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E o dia da consciência branca?

Gislaine Marins

É urgente instituir um dia da consciência branca, desde que os brancos lutem para ter consciência da estrutura social da qual são herdeiros.

Os brancos do nosso país sabem que são herdeiros dos colonizadores? Sabem que o apagamento da memória sobre a política de embranquecimento da população é obra dos seus antepassados? Os descendentes de italianos sabem que a imigração foi favorecida para que eles substituíssem os negros nas fazendas de café e para embranquecerem estatisticamente o nosso país? Os brancos sabem que ao serem oficialmente libertados do cativeiro os negros não receberam nenhum ressarcimento? Sabem que os fazendeiros pleiteavam ressarcimento do governo pela mão-de-obra perdida? Os brancos acham que quando uma pessoa é forçada a trabalhar gratuitamente, ao abrigo de um regime escravocrata, isso permite que a violação da sua liberdade seja relativizada e considerada justa? Se um branco estivesse no lugar do escravo pensaria o mesmo? Os brancos têm consciência da estatística sobre as diferenças salariais, sobre o acesso à educação, sobre a expectativa de vida, sobre as mortes violentas que atingem os afrodescendentes no nosso país? Acham que a estatística é uma disciplina baseada em cálculos ou em casualidades? Os brancos acham que ser bem recebido em restaurantes é casualidade também? Acham que é casual que clientes negros sejam confundidos com funcionários? Os brancos têm consciência de que elevador de serviço é discriminatório? Sabem que contribuições sociais e férias não são favor, mas dever? Sabem que SUS é um serviço público e não a tábua de salvação para os rejeitados? Sonham com uma vida exclusiva, onde possam se sentir seguros de que não serão confundidos com pobres e pretos? Têm amigo de estimação negro para provar que não é racista? Acreditam que seria melhor instituir o dia da consciência humana?

Discordo: não é o caso de criar um dia da consciência humana, mas da consciência branca. Um dia de reflexão e autocrítica, sobre a herança que carregamos, os erros que cometemos, as atitudes que devemos superar. Acho que os brancos devem lutar por isso. E podem começar o processo criticando abertamente e exigindo punição adequada para aqueles que expõem bandeiras nazistas em lugares públicos, violando a sacralidade da ordem democrática e constitucional. Podem começar por refrear a tendência a chamar de opinião aquilo que é ofensa e de diferenças de posição aquilo que é relativismo. Os brancos que defendem a consciência humana possuem uma dívida para com a história, mas antes de tudo para consigo mesmos. Por isso o dia da consciência branca é urgente. O dia da mea culpa. O dia em que reconhecerão a dívida histórica em relação aos lucros espantosos que seus antepassados obtiveram deportando, estuprando, explorando e matando escravos. O dia em que colocarão lado a lado a tradição europeia da qual tanto se orgulham por afirmarem que é superior e reconhecerão as tradições africanas vivas na nossa realidade. O dia em que deixarão de ser submissos a padrões ocidentais de beleza e de estética para verem a beleza do mundo nas suas inúmeras formas. Instituam logo o dia da consciência branca, mas lutem por isso. Lutem para ultrapassar o preconceito que faz dessa demanda um slogan do privilégio branco, que faz desse pedido uma pauta do ressentimento em relação a um mundo que já não aceita passivamente a segregação como status quo. Lutem pela consciência branca, o Brasil precisa urgentemente disso. Entreguem os pontos: a supremacia não tem espaço em um mundo livre, democrático e que respeita a dignidade humana. Se o dia da consciência negra incomoda é porque há quem defenda o retrocesso, o anacronismo e um mundo de atrocidades que os negros lutaram para eliminar. É por isso que há consciência. Lutem por ela.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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