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Jornada de Mãe - Na garupa da coragem: a história de Gláucia, mãe e piloto de motolância do SAMU

por Alice Corrêa

Com 20 anos de dedicação à saúde, Gláucia Scherer alia técnica, empatia e amor pela profissão em uma rotina marcada por adrenalina, desafios familiares e a missão de cuidar do outro em seus momentos mais frágeis.

Foto: Arquivo pessoal

No corre-corre das emergências, entre sirenes e manobras rápidas pelas ruas de Caxias do Sul, está Gláucia Scherer, uma mulher que há oito anos conduz uma motolância do SAMU — e há duas décadas dedica sua vida a cuidar dos outros. Técnica em enfermagem, mãe de dois filhos e apaixonada pelo que faz, ela coleciona histórias de superação, coragem e humanidade.

A trajetória de Gláucia começou em 2005, quando se formou como técnica de enfermagem em São Leopoldo. Trabalhou em UTIs e prontos-socorros, sempre nas áreas de urgência e emergência. Em 2009, mudou-se para Caxias do Sul, onde seguiu atuando em hospitais até prestar concurso público. “Em 2017, me chamaram pro SAMU, já direto pra vaga da motolância, porque sabiam que eu pilotava e gostava muito. E aí eu abracei”, relembra.

Motivada pelo desejo de cuidar, Gláucia revela que sua vocação vem de longa data. “Desde pequena, já ajudava minha mãe na colônia a cuidar dos bichos, a fazer curativo. Sempre gostei do cuidado direto com o paciente. A adrenalina da urgência é o que me move.” A escolha por pilotar moto em atendimentos médicos é vista por ela como extensão natural desse chamado. “Cada plantão é um novo desafio. Eu saio de casa feliz por saber que posso fazer a diferença.”

A vida profissional intensa tem seus reflexos em casa. Mãe do Igor, de 20 anos, e da Ana, de 18, Gláucia reconhece que a rotina exige sacrifícios. “A gente perde eventos, feriados, datas importantes. Mas meus filhos sempre me apoiaram. Eles entendem que eu amo o que faço.” O apoio da família foi fundamental para que ela se mantivesse firme na profissão. “Sem isso, talvez eu não conseguisse desempenhar tão bem meu trabalho.”

Gláucia foi mãe pela primeira vez aos 20 anos, sem planejamento. “Foi um susto, mas também a maior bênção da minha vida. Meu filho veio como um presente, num momento em que eu estava em outro rumo. Ele me guiou pro caminho certo.” Dois anos depois, ela decidiu ter a segunda filha, planejando que os irmãos fossem próximos. “Hoje eles são minha joia. Lutam pelo bem do outro, são pessoas boas. Me considero uma mãe vitoriosa.”

A maternidade, segundo ela, também moldou sua forma de cuidar. “Ser mãe me tornou mais empática. Amoleceu a frieza que, às vezes, a profissão exige. Às vezes, a pessoa só precisa de um colo, de alguém que a olhe nos olhos e diga: ‘você não está sozinho’.”

Em um meio onde a dor é rotina e os traumas são frequentes, Gláucia encontrou equilíbrio entre a razão profissional e o coração materno. “A maternidade me ensinou a não me tornar fria, mesmo precisando ser forte. Isso fez com que eu atendesse melhor, com mais humanidade.”

Mesmo diante dos desafios, ela não se vê longe da emergência. “Não me imagino fazendo outra coisa. Talvez, no futuro, como instrutora, repassando o que vivi. Mas quero continuar cuidando, estando perto das pessoas. É isso que me realiza.”

Entre o ronco da moto, o som das sirenes e o calor humano de um gesto simples, Gláucia segue sua jornada. Mãe, socorrista, motociclista — e, acima de tudo, uma mulher que carrega no peito o propósito de estar presente quando mais se precisa.

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