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Fé: a confiança do povo brasileiro

Miguel Debiasi

Ao ser humano moderno muitos caminhos pareciam estar seguros e de mil possibilidades, como os do progresso e da felicidade. A filosofia moderna pensou o mundo e a existência humana estritamente no domínio da razão. Por este caminho, compreendem-se as coisas estritamente na sua dimensão histórica. Hoje, com o debate de viés pós-colonial, argumenta que houve o domínio histórico do pensamento moderno ocidental hegemônico.

O filósofo alemão e autor das obras Crítica da Razão Cínica e Ira e Tempo, Peter Sloterdijk (1947), considerado um dos grandes nomes do pensamento contemporâneo, afirma que “o mundo moderno não ensina a pensar”. Para este a ciência moderna hegemônica é excludente de outros saberes. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos diz que a modernidade construiu uma visão dualista e dicotômica da vida e da realidade, como: teoria-prática, qualidade-quantidade, cultura-natureza, sujeito-objeto, entre outros. Para o sociólogo a racionalidade e quantidade são os elementos que caracterizam a ciência moderna hegemônica. O moderno se caracteriza por um discurso ascético, impessoal, hegemônico e universal. A única promessa cumprida da modernidade está na dominação da natureza, e consequentemente o homem faz parte dela.

O filósofo argentino Enrique Dussel, autor de muitas obras, como Filosofia da libertação e Ética da libertação, propõe a descolonialidade do pensamento e superação do eurocentrismo. Nessa perspectiva há uma gama de renomados pensadores latinos, como Miglolo, Quijano, Castro-Gómes, entre outros. As alternativas ao pensamento ocidental moderno de caráter eurocêntrico se construíam ao pensar um novo paradigma a partir dos problemas da humanidade. Pensar o mundo, a história, as coisas, a vida humana não com os olhos do sujeito burguês, mas a partir e com o horizonte das minorias, dos colonizados, dos renegados pelas narrativas históricas do centro, do primeiro mundo. Isto parece pura utopia dos pensadores, e de certa forma, conforme pesquisa, é manifesto na população.

Conforme pesquisa realizada pela ONG Oxfam Brasil divulgada em abril, a fé religiosa é o aspecto mais importante para melhorar as condições de vida para 28% dos brasileiros. Para 21% os estudos são o aspecto essencial, para 11% é o trabalho e para 8% é o dinheiro. A pesquisa não deixa de provocar uma reflexão a partir da realidade da sociedade e das pessoas, como propõem os filósofos e o sociólogo citados.

De certa forma, pela fé religiosa sobressair-se a outros aspectos da vida, compreende-se haver uma desilusão do povo com o rumo da sociedade, hoje regida pela economia e política. Com a concentração dos bens nas mãos de poucos e política reduzida a serviço desta minoria, há um exaurir-se da confiança do povo. Diante do descrédito do discurso da economia e da política, o que sustenta a vida e guarda a esperança do povo é a fé: “se não acreditardes, não compreendereis” (Isaías 7,9). A única esperança de um desempregado, pobre, assalariado, aposentado, está em quem é fiável, razoável ter fé: Nele, Deus, como profetiza Isaías (Isaías 65,16).

Lida a pesquisa à luz do profeta Isaías, em que “Deus é fiel”, faz-se necessário lembrar que a fé precisa conhecimento, verdade, sabedoria. Sem isto não há fé viva e nem crente fiel à vontade de Deus. Em contexto brasileiro de forte manipulação da religião, vale lembrar que há uma ligação íntima entre a fé e a verdade. Na história da civilização a manipulação da fé do povo ocorre justamente diante da crise da verdade que perpassa justiça, política, economia, governo. Em contrapartida, somente a fé com a verdade oferece luz e compreensão do agir de Deus: “Senhor tu és a minha lâmpada, meu Deus, tu iluminas a minha treva” (Salmo 18,29).

Mas, a cultura contemporânea propõe o contrário, tende a aceitar como verdadeiro aquilo que vem da tecnologia. Portanto, daquilo que o homem criou, inventou, pensou. Isto explica o resultado verificado na pesquisa, o pensamento moderno e governo laico menosprezam o valor e a experiência religiosa com a verdade. A ciência moderna acreditou que a fé religiosa não tinha algo a oferecer ao homem secular, ela é algo privado, apenas do sujeito crente. Grande erro, pois a fé está na origem de toda a caminhada da humanidade. A fé é luz e o sentido da caminhada comum do ser humano: “Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguirão apagá-la” (João 1,5).

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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