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Pesquisador da UCS realiza defesa de dissertação de mestrado em português e em língua indígena

por Luan Varela

Franco Junior Marval Javier, nascido na Venezuela, pertence à etnia Taurepang

Foto: Bruno Zulian/Divulgação

Em um movimento que coloca os povos indígenas como protagonistas da produção de conhecimento sobre si mesmos, o Programa de Pós-Graduação em Letras e Cultura (PPGLet) da Universidade de Caxias do Sul realizou nesta quarta-feira, dia 17 de junho, a primeira defesa de dissertação de mestrado bilíngue do PPGLet. O venezuelano Franco Junior Marval Javier, 38 anos, originário da etnia Pemon Taurepang, apresentou a pesquisa “A Cosmovisão das Histórias de Origem na Literatura Indígena Pemon-Taurepang”. A defesa foi realizada em português e na língua taurepang, e o trabalho recebeu nota dez.

Morador de Caxias do Sul desde janeiro de 2024, Franco teve sua apresentação acompanhada por quatro pessoas originárias da mesma etnia que também residem na cidade. Estima-se que cerca de 50 mil pessoas façam parte do povo Pemon Taurepang na Venezuela. Além disso, a etnia também está presente na Guiana e no norte do Brasil.

Franco graduou-se em Educação Intercultural Bilíngue na Venezuela. Para a realização da pesquisa de mestrado, fundamentou-se em quatro livros escritos por autores da etnia e no idioma nativo, e alguns textos em espanhol. As obras foram publicadas na Venezuela nos últimos anos. Sobre aspectos fundamentais da pesquisa, Franco reforça a importância de respeitar algumas características inerentes ao povo. “Não falo em nacionalidade. Esse é um conceito de filosofia ocidental. Não dá para se referir ao taurepang venezuelano ou brasileiro, ele é um taurepang que mora no território chamado Venezuela”, explica.

Cada livro pesquisado possui uma quantidade distinta de autores. O que conta com o maior número de colaboradores foi escrito por 42 escritores. Por possuir um “lugar de fala”, uma vez que é integrante da etnia, Franco explica que isso facilitou a produção acadêmica. Porém, o desafio se concentrou em escrever de forma que a compreensão fosse facilitada por pessoas que não possuem proximidade com a vivência indígena.

Os relatos apresentados nos livros retratam a vivência taurepang, que mescla a religiosidade com o cotidiano. “Se eu vou entrar em uma floresta, nos primeiros cinco minutos eu preciso fazer silêncio para pedir licença”, exemplifica.

Para o bom desenvolvimento da dissertação, foi fundamental a contribuição da professora orientadora Cristine Fortes Lia. A docente foi a responsável por fornecer um embasamento teórico para que o trabalho não fosse influenciado por obras de escritores brancos. “A categorização literária, ou seja, se os livros analisados são fábulas, contos ou produções de outros gêneros, isso é uma premissa muito ocidental. Ao tratar de literatura indígena, essas categorias não existem”, explica Cristine.

Por falar sobre aspectos da própria vivência do pesquisador, a orientadora deixou clara a importância de esclarecer todos os detalhes do contexto. Para a docente, a pesquisa apresenta muita originalidade e, por isso, podem ocorrer dificuldades de compreensão. “A academia precisa se abrir para as novas pesquisas, e esse trabalho desenvolvido pelo Franco é marcado por isso”, conclui.

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