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A favor, mas na realidade contra

Miguel Debiasi

Embora a diversidade de opiniões seja um motor para o amadurecimento coletivo e o exercício de virtudes sociais, ela é também o principal estopim de polêmicas e conflitos interpessoais. O respeito ao próximo, ensinado no núcleo familiar e cristão, transforma-se em um desafio complexo na vida adulta, onde a dificuldade em lidar com o contraditório frequentemente degenera em estresse e na ruptura de laços sociais.

Em nossos dias, a fragmentação social atinge níveis críticos, transformando o ambiente virtual em um campo de batalha ideológico. As redes sociais, movidas por algoritmos de engajamento, confinam usuários em bolhas de filtro homogêneas, onde a exposição ao contraditório é substituída pela validação mútua. Esse isolamento cognitivo inviabiliza o diálogo plural, convertendo debates em polarização radical e cimentando posicionamentos políticos e religiosos, em detrimento da elevação do debate público, imprescindível para a evolução da humanidade.

Os termos ‘favor’ e ‘contra’ revelam um princípio fundamental para a vida coletiva. ‘Favor’, derivado do latim – oris, significa boa vontade, aceitação, amabilidade ou benefício, referindo-se ao suporte e à benevolência para com o outro. Já ‘contra’, com a mesma raiz latina, denota oposição, resistência ou direção oposta a uma ideia ou ação.

Para os filósofos gregos, como na tradição sofista e aristotélica, o embate entre ‘a favor’ e ‘contra’ transcendia a mera disputa por vitória ou derrota; não era visto apenas como vitória ou derrota, mas como o núcleo funcional da retórica e da política na democracia. Esse confronto de teses contrárias era entendido como o método mais eficaz para analisar a complexidade dos assuntos humanos e chegar à deliberação mais prudente, visando ao bem comum.

Em sua obra Retórica, Aristóteles define essa arte como a capacidade de identificar o que é persuasivo em cada caso. Para ele, a análise dos dois lados - o ‘a favor’ e o ‘contra’ – é essencial para razões práticas: primeiro, favorece a verdade e a justiça, permitindo que estas prevaleçam sobre seus contrários. Segundo, proporciona uma compreensão integral do tema, essencial para decisões justas e para o reconhecimento das falhas dos próprios argumentos. Sob uma perspectiva ética e social, o debate argumentativo fortalece a justiça, garantindo que a melhor posição, voltada ao bem comum, triunfe na assembleia ou no tribunal.

Nos textos bíblicos, o ‘a favor’ e o ‘contra’ não se apresentam como forças opostas de igual poder, mas sim sob a ótica da soberania de Deus e da responsabilidade humana. A perspectiva bíblica sugere que, apesar dos conflitos e da oposição, o plano de Deus prevalece, posicionando o livre-arbítrio humano não como um concorrente, mas como um elemento que responde à soberania de Deus.

O texto bíblico afirma que “muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor” (Provérbios 19,21). O livro de Gênesis ilustra essa verdade, ao mostrar que, mesmo quando agem contra a vontade divina, as intenções humanas são subvertidas por Deus para cumprir Seus propósitos, como no caso de José no Egito (Gênesis 50,20). A soberania de Deus, portanto, não significa que Ele causa o mal, mas que o permite para fins maiores, vencendo-o com o bem (Romanos 12,21).

Embora o discurso político de que a família é a base de uma sociedade justa seja onipresente, ele se revela hipócrita no momento em que o Estado precisa estender a mão aos mais vulneráveis. A defesa da família cai por terra, substituída por argumentos irracionais, excludentes e preconceituosos. Para muitos, ‘defender a família’ significa apenas perpetuar privilégios históricos e políticas dominantes que há séculos condenam a maioria à marginalidade.

É hipócrita o discurso de políticos oriundos de elites privilegiadas que, ao mesmo tempo em que bradam a ‘defesa da família’ como valor supremo, atuam para desmantelar o Estado de Bem-Estar Social. Na prática, votam contra recursos essenciais para a sobrevivência de milhões de famílias, sabotando programas vitais como: o Programa Bolsa Família, o Programa Gás do Povo, o Programa Pé-de-Meia, o Minha Casa, Minha Vida, o SUS e outros. Essa postura revela que a ‘família’ defendida por eles não é a brasileira vulnerável, mas sim a manutenção de seus próprios privilégios históricos à custa da pobreza extrema.

Para que o Brasil avance, é imperativo desmascarar essa falsa dicotomia que protege a elite enquanto sabota a dignidade da maioria. A verdadeira defesa do coletivo não reside em discursos excludentes, mas no fortalecimento de um Estado que garanta oportunidades reais e justiça social, superando a postura parasitária daqueles que, em nome de valores abstratos, condenam milhões à marginalidade.

A verdadeira defesa da família, como núcleo fundamental da sociedade, exige a garantia de condições dignas para todas as suas formas de existência, o que torna paradoxal o comportamento de muitos agentes políticos que, em nome de “valores familiares” atuam contra o bem-estar de inúmeros lares. É um contrassenso defender a família abstrata enquanto se apoiam políticas econômicas que marginalizam a maioria, cortam investimentos em educação e saúde e promovem a concentração de renda, inviabilizando a segurança alimentar e a moradia digna para os mais vulneráveis.

Essa retórica vazia transforma o conceito de família em escudo para a perpetuação de privilégios de poucos, ignorando a justiça social e a proteção dos necessitados como condição para termos uma sociedade estruturada e saudável. Desmascarar essa manipulação de valores é essencial para a evolução de uma sociedade democrática.

Embora a convivência com perspectivas divergentes seja fundamental para um ambiente democrático e saudável, o debate político exige, como apontavam os gregos, uma credibilidade ética voltada para o bem comum. A livre discussão é, de fato, um motor de progresso, mas a diversidade de ideias encontra limites quando o discurso se converte em negação do outro ou em manipulação de valores para perpetuar privilégios e a dominação que atravessa séculos no país.

A ética no debate público pressupõe que a defesa da família seja indissociável da justiça social. No fim, muitos, em nosso contexto, revelam-se inimigos da própria instituição que finge defendê-la. Infelizmente, essa realidade precisa ser combatida.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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