A comunidade é o lugar da vida humana
A comunidade é o lugar seguro para desenvolver a vida e realizar-se como sujeito da história, vem sofrendo um impacto negativo devido a influência do secularismo. Em contrapartida, sem comunidade, a consequência é o fechamento das pessoas e abandono de ideais e valores comuns, fundamentais para consolidar uma sociedade coletiva e justa. Em nosso tempo, tem crescido o abandono à vida de comunidade.
Frequentemente, afirmações de que a era contemporânea é caracterizada pelo individualismo e pela fragmentação. O individualismo refere-se à crescente ênfase na autonomia e liberdade do indivíduo, com menos laços sociais e comunitários tradicionais. A fragmentação descreve a tendência à divisão e dispersão em vários aspectos da vida social, incluindo a identidade pessoal, as relações sociais e as estruturas de poder.
O termo “comunidade” tem origem na palavra latina “communitas”, que deriva de “communis”, significando “comum”, “compartilhado” ou “público”. Esses termos remetem à ideia de que a comunidade é algo compartilhado por um grupo de pessoas, seja em termos de território, interesse, cultura ou outros laços em comum.
Os modelos de comunidades são muitos: a comunidade geográfica se refere pessoas que vivem em uma mesma região; a comunidade cultural em que as pessoas compartilham a mesma cultura, valores e tradições; a comunidade virtual na qual pessoas interagem em ambientes virtuais, como redes sociais e fóruns; a comunidade global formada por nações que defendem valores e direitos que são fundamentais tanto em nível local quanto global; a comunidade religiosa, que reúne as pessoas para celebrar a fé e agir segundo os princípios do Evangelho.
A cultura secular tem impactado as comunidades, com a diminuição da influência da religião e o aumento da secularização em várias áreas da vida social. Na diminuição da participação em atividades religiosas, na redução da influência das instituições religiosas em questões sociais, morais, políticas, tem-se o aumento do individualismo e da busca por valores seculares.
A secularização tem raízes em diversos fatores, como o avanço da ciência e da tecnologia, a urbanização e a educação, com abordagem mais secular e menos confessional. Esses fatores contribuíram para a mudança na forma como as pessoas se relacionam com a comunidade, com as instituições, especiamente as religiosas. Sob esta influência crescente, o indivíduo faz diferenciação das esferas sociais da comunidade religiosa. Sente que, na comunidade social, há mais a liberdade individual.
Na história da filosofia, Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C.), definiu o ser humano como um “animal político”. O que implica que o ser humano é naturalmente inclinado a viver em comunidade e a buscar a felicidade em conjunto. Ele argumentava que a natureza do homem o leva a se organizar em cidade-estado (pólis) para alcançar seus objetivos e viver uma vida plena e virtuosa.
O filósofo e sociólogo alemão contemporâneo Jürgen Habermas (1929), conhecido por sua teoria da ação comunicativa, explora como a comunicação e o diálogo são cruciais para a formação de comunidades e para a construção de consensos em questões éticas e políticas. A comunicação, quando livre de manipulação e coerção, pode levar à compreensão mútua e à formação de consensos em comunidade.
O filósofo britânico Alasdair Chalmers Maclntyre (1929-2025), critica o individualismo moderno e defende o retorno a uma ética baseada na comunidade e na tradição. O filósofo canadense Charles Taylor (1931), explora a importância da identidade e da cultura na formação da comunidade, destacando a necessidade de reconhecimento mútuo entre os membros da comunidade. O filósofo e político estadunidense Michael Sandel (1953), examina as implicações morais das escolhas políticas e econômicas para a comunidade e defende a importância do bem comum e da justiça social para a vida em comunidade.
O filósofo, teólogo e o humanitário, canadiano Jean Vanier (1928-2019), publicou uma obra com título: Comunidade, lugar do perdão e da festa. O autor reflete sobre a vida em comunidade, onde o perdão e a festa são elementos centrais. O perdão é de suma importância para a convivência, para o apoio mútuo e para a partilha de experiências que fortalecem os laços e promovem o bem-estar comum das pessoas. A festa representa a celebração da vida, da união e da superação das dificuldades humanas.
O sociólogo polonês-britânico Zygmunt Bauman (1925-2017), conhecido pelo seu conceito de “modernidade líquida”, em sua obra: Comunidade: a busca por segurança no atual, define a comunidade como lugar cálido. Ele via a busca por comunidades como uma resposta à sensação de insegurança e fluidez da vida moderna. Na sociedade contemporânea, caracterizada pela incerteza e pela falta de laços sólidos, as pessoas buscam a comunidade como um lugar de pertencimento e segurança.
Bauman também alerta, que a busca por comunidade pode levar a formas de exclusão e intolerância, com grupos se fechando em si mesmos e vendo o “outro” como uma ameaça. Diante dessa tentação é preciso construir comunidades cálidas.
A comunidade jamais será substituída ou destruída, mesmo com a evolução do secularismo e valores seculares. A evolução da civilização depende da comunidade, sem essa experiência, pode-se chegar a um sentimento de isolamento, falta de pertencimento, diminuição da qualidade de vida. No âmbito social, pode resultar em desigualdades, falta de voz e dificuldade em resolver problemas coletivos. No âmbito religioso, a fé pode enfraquecer e suas obras serem poucas para a redenção humana e a transformação da sociedade.
A comunidade é o lugar da vida humana. Até os animais irracionais e todos os seres vivos buscam viver em grupos para terem segurança e proteção. Assim, como a comunidade é o alicerce da vida e da ação de Deus da Santíssima Trindade, é também modelo para que a vida humana seja vivida de forma comunitária, a mais significativa.

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