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Um mundo diferente

Miguel Debiasi

 

O Fórum Social Mundial cunhou a expressão outro mundo é possível. Com essa ideia o Fórum Social Mundial é o contraponto ao Fórum de Davos e sinaliza que a humanidade pode pensar um mundo diferente. Isto é, com mais dignidade aos seres humanos, com ampla justiça social, com equilíbrio ecológico, com respeito às diversidades, às diferenças, com paz e unidade mundial. Um sonho! Talvez, no futuro, possa vir a ser realidade!

Obviamente, outro mundo diferente é tarefa dos que pensam e se opõem ao atual sistema capitalista que provoca o empobrecimento da maioria da população. Historicamente há muitas reações ao atual sistema. O Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México, reagiu com o lema: “um mundo onde caibam todos os mundos”. Os movimentos sociais da América Latina surgiram desta vocação popular de contrapor e propor alternativas ao sistema capitalista. Há décadas os movimentos sociais vêm lutando na esperança de despertar consciência e agrupar forças humanas com base no bem comum, numa economia justa para todos. São frutos da luta dos movimentos sociais a criação de muitos sindicatos organizados por categorias, sem contar as inúmeras conquistas dos trabalhadores, da classe operária, das melhorias sociais. Estas conquistas representam ser possível um mundo diferente.

Sem dúvida alguma, o mundo diferente não vem puramente do debate de ideais, mas acompanhado da luta social popular. Portanto, surgem da reação dos seres humanos feridos em sua dignidade ética e social. Propriamente, de uma reação coletiva organizada pelas categorias sociais, dos trabalhadores, desempregados, dos sem-teto, sem escola, sem saúde, sem nada. Os movimentos sociais que historicamente foram perseguidos pelos governos e ditaduras militares hoje ainda resistem bravamente. A resistência do movimento social é sinal de que a luta popular continua a refutar o atual modelo econômico, político neoliberal que impõe aos povos da América Latina e a outros continentes explorados e dominados pesadas cargas para haver acordos bilaterais. A tarefa do movimento social é fomentar a utopia de um mundo diferente e organizar as massas para uma irrupção da multidão a buscar o irrestrito bem coletivo.

Logo, num cenário de tantos desfavorecidos, empobrecidos, desalentados, abandonados, pode eclodir neste contexto histórico um movimento social como aconteceu na Argentina, Chile, França e outros países. O movimento social tem essa vocação de demonstrar as contradições e limites do sistema atual e buscar caminhos por transformação da sociedade com base na garantia dos bens comuns e coletivos. O Fórum Social Mundial propõe este debate e fomenta espaços de partilha entre os setores e as categorias sociais em prol da esperança por outro mundo possível.

A ideia de um mundo diferente, digno para todos os seres humanos, implica, portanto, na superação da desigualdade social, econômica, cultural, política, que concentra nas mãos de poucos toda a riqueza e capital mundial. Por conseguinte, a grande concentração provoca tensões sociais e acaba introduzindo a política do império, favorecendo apenas aos mandatários. Lutar contra essa realidade é desafio de todos os afetados, bem como dos cristãos que pela força do Evangelho de Jesus Cristo percebem que sua vocação consiste em promover a equidade e justiça social.

A experiência de fé em Jesus é partícipe dos benefícios da vida humana e da coletividade. O próprio Jesus Cristo denunciou o mundo injusto, das grandes desigualdades sociais, ainda que tenha recebido a coroa de espinhos, os pregos, as dores, a humilhação, a cruz, a morte. A grande exclusão social de nosso tempo aponta o desafio dos cristãos para construírem o Reino de Deus. Com efeito, a fé em Jesus Cristo e a crença no Reino de Deus são incompatíveis com a concentração de riqueza à custa da exploração e da opressão de bilhões de seres humanos. Certamente, o mundo diferente surge da consciência da marginalidade. E para os cristãos, quando a fé em Cristo tornar-se verdadeira, portanto, crítica e ativa.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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