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Eu + Tu = Nós

Miguel Debiasi

 

A vida humana e, sobretudo, a cristã, é essencialmente convivência,  viver e conviver com outro. Por não ter levado de forma radical este princípio que brota à luz do Evangelho e da prática de Jesus Cristo, os cristãos contribuíram com a intolerância, a indiferença e violência social. É verdade que, tanto no tempo de Jesus quanto agora, muitos cristãos testemunharam uma existência humana amorosa e respeitosa ao ponto de serem perseguidos e martirizados. O escritor judeu Martin Buber diz que esta experiência humana pode ser construída numa tríplice relação: Eu + Tu = Nós.

Quanto ao conceito do Eu, Buber o define como sendo: capacidade de escuta; não tornar o outro objeto; passar da passividade para a responsabilidade; ter atitude de respeito com as relações humanas; sair de si mesmo e superar a subjetividade fechada; tornar-se solícito com a causa do outro; fazer da existência do outro o significado do Eu.

O conceito do Tu, Buber o apresenta como quem me interpela; que irrompe no meu mundo; que pede-me e chama-me para uma resposta; que exige um elemento de humanização; o rosto que tem valor ético; o potenciador de sentido da existência inviolável; o outro como caminho de comunhão que leva-me a tomar uma atitude face à sua presença; a consciência que possui um valor incondicional em si mesmo pela inviolabilidade e sacralidade da sua existência única; diz-me que sua presença não dá lugar à indiferença. É o eu que se deixa interpelar pela existência do Tu.

Desta relação interpessoal do Eu + Tu vem o Nós que é definido por Buber, como: a convivência, comunhão, viver e conviver; respeito mútuo; responsabilidade mútua; construção de um mundo humano/humanizado.

Em Buber essa tríplice relação é capaz de contrapor a sociedade do consumismo e do individualismo, produtos da vida capitalista. A civilização contemporânea é marcada pelo liberalismo econômico e ético, protagonizada pelo indivíduo como sujeito de sua história. As gerações contemporâneas são marcadas pela existência do “eu”. O “eu” como núcleo do indivíduo e de sua liberdade de decidir sobre sua vida de forma independente configura o sujeito moderno, que vive uma ruptura entre o eu e o outro. A vida comunitária é destruída ou fica numa posição secundária frente à liberdade que o indivíduo possui.

Esta prospectiva da civilização moderna impôs a derrota dos laços comunitários. Como consequência a comunidade perdeu seu valor e abriu espaço para os desejos e as vontades individuais. As vontades pessoais e individuais colocaram-se numa perspectiva de confronto com os laços comunitários. A comunidade tornou-se algo nocivo, o compromisso indesejável. Assim, o individualismo mostrou seu poder de reagrupar pessoas por interesses meramente individuais. É a emergência da pura subjetividade contrapondo as relações com o Tu, com o Nós.

No entanto, para Buber a civilização contemporânea tem capacidade de reagir aos interesses do indivíduo enquanto sujeito fechado, isolado de qualquer responsabilidade com a alteridade, com o outro. O momento histórico exige uma reviravolta nas relações humanas. Para isto, exige-se a capacidade de construir relações entre o indivíduo e a comunidade, do sujeito com as instituições sociais, comunitárias. Contudo, se historicamente as instituições teciam elementos culturais e sociais para moldar a vida do indivíduo, agora será preciso um renovamento da experiência de comunidade. Logo, pensar numa nova comunidade que busque integrar e satisfazer os gostos e as demandas subjetivas das pessoas.

Então, se há a necessidade de construir relações interpessoais é porque as partes do Eu, do Tu e do Nós foram separadas e não se comunicam. Se há a necessidade de repensar as relações humanas é porque existem problemas com a experiência de comunidade. No fundo, Buber nos leva a perguntar como construir as relações Eu + Tu = Nós. O caminho para fazer isto é repensar o sentido da comunidade e renovar sua capacidade de promover a experiência comunitária. Nesta tarefa, a comunidade de fé é o lugar onde estão as pessoas. A comunidade constituída por Jesus Cristo à luz da Palavra deve ser a mediadora com aqueles que têm fome, sede, estão nus, são forasteiros, doentes, presos (Mateus 25, 35-36). Frente ao individualismo, consumismo e indiferença fomentados pelo sistema econômico excludente, a comunidade cristã há de ser uma luz para as relações interpessoais, que realize o Eu + Tu e chegue à existência do Nós.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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