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Ruinas de um futuro que nunca existiu

Vanildo Luis Zugno

Uma das coisas que mais incomoda os cidadãos contribuintes são as obras inacabadas ou inúteis. É algo endêmico em nosso país. Tanto em nível federal, como estadual e municipal. Usinas nucleares em construção há mais de cinquenta anos; Estradas que foram engolidas pela floresta ou pelos lamaçais antes de serem concluídas; pontes em lugares onde não há rios; sistemas de transporte urbano que não respondem às demandas da população; hospitais sem equipamentos; escolas gigantescas onde há poucas crianças ou salas de aula sem professores onde são muitos os que desejam estudar; estádios faraônicos onde não há times de futebol; aeroportos onde sequer cidades existem... E a lista poderia continuar ad infinitum.

Vendo tais situações, logo uma resposta nos vem à mente: corrupção! É verdade. Em tudo isso há muito de corrupção. Obras que foram iniciadas sem necessidade, apenas para satisfazer o apetite dos empresários financiadores de campanha. Ou obras que se prolongam para justificar aditivos orçamentários que perfazem uma soma maior que o plano original. E com o conveniente de que os aditivos não precisam passar por licitação. Basta uma decisão da Bic do governante de plantão para estufar as bolsas dos amigos e amigas.

Mas há algo mais profundo e grave nisso tudo. A falta de planejamento. Obras inacabadas são sintoma da falta de um projeto de nação. Tudo é feito a esmo, sem preocupação com o que queremos para o amanhã de nossos municípios, estados e nação. E como não há um sonho de futuro que nos una, cada governo vende para a população um pseudoprojeto que promete começar tudo do zero como se nada antes houvesse sido feito. E como, de fato, não há projeto de governo, cada administrador faz o que lhe dá na cabeça ou aquilo que lhe demandam seus financiadores ou o grupo econômico ou social que ao qual está vinculado. E os recursos públicos se vão pelo ralo sem que perspectivas de esperança se abram para o povo.

Tal modo de fazer chega ao seu paroxismo quando governantes assumem com o confessado propósito de destruir tudo o que foi feito antes. “Antes de mim o caos” parece ser o que anima pseudomitos a se apresentarem como salvadores da nação. Desmantelar empresas exitosas, anular os projetos em andamento, sucatear o serviço público governando de improviso conforme as emoções do momento que traduzem pulsões de ódio e destruição. O resultado para esse modus operandi é o de um país em chamas. Tanto físicas como sociais. As físicas já estão ardendo na Amazônia. As sociais, já ardem há muito tempo, tanto no campo como na cidade e nas periferias. E, infelizmente, tendem a aumentar. E podem se tornar incontroláveis.

Basta trocar os governantes? A mentalidade mágica na qual muitos ainda vivem, diz que sim: “se não dá certo a gente tira!” Mas não é assim. O que carecemos é de planejamento. E planejamento a longo prazo. O próprio Jesus já dizia isso. Não se começa uma obra sem saber se se tem recursos para ir até o fim. E não se começa uma disputa se não temos certeza de ter mais forças que nosso adversário. Se não temos certeza disso, é melhor não arriscar.

E tudo tem que estar sustentado por uma experiência de fé. É ela que nos dá a coragem de empreender e ir até o fim. Tudo o mais é improviso. E caminho para o desgaste e fracasso. Que tenhamos fé, coragem e cálculo para desenhar e construir uma nação onde não haja mais ruínas de um futuro que nunca existiu.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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