Negócios sem Fronteiras: Você sabe qual a origem do seu vizinho empreendedor?
Nessa reportagem, conhecemos empreendedores imigrantes que construíram a vida em Caxias do Sul
* Texto de Rafaela R. Trevisan, especial para a Tua Rádio São Francisco
Bem no centro de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, indo em direção ao Hospital Pompéia, fica escondido em um dos muitos prédios comerciais do município, um salão de beleza. Não é novidade quando se tem outros tantos espalhados por aí. Mas, diferente da maioria, esse salão nasceu a alguns quilômetros do Brasil, na terra do Orinoco e dos Andes. O salão de beleza Jonaica, chegou em solo brasileiro sem nenhum equipamento, apenas com sua criadora, Jonaica Alvarez, uma imigrante da Venezuela, que resolveu tentar a vida por aqui, após seu país natal não atender mais suas necessidades.
Jonaica trouxe consigo na travessia, os sonhos guardados na mala, juntamente com seus utensílios profissionais, que por azar do destino, foram roubados no processo. Apesar do início frustrante, os sonhos de Jô ainda vinham com ela, e foi com a força deles, que a venezuelana conseguiu reergueu seu salão do zero, na sala de casa mesmo. Depois de 4 meses de trabalho duro, ela conseguiu juntar a quantia necessária para comprar novos materiais e ainda, abrir um espaço profissional só seu. Hoje, já há 4 anos no Brasil, o salão tem uma rede de clientes fieis que une, tanto brasileiras, quanto imigrantes de todos os cantos do globo, presentes em Caxias.
Do brilho dos cabelos ao sabor da culinária
Diferente da maioria dos imigrantes presentes em Caxias, Salih Yüce vem de um continente diferente. Natural da Turquia, ele caiu de paraquedas no Brasil quando seu passaporte expirou em uma viagem para a Índia. Apesar de já ser graduado, em solo brasileiro, Salih decidiu seguir um rumo profissional divergente. Começou como motorista de Uber para aperfeiçoar o idioma e depois se juntou a um amigo para fundar o negócio do qual é dono hoje, o Capadócia Culinária Turca. O turco afirma que criar seu negócio no país foi tranquilo, e que, apesar da possibilidade de enfrentar a xenofobia, o Brasil o recebeu muito bem, tanto ele como seu negócio, que hoje é um dos melhores restaurantes étnicos da cidade. Para Salih, a felicidade e satisfação do cliente é o que mais importa no Capadócia.
Ainda no mundo da culinária, na região sudeste de Caxias, em um apartamento pitoresco mas aconchegante, se encontra Daniela Acosta, uma imigrante venezuelana, que carrega consigo a arte de conquistar as pessoas pela barriga. Dani é apaixonada por confeitaria desde os 9 anos e mesmo com sua mudança para o Brasil, não deixou a paixão para trás. Durante a pandemia, ainda morando em seu país, ela teve a brilhante ideia de ensinar a crianças aquilo que a ensinaram desde cedo: confeitar. Criar bolos, docinhos e sobremesas para passar o tempo dos pequenos, foi uma distração que, além de lhe proporcionar lazer, foi bem sucedida o suficiente para que ela comprasse todos os utensílios de cozinha que precisava. No Brasil há pouco tempo, a venezuelana ainda não teve a chance de formalizar e viver apenas de seu negócio, mas isso não a impede de fazer a maior quantidade de doces possíveis no tempo livre e comercializar todos na vizinhança e além. Daniela ainda quer viver apenas da confeitaria, mas enquanto sua vez não chega, ela trabalha formalmente em uma empresa e dedica seu tempo livre a levar as delícias da Dani Postrecitos pelos cantos da cidade.
Redefinindo o cinema: a paixão pela tela no país do carnaval
Provando que, independente de que lugar do mundo você esteja, uma profissão pode existir em qualquer canto, Daniel Vargas, cineasta colombiano, chegou a Caxias do Sul para mostrar que o cinema tem espaço de crescimento na região da Serra Gaúcha. O fundador da produtora Chamán Films afirma que, para ele, cinema é sinônimo de realização e felicidade. Daniel acredita que o Brasil tem boas oportunidades de emprego, mas que cada um constroi essas oportunidades de acordo com seu esforço e disposição. Fundar a Chamán não foi um processo fácil - lhe exigiu persistência e coragem, assim como as demais histórias contadas aqui. Hoje, tanto ele quanto a produtora já são nomes conhecidos pelas ruas do município, o que pode-se considerar, sinônimo de sucesso.
Dharma: quando a fotografia vira missão
Existe uma palavra em sânscrito que conheci a pouco tempo. “Dharma” significa propósito de vida, uma razão pela qual viemos ao mundo. Aprendi esse conceito através de uma fotógrafa talentosa, escondida na região sudoeste de Caxias. Betzabeth é seu nome, mas quem a conhece a chama carinhosamente de Betza. Apesar de não estar a tanto tempo em solo brasileiro, ela tem uma história digna de novela. Betza chegou ao país com seu filho, um pouco de dinheiro no bolso e uma depressão séria para tratar. Diferente de Jonaica, ela não passou por tantas dificuldades na hora de abrir seu estúdio, mas, percebeu logo no início que não estava entregando o que suas clientes mereciam. Dessa forma, da noite pro dia, Betza fechou seu negócio e foi trabalhar como caixa de supermercado. Às vezes a vida nos leva por caminhos que não entendemos, até já estarmos no meio da história. Como o universo não brinca em serviço, trabalhando com atendimento ao público, a venezuelana aprimorou muito seu português e ainda saiu do emprego com um amor para chamar de seu. Ao lado do companheiro, Betza abriu novamente seu estúdio, em um novo lugar, mais confortável e característico dela. No Dharma Estúdio Fotográfico ela eterniza momentos únicos entre mães e seus bebês, o que a torna, sem dúvidas, uma profissional especial que Caxias agora tem a sorte de chamar de moradora.
Ninguém disse a esses imigrantes que empreender seria fácil, ainda mais, em um país completamente diferente e desafiador. Se adaptar a uma nova cultura exige muito esforço, assim como ter um sonho em mente e trabalhar dia e noite para fazê-lo nascer. Caxias do Sul é conhecida pelo trabalho duro, composta por moradores que começam o dia antes do sol raiar e só retornam para casa bem depois que ele se pôs. Por isso, talvez não seja coincidência que Jonaica, Salih, Daniela, Betzabeth e Daniel tenham escolhido esse lugar para recomeçar. Porque se há algo que o trabalho bem feito faz por aqui — é prosperar.
* Rafaela R. Trevisan é Assistente de Meios de Subsistência do Centro de Atendimento ao Migrante e estudante de jornalismo da FSG
* Crédito das fotos: Antonio Valiente, Rafaela Trevisan e Arquivo pessoal Betzabeth Vasquez
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