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20 bilhões e reformas não foram o suficiente

Miguel Debiasi

A narrativa histórica predominante é que o mundo está dividido em duas partes: o Ocidente e o Oriente. O Ocidente representa o capitalismo e o Ocidente o comunismo. O Brasil faz parte da geografia do Ocidente e escolheu se engajar neste lado. A escolha pelo Ocidente capitalista não é tanto por estar incluído nessa geografia, mas mais por razões políticas e religiosas. Também, não há razões para opor-se ao comunismo. Muito pelo contrário, o Brasil exporta mais para os países comunistas e depende deles para seu crescimento. Nos últimos anos os ataques ao comunismo são cada vez mais sistemáticos. Obviamente, que o comunismo não é o problema do Brasil e dos brasileiros. Os problemas são outros.

Para muitos teóricos o mundo está dividido em dois campos: o Ocidente, representando o capitalismo cristão e o Oriente, representando o comunismo ateu. Para outros o mundo está organizado num antagonismo leste-oeste. Há aqueles que olham o mundo dividido em dois hemisférios norte-sul. Há outros que pensam em dois campos geopolíticos, de um lado enfatizado pelos Estados Unidos e do outro lado, representados pela antiga Rússia. Tem ainda aqueles que pensam que o mundo está dividido em dois pólos criados pela chamada Guerra Fria, ou da competição do mercado entre capitalista e comunista. Também, não podemos esquecer daqueles que acham o mundo está dividido entre dois polos religiosos, muçulmanos de um lado e cristãos do outro. A princípio, parece-nos evidente que estas narrativas já não se sustentam, a globalização da economia derrubou murros e fronteiras entre continentes. Mas, muitos continuam ressaltando as narrativas da existência de dois mundos que jamais estarão unidos.

É preciso descontruir as narrativas para construir novas compreensões do movimento mundial. Primeiro, é preciso dizer que as narrativas de mundo baseadas na bipolaridade: capitalismo x comunismo, são sempre de rivalidade entre as nações. Nessa compreensão as nações são organizadas em dois grupos e em duas alianças opostas. Uma representa o bem e a outra o mal. Na narrativa predominante o bem se chama Ocidente, terra do capitalismo e o mal o Oriente, campo do comunismo, lugar das trevas e do anticristo. Hoje, persistir nessa ideia é fortalecer a divisão mundial é arcaico.

Num movimento de globalização as nações do mundo, sejam capitalistas ou comunistas, não tem outro caminho senão fazer uma aliança e um pacto pelo desenvolvimento humano e para bem da humanidade inteira. A aliança e o pacto mundial só se realiza através de projetos viáveis para todas as nações. Para tanto, será preciso que o Ocidente supere seu anticomunismo e Oriente seus preconceitos ao capitalismo. Também é preciso refutar o culto cego ao sistema capitalista e comunista. Aos cristãos dos quatro cantos do mundo o melhor seria a opção por um sistema mais evangélico que ensina a tudo partilhar e colocar em comum, experiência que colocou em prática a Igreja primitiva. Para cristãos ou não a rivalidade entre potencias econômicas resulta no domínio de nações subdesenvolvidas. A rivalidade política e econômica é a origem de tantos conflitos mundiais e geradora de pobreza.

A superação da divisão entre “dois mundos” criados pelos seres humanos passa pelas políticas públicas de âmbito mundial. Isto exige de maior empenho de recursos públicos e privados em projetos de desenvolvimento humano e econômico das comunidades locais e continentais. Segundo dados da Receita Federal desde 1999 a empresa Ford Motor Company, ou simplesmente Ford, recebeu cerca de R$ 20 bilhões em incentivos fiscais do Estado brasileiro. Além dos incentivos fiscais, a Ford recebeu inúmeros benefícios e serviços prestados gratuitamente dos Estados em que instalou suas fábricas. Em 2021 a Ford fechou as fábricas de Taubaté (SP), Horizonte (CE) e Camaçari (BA), demitindo milhares de trabalhadores. Infelizmente, o fechamento destas unidades industriais é uma significativa perda social e econômica para os Estados da federação nacional.

Para alguns economistas a crise na indústria automotiva está associada aos fatores da economia mundial que a décadas está em recessão, sobretudo em países do Ocidente, do capitalismo. Na América do Sul a Ford há anos vem perdendo consumidores devido à crise econômica que atinge a população em geral. No Brasil, a Ford financiou o discurso político pela reforma trabalhista que sacrificou milhões de trabalhadores, que agora com sua retirada mostra que foi insuficiente para manter a confiança dos empresários. A retirada do Brasil expõe a política econômica de Paulo Guedes e do governo Jair Bolsonaro que levou o país para mais baixo índice de investimento e de empreendedores, fechando milhares de empresas anualmente. Possivelmente, os responsáveis pelo fechamento de várias unidades industriais da Ford sejam muitos, que com suas ideias e posturas políticas levaram a destruição do mercado interno e a estagnação econômica do Brasil. Infelizmente, os grandes prejudicados são os trabalhadores demitidos e que hoje estão desamparados de qualquer benefício e seguridade social.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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