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Sempre se fez assim!

Vanildo Luis Zugno

 

Vivemos na sociedade da inovação. Todos aspiram ao novo. E, quanto mais novo, melhor! Aquilo que aconteceu ontem, já é passado, velho demais. O que foi feito ontem, já está ultrapassado, não serve mais. As novidades acontecem em um ritmo cada vez mais frenético. A aceleração do tempo parece não ter limites a tal ponto que, aquilo que ainda não aconteceu ou ainda não saiu de fábrica, já está fora de moda. O futuro é uma miragem cada vez mais distante que, parece, nunca alcançaremos.

Nesse contexto, a frase algumas vezes pronunciada de que “sempre se fez assim”, pode, por um lado, incomodar por expressar um não reconhecimento dos tempos em que estamos vivendo e, por outro, pode também ser um sinal de resistência à cultura da obsolescência antecipada. De um lado estão os “novidadeiros”. De outro, os tradicionalistas. De um lado os que querem fazer sempre o novo. Do outro, os que querem fazer o que sempre já se fez, pois na repetição do passado encontram a segurança em tempos de mudanças aceleradas ao infinito.

Quem tem razão nesta disputa? Atrevo-me a dizer que nenhum dos dois lados. De fato, ambos colocam o acento no “fazer”. É uma atitude típica da cultura moderna do “homo faber” que avalia o ser humano por aquilo que ele faz. Os que fazem coisas do passado, são ditos cavernários. Os que fazem as coisas do futuro, visionários. Mas o que nos permite distinguir entre o que é típico do homem das cavernas e o que é típico do homem das estrelas?

Costumo dizer, em tom de ironia, que não há nada mais pós-moderno do que a Idade Média!... Sei que com isso não faço justiça nem a Baumann e muito menos a Tomás de Aquino. Os dois se revolveriam nos túmulos se ouvissem estas minhas palavras... Mas o fato é que, alguns comportamentos humanos apontados como típicos do período medieval, estão renascendo nestes tempos da ultramodernidade. Por exemplo, a compreensão religiosa do mundo, seja através das religiões ou de outras expressões culturais que se organizam com a lógica religiosa. A política, por exemplo vive de mitos fundadores, de santos, liturgias e dogmas. E a economia também. É só observar o discurso que se faz sobre os “humores do mercado” e veremos que ele é tratado como um Deus. E mais: os massacres na Síria, na Líbia, no Afeganistão, no Iêmen..., não podem ser comparados com as cruzadas medievais? Como dizia o poeta, “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.”

Qual a alternativa a essa mentalidade baseada no fazer que tanto pode nos enclausurar no passado fossilizado como nos enlouquecer por um futuro de miragens enganadoras? Não pretendo ter a solução, mas uma alternativa pode ser a de passar do “homo faber” ao “homo audiens”. Deixemo-nos de preocupar com o fazer e passemos a escutar. Passar do ativo que se pretende dono do mundo ao auscultante que procura entender o sentido daquilo que está ao seu redor.

Diante de Jesus que chega a sua casa, Marta e Maria têm duas atitudes diferentes. Marta parte imediatamente para fazer aquilo que sempre fazia quando o Mestre chegava a sua casa. Maria senta-se aos pés de Jesus para escutar o que Jesus pede dela. E se Jesus não precisasse daquilo que Maria estava sempre acostumada a oferecer-lhe? Seu trabalho, mesmo sendo feito com perfeição, teria sido inútil. Antes de fazer algo, é melhor escutar, estar atento ao que está ao nosso redor e discernir o que o momento presente pede de nós. Se não somos capazes de ouvir os rumores do presente, podemos nos perder num passado que já não existe ou num futuro que ainda não é e, até pode ser, nunca será.

Menos ação e mais contemplação. Menos certezas e mais escuta. Menos preocupação e mais auscultação. E nossa ação não será sem sentido e nem inútil!

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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