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A neurose política e os amigos desvelados

Miguel Debiasi

 

Para o criador da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), a explicação da neurose estaria ligada à fase da infância. Contudo, a doença manifesta-se no decorrer de toda a vida, gerando um tormento psíquico. Por conseguinte, a neurose psíquica provoca distúrbios e transtornos em todas as dimensões humanas, como na política.

O termo neurose, do grego neuron (nervo) e osis (condição doente ou anormal) foi criado pelo médico escocês William Cullen em 1787 para indicar “desordens de sentidos e movimento” causadas por “efeitos gerais do sistema nervoso”. Para a psicologia moderna a psiconeurose ou distúrbio neurótico, refere-se a qualquer transtorno mental que, embora cause tensão, não interfere com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da pessoa. Esta seria uma importante diferença em relação à psicose, sinônimo de desordem mais severa. Em suma, a neurose é um quadro psiquiátrico que manifesta dificuldade de adaptação à sociedade por parte do indivíduo.

Os transtornos da personalidade e do comportamento perpassam todas as atividades e ocupações dos seres humanos. Com efeito, a política e a gestão pública sofrem estes transtornos e distúrbios. Basta a troca de governo que afloram as dificuldades de adaptação dos eleitos para o ônus de prestação de serviços públicos. Por conseguinte, qualquer dificuldade que se apresente ao ofício as acusações aos antecessores são uma constante e de uma crueldade perversa. Tampouco, no decorrer dos novos governos, o nervosismo e as tensões públicas parecem nunca diminuir de intensidade.

Então, existem as neuroses políticas singulares de cada governo. Entre elas, uma é com relação ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), empresa pública federal, com sede e foro em Brasília, Distrito Federal. A função do BNDES é o financiamento de longo prazo e investimento em todos os segmentos da economia brasileira. O presidente Jair Bolsonaro disse que era preciso abrir a “caixa preta” do BNDES, induzindo a opinião pública a achar que o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) usou recursos públicos para financiar obras em Cuba, Venezuela, África, Bolívia. Tal é a ficção de Bolsonaro que o presidente do BNDES, Joaquim Levy, pediu demissão do cargo. Sem Levy no comando, Bolsonaro aumentou sua obsessão pela abertura da tal “caixa presta” do BNDES, até afirmando que o ex-presidente estaria protegendo o governo de Lula e Dilma.

A obsessão de Bolsonaro ganhou distúrbios maiores com apoio da mídia nacional na perspectiva que teve algum desvio de finalidade no BNDES para acusar o governo do Partido dos Trabalhadores. Para comprovar a suspeita o novo presidente do BNDES deveria ser homem de confiança de Jair Bolsonaro, ligado ao Ministério da Economia e aceito pela mídia nacional. O servidor público escolhido deveria preencher estes requisitos, para agrado da economia neoliberal e os interesses econômicos dos EUA e do presidente Donald Trump. A escolha recaiu sobre o secretário adjunto de Desestatização e Desinvestimento, Gustavo Montezano.

A escolha transformou-se na possibilidade de criar um fato novo e atacar os governos da esquerda, como é notório e público o interesse do presidente eliminar quem pensa diferente. Finalmente, a tal “caixa preta” foi aberta, mas para a tristeza da mídia e de Jair Bolsonaro nada foi encontrado de empréstimos para Cuba, Venezuela, Bolívia, África. Pior, os beneficiados foram as multinacionais dos EUA e os amigos do presidente da república. Na lista dos amigos beneficiados o governador do estado de São Paulo João Doria, o proprietário da rede de lojas Havan Luciano Hang, o apresentador da Rede Globo Luciano Huck e políticos ligados ao partido do presidente, PSL.

Lamentavelmente, os empréstimos junto ao BNDES não foram para incentivar desenvolvimento público, mas para adquirir jatinhos particulares para personalidades poderosas e ricas, como Luciano Hang, Luciano Huck, João Doria. A imprensa nacional silencia sobre o assunto por uma razão, não há sequer um petista favorecido e nenhum país que se opõe à economia neoliberal e ao fascismo político. Infelizmente, os recursos financeiros do Brasil estão a serviço de casta mais poderosa.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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