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As virtudes para um governante

Miguel Debiasi

 

Aos gregos é atribuído o mérito de pensar a concepção de Estado com suas estruturas e formas de ser gerenciado pela arte da política. Um mérito e uma prática governamental grega que transcende as épocas da história. Mas este legado dos gregos precisa ser atualizado em cada cidadão, em prol do bem-estar da coletividade, da Cidade, da comunidade. Uma tarefa desafiadora de nosso tempo.

O filósofo Platão (427 a. C. 347 a. C.) faz Sócrates (470 a. C. 399 a.C.) pronunciar no diálogo de Górgias as seguintes palavras: “creio ser eu dos poucos atenienses, para não dizer o único, que tenta realizar a verdadeira arte política e o único, entre os contemporâneos, que a pratica”. Para Platão a “verdadeira arte política” é arte que “cura a alma”, que a torna mais “virtuosa”, algo para quem busca a sabedoria. A verdadeira arte política é a arte de ser filósofo. Logo, a sabedoria enriquece a ambos, ao filósofo e ao governante, e ilumina a arte da política e constrói um Estado ideal para os cidadãos.

A partir do diálogo de Górgias, Platão amadurece a ideia da arte política expressa em A Republica em que a verdadeira filosofia é equivalente a verdadeira política. Ao político se tornar filósofo ou vice-versa, constrói o Estado ideal ou a Cidade-verdadeira, a comunidade fundada sobre os valores da justiça e do Bem. O Bem entendido como os valores éticos e políticos necessários para existir a sociedade harmonizada. A primeira preocupação arte política ou de governar é com a justiça. A justiça é eixo no qual giram todas as funções e organizações de um Estado ideal, ou a Cidade perfeita.

O Estado ideal constrói-se porque cada cidadão é autárquico, ou seja, aquele que tem necessidade de ser assistido pelo serviço público e que colabora com os concidadãos. Em A República, Platão descreve dos imprescindíveis serviços do Estado com os cidadãos: primeiro, servir as necessidades materiais como alimentação, vestuário, habitação, educação; segundo, todos os cidadãos são responsáveis pela guarda e defesa da Cidade; em terceiro, é necessário a dedicação de homens que saibam governar adequadamente. Em suma, para Platão, para haver um Estado ou uma Cidade, são necessários três classes sociais e três serviços: dos lavradores, artesãos e comerciantes; dos guardas; e dos governantes.

A primeira classe é constituída de homens nos quais prevalece o aspecto “concupiscível” da alma, que é o aspecto mais elementar. Essa classe é boa se cultivar a virtude da “temperança” que consiste numa espécie de ordem, capacidade e disciplina dos prazeres e desejos, submetendo-se a serviço das classes superiores. Estes não podem ter muita riqueza e nem pouca demais, a necessária para terem condições de prestarem serviços. A segunda classe, dos guardas, é constituída de homens nos quais prevalece a forma “irascível” da alma e a virtude é da “fortaleza” ou da “coragem”. Estes devem permanecer vigilantes no interior da Cidade e deverão providenciar as tarefas confiadas e que corresponda aos cidadãos. A terceira classe, dos governantes, estes deverão amar a Cidade mais do que os outros, que tenham capacidade de compreender o Bem. A virtude específica dos governantes é da “sabedoria”. A Cidade perfeita é aquela que predomina as virtudes e os serviços das três classes: da temperança, da fortaleza e da sabedoria. A prática da justiça harmoniza as virtudes e as três classes.

Com essas virtudes Platão descreve ser possível uma Cidade ou Estado ideal que é governado pela da alma humana, portanto, da sabedoria. Pelas faculdades da alma, como a razão, as pessoas podem superar os desejos e aquilo que inflama a natureza humana, como das paixões que são opostas a sabedoria. Pela sabedoria é possível ser um bom governante, aquele que pratica a justiça com todas as classes sociais. Cabe ao governante a inflamar a Cidade pelas suas virtudes ao ponto de ligar a todas as classes pela justiça, o Bem maior. Para Platão, a educação prevista aos governantes assemelha-se a do filósofo a ponto de tornar-se um verdadeiro político, portanto, sábio.

Quando um governante recorre a outras forças para governar que não seja a sabedoria, como religião e a grupos de fundamentalismo religioso, mostra a desqualificação para o governo. Normalmente, na falta da sabedoria, o governante apresentar-se como o homem religioso e de íntegra moral, acabando por desqualificar a função pública e de distorcer a prática da religião e do Estado laico. Segundo Platão, estes governantes nunca contemplaram o sentido do Bem, da Justiça e a arte da política, desvirtuarão as funções públicas e as privadas, pela falta da sabedoria.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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