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Democracia à carbonara

Gislaine Marins

O antídoto para qualquer pesadelo é agarrar-se à realidade com a maior fidelidade possível. Fidelidade?

Antes de começar a escrever sobre receitas de massas italianas, tentei com Fernando Pessoa: “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Esbocei uma explicação sobre a impossibilidade de sobreposição da experiência vivida à experiência narrada, que exigiu muitos parágrafos e tempo demais para o espaço de uma coluna. Não me furto, porém, de algumas palavras sobre a fidelidade: é uma forma de resistência à limitação da linguagem, é um compromisso com a percepção de realidade que conseguimos exprimir.

Dito isso, agarro-me ao real e compartilho a receita de massa à carbonara, a verdadeira, bem sabendo que não existe nenhuma receita verdadeira e nem mesmo a possibilidade de transmitir todas as sensações (verdadeiras) que a degustação de uma massa à carbonara pode dar e que talvez o apreciador não tenha condições de perceber.

Dizem os romanos que a verdadeira carbonara é feita com ovos, queijo pecorino (queijo duro de ovelha), bacon extraído das bochechas do porco (e não da barriga, como a maior parte do bacon industrializado), uma pitada de pimenta-do-reino. A massa usada é o espaguete. Isso diz tudo e nada: uma carbonara pode ser feita com ovos de galinhas que não foram criadas ao ar livre, comendo o capim das colinas romanas? Pode ser feita com bacon que não foi produzido segundo as regras dos produtores locais e segredos mantidos com rigor por gerações de fabricantes de salames? O molho pode ser colocado numa massa que não foi feita com o trigo e com a água local? Uma massa à carbonara que não cumpra esses requisitos, continua sendo uma verdadeira carbonara apenas por ser bastante fiel ao original?

Faço a pergunta em outros termos. A receita para uma democracia pressupõe credibilidade, razoabilidade, originalidade. É possível engolir propostas que as pessoas não sabem de onde vêm? Podemos acreditar em um plano de governo sem conhecer os os números concretos para a sua realização? É plausível dar o aval a propostas que não estejam embasadas na realidade local, que não correspondam à realidade concreta das pessoas? Acreditar numa democracia retórica, feita de slogans, ódio e incapacidade para o debate é como acreditar que massa à carbonara feita com creme de leite é uma versão da receita original. Longe de ser uma receita fiel, já que o verdadeiro é algo quase inatingível, democracia à carbonara com creme de leite é um verdadeiro embuste.

E a degustação? A degustação é algo que ninguém pode contestar, dirá alguém. Em termos: a degustação não pode basear-se apenas no gosto pessoal. Volto ao exemplo prático: se uma pessoa está acostumada à violência e a ser agressiva, dirá que um prato de massa jogado sobre a mesa, com o bacon mal frito e o ovo cozido demais é uma ótima experiência gastronômica. Se nunca teve a oportunidade de degustar com a delicadeza que até mesmo os pratos mais populares exigem, especialmente pelo respeito à tradição centenária das populações que conservam saberes e culturas, o gesto de comer poderá saciar a fome, mas ser um ato sem nenhuma relevância culinária. Os que partilham um prato de comida, assim como os que defendem a democracia, fazem isso pelo gosto de estarem juntos, pelo interesse em conhecer e fazer conhecer sabores de outras culturas, pelo respeito das regras gastronômicas e pelo prazer de ser agradável aos comensais. Saciar a fome é um dever  fundamental, em seguida vem a democracia, a mais sagrada regra do convívio social. O bom degustador da democracia é gentil e sabe apreciar os melhores ingredientes que a sociedade oferece: respeito pela diversidade, acolhida às diferenças, valorização das tradições populares. Como um bom prato de massa à carbonara partilhado à mesa com os amigos.

Uma última dica: uma boa massa à carbonara deve ser acompanhada por vinho tinto, seco, servido à temperatura ambiente. In vino veritas, diz um provérbio. Pode ser, mas tenho as minhas dúvidas. Se ao longo de um encontro franco, de uma construção honesta, de debates respeitosos, pudermos chegar ao final com um sorriso, sem quebrar a taverna e sem invocar novas ditaduras, a massa à carbonara terá sido um sucesso. É óbvio que apreço a verdade, mas fico razoavelmente satisfeita com as promessas: serei fiel.

Pego a panela e encho de água, pego a faca para cortar o bacon, pego o garfo para bater os ovos. Está tudo pronto para a democracia fazer o seu curso. O problema é a noite. A noite e os seus pesadelos, que apavoram os conceitos, os poetas e as poesias, bem como as tentativas mais prosaicas de ater-se à realidade.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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