua mensagem na Igreja primitiva (Atos dos Apóstolos 5). O movimento cristão fundado na fé em Jesus Cristo foi fortalecido pelo Espírito Santo e pela comunidade da Igreja, garantindo que a mensagem atravesse os tempos infinitos (Atos dos Apóstolos 2,1-21); diferente de outros movimentos messiânicos da época, que se dispersaram e desapareceram após a morte de seus líderes (Atos dos Apóstolos 5,34-38).

O fetiche pelo messianismo revela a tendência de depositar uma crença cega e quase mística em líderes ou ideologias, esperando que resolvam problemas complexos da sociedade de forma abrupta e definitiva. Esse fenômeno atribui um valor mágico ou sagrado ao ‘salvador’, isentando os indivíduos da construção coletiva e da consciência transformadora, ao mesmo tempo em que os exime de responsabilidades políticas e sociais.

O fetiche confere a ‘figuras salvadoras’ ou ideologias uma falsa autonomia, como se tivessem poder inato para moldar a realidade, obscurecendo as relações sociais reais que produzem os problemas. Ao criticar o fetichismo da mercadoria, o filósofo Karl Marx comparou essa tendência à religião: produtos da mente humana, sejam deuses, líderes ou mercadorias, parecem entidades autônomas que dominam as pessoas, em vez de serem dominados por elas.

Esse fascínio frequentemente gera inércia política e cultural, servindo de justificativa para regimes autoritários sob a premissa de que o ‘messias’ está acima de crítica ou de processos democráticos. Pior: o fetiche messiânico tende a crescer em momentos de profunda crise moral, econômica e social, quando as soluções convencionais são insuficientes. Depositar a esperança em um ‘salvador’ é a ilusão de que a salvação vem de fora, ignorando que a realidade é construída social e coletivamente.

O primeiro século d.C. na Judeia foi marcado por intensa expectativa messiânica, gerando diversos movimentos liderados por figuras carismáticas que se autoproclamam Messias ou profetas libertadores. No livro dos Atos dos Apóstolos (5,36-37), Gamaliel cita Teudas, que convenceu cerca de 400 homens a segui-lo até o rio Jordão, prometendo dividir as águas em um ato de emulação a Moisés, e Judas, o Galileu, que se rebelou contra o censo romano de 6 d.C.

Esse ambiente propício a falsos profetas incluía figuras como Simão, o Mago, que iludia Samaria com feitiçaria (Atos 8,9-11), e o líder conhecido como ‘O Egípcio’, que guiou quatro mil assassinos no deserto alegando que derrubaria Jerusalém (Atos 21,38). Todas essas revoltas, contudo, foram rapidamente suprimidas pela administração romana, resultando na morte ou dispersão de seus seguidores.

A menção de Gamaliel a esses falsos messias (Atos 5,38-39) servia para argumentar que, se o movimento cristão fosse de origem humana, pereceria, como aconteceu com os de Teudas e Judas; caso contrário, permaneceria. Esse alerta sobre enganadores já havia sido feito pelo próprio Jesus, que preveniu seus discípulos: “Acautelai-vos, que ninguém vos engane. Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e a muitos enganarão” (Mateus 24,4-5,23-26).

Transpondo o alerta de Jesus para o contexto atual, a inteligência artificial torna-se uma ferramenta de falsos profetas políticos. O movimento de extrema-direita utiliza essa tecnologia para promover a idolatria a figuras extremistas, criando simulacros de messias que suspostamente socorrem os necessitados. Essa construção artificial fascina multidões, blindando líderes que fomentam guerras e a pilhagem de recursos naturais, provando que o alerta bíblico sobre enganadores continua assustadoramente atual.

Como alertou Jesus ao enviar seus discípulos, falsos messias se apresentam com voz suave e aparência de ‘pele de cordeiro’, mas suas ações revelam lobos vorazes que exploram e oprimem milhões, confirmando que o líder é reconhecido pelos seus frutos (Mateus 7,15-16). No cenário atual, muitos líderes políticos que clamam por justiça social e se apresentam como messias, ao assumir o poder, têm comportamentos autoritários e atitudes puramente opressoras e destrutivas.

A história já registrou a passagem do verdadeiro Messias, cujo legado de sacrifício pelo bem comum e pela libertação humana contrasta drasticamente com a opressão dos falsos salvadores de nossos dias. A humanidade é chamada a discernir a verdade pelos frutos: o verdadeiro caminho não reside na adoração de líderes supostamente messiânicos, mas na justiça que protege os indefesos, os menores, o bem coletivo, e não na miséria e na ignorância que alimentam o dominador carrasco.

Infelizmente, hoje vestem-se lobos com pele de cordeiro, mas a história confirma: falsos messias políticos constroem impérios que inevitavelmente destroem e escravizam. O verdadeiro Messias liberta e salva!

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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