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O compromisso com o dom da vida

Miguel Debiasi

 

A Igreja do Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), desde 1962 tem proporcionado durante a Quaresma a Campanha da Fraternidade. A cada ano propõe debater uma questão de relevância social. Para este ano é Fraternidade e vida: dom e compromisso! Em presente contexto é uma questão imprescindível que exige séria reflexão.

A Campanha da Fraternidade é iniciativa da Igreja pela qual convoca os católicos, cristãos e cidadãos a debaterem assuntos que envolvem toda a coletividade. Também, por ela, os católicos e cristãos podem viver melhor o espírito da Quaresma em preparação à celebração da Páscoa. Entre as muitas questões sugeridas pelas comunidades eclesiais e organismos sociais para a Campanha da Fraternidade de 2020, a Igreja elegeu o tema da vida que de inúmeras formas vem sendo espoliada. A escolha mostra que a Igreja continua exercendo seu profetismo em cenário de sofrimento da maioria da população brasileira e de degradação das relações sociais, ecológicas, planetárias.

Para uma profunda reflexão a Igreja indica ser oportuno um olhar à vida, em especial do outro. Para olhar para o outro a Igreja oferece o texto bíblico do bom samaritano que viu o caído por terra, teve compaixão e cuidou dele (Lucas 10, 29-37). No Brasil, um olhar samaritano foi o da Irmã Dulce, canonizada em outubro com o nome Santa Dulce dos Pobres. Certamente, há inúmeros olhares samaritanos espalhados pelo Brasil que enxergam a realidade do povo, sentem compaixão e tomam iniciativas de ajudar aqueles que estão na miséria e no sofrimento. A proposta da Campanha é despertar um olhar que veja e não passe adiante, mas leve solidariedade.

Como primeiro pressuposto deste debate é preciso ver a realidade da população brasileira. Para isto, recorremos aos números apresentados por institutos públicos que favorecem a melhor compreensão da situação do povo. Conforme os órgãos citados no texto da Campanha da Fraternidade, no Brasil 22,6% das crianças e adolescentes com idade entre zero e 14 anos vivem em situação de extrema pobreza; 9,4 milhões de brasileiros vivem com uma renda mensal de R$ 234,25, um quarto do salário mínimo; o Brasil é um dos piores países de desigualdade social, fica à frente de nove nações do continente africano; 50% dos pobres em 2019 tiveram uma retração de 3,5% em suas rendas; 10% dos mais ricos do país tiveram aumento de 6% em seus rendimentos; a taxa de desemprego atingiu 12,7%, o maior dos últimos 20 anos; a população desocupada cresceu 10% no último ano; o número de pessoas desalentadas subiu para 4,8 milhões; o Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina; os fenômenos de suicídio, feminicídio e automutilação têm crescido entre os pobres; fake news, intolerância, ódio, drogas, alcoolismo e violência têm levado à banalização da vida.

Também se observa crescente agressão ao meio ambiente como as queimadas e desmatamento da Amazônia; o derramamento de petróleo nas praias do Nordeste; a água mineral no país virou disputa comercial; a exploração da mineração danosa ao meio ambiente por grupos econômicos ocorre imune de fiscalização dos órgãos públicos federais; o Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos e pesticidas na agricultura, 400 vezes maior que os países da Europa; aumentou a flexibilização das leis de vigilância ambiental com a liberação de mais de 300 agrotóxicos altamente perigosos proibidos em outros países; os indígenas são expulsos de suas terras pelos latifundiários; as reformas trabalhista e da previdência social elevou o número de pessoas que trabalham na economia informal sem direito e seguridade social; os lucros dos bancos em 2019 foram exorbitantes sem constrangimento social.

Nesse contexto, é imprescindível iluminar a leitura da vida com o olhar de Cristo. A parábola do bom samaritano que Jesus conta ao mestre da lei que pretendia entender quem era o próximo rompe com a indiferença. Em época que a indiferença vai cegando olhares, tomando corações, adormecendo consciências e eliminando solidariedade, é preciso recorrer à atitude do bom samaritano que viu o abandonado à beira do caminho, se encheu de compaixão e cuidou dele. A atitude do bom samaritano pode impulsionar olhares fraternos e compromisso com os muitos abandonados pelo sistema que estão nas favelas, bairros, cidades e à beira das estradas. Os fiéis seguidores de Jesus Cristo sabem que somente um olhar de compaixão pelos últimos pode transformar a vida sofrida de milhões de pessoas. Assim, pela fé em Cristo e pela solidariedade fazer da vida humana um dom e um compromisso.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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