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I♥NY

Gislaine Marins

I love New York

Confesso: eu me arrependi. Estou arrependida de não ter gostado de Nova Iorque, de ter me sentido como Caetano Veloso chegando em São Paulo e odiando tudo que não é mesmo velho. Estou arrependida: é como um luto, leva tempo para reelaborar e cair a ficha.
Não digo que quero fugir para Nova Iorque amanhã ou que estou louca para ouvir o rumor metálico das rodas dos metrôs sobre os trilhos, ou que quero me perder no Central Park, ou que sonho fotografar esquilos e bueiros fumegantes. Não digo que sinto saudades dos veteranos protestando sua pobreza nas calçadas, ou que lamento não ver os trabalhadores nos restaurantes à espera de uma gorjeta que complementa e às vezes é mais que o próprio salário. Não tenho coragem de afirmar que os arranha-céus do Queens, onde nasceu Trump, são uma esperança para a alma popular da cidade. Cada velha casa do bairro parecia um pôr-do-sol que a gente sabe que não irá se repetir, embora pareça igual no dia seguinte. Estou arrependida, mas não me apaixonei ainda. Eu só amo o que conheço.

Em São Paulo há enormes desigualdades. Não é lapso: em matéria de grandes cidades, os defeitos se copiam. Apenas a alma é única. E Nova Iorque deve ter a sua, escondida nas ruas dos bairros, nas crianças que teimam em desafiar o asfalto, no Brooklyn e seus pedidos de socorro pichados nos muros, apesar da determinação contra um futuro que teima em querer ser destino.
Preciso voltar e ficar mais tempo por lá. Missão: desviar dos turistas, das vitrinas, do consumismo desenfreado; descobrir o compromisso civil dos ceus habitantes, reencontrar a criatividade dos músicos de rua, perceber que as instituições são o pilar dessa cidade e dessa sociedade, acima dos enormes problemas e dos péssimos políticos; gostar mais das pessoas e resistir aos estereótipos, acreditar que em toda comunidade a mudança e a transformação começam em momentos de crise, não nas fases de entusiasmo. É quando achamos que tudo vai mal que as coisas boas podem voltar a acontecer.

Arrependimento às vezes é bom. Quem sabe uma hora dessas eu sinta que quero voltar a encontrar São Paulo também.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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