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Reinvenção do agir católico

Miguel Debiasi

Ouvimos muitas sentenças do tipo: a vida é uma renovação, às vezes é necessário morrer, fechar ciclos, para que possa renascer e tudo possa ser novo. Esta sentença é difícil de contrapô-la. O constante movimento de mudança é uma forma de manter-nos vivos e abertos para o que está por vir, o novo.

A história da civilização ensina que é impossível progredir sem mudanças. O filósofo grego Heráclito de Éfeso (500 - 450 a.C.), considerado pai da dialética, escreve que “tudo flui”, referindo a ideia de um mundo em movimento perpétuo. Argumentava em oposição ao paradigma de Parmênides de Eléia (530 a.c. - 460 a.C.) que defendia que o fogo seria o elemento do qual deriva tudo o que nos circunda.

Heráclito parte do princípio de que tudo é movimento e que nada pode permanecer parado, estático – “tudo flui” – “tudo se move”. Essa ideia vai muito além de um pressuposto teórico. O devir ou a mudança que acontece em todas as coisas é uma alternância entre contrários, do tipo: coisas quentes esfriam, coisas frias esquentam; coisas úmidas secam, coisas secas umedecem.

Heráclito considera que há uma harmonia, os opostos coincidem na mesma forma que o princípio e fim, em um círculo, algo semelhante a descida e a subida em um caminho, pois o mesmo caminho é de descida e de subida; o quente é o mesmo que o frio, pois o frio é o quente quando muda, são versões diferentes da mesma coisa.

O filósofo explica o movimento das coisas usando de metáforas como: não se pode entrar duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, este se dispersa e se recolhe, vem e vai.

Todas as instituições humanas podem entrar num processo de não corresponderem à realidade e ao momento histórico. As instituições que surgiram da necessidade humana e num determinado contexto depois de uma fase de criatividade e de expansão vêm uma fase de estabilização e de defesa de identidade. Constatando realidade decadente a instituição pode reagir para reafirmar sua identidade e sua função temporal.

A Igreja católica não está imune desta sucessão de fases. Como nenhuma instituição a Igreja soube alcançar as mais diversas sociedades do mundo. Com organização institucional desenvolveu sua expansão que atravessou séculos e chegou às diferentes culturas. Hoje, por força da Igreja católica o cristianismo é a maior religião do mundo, com cerca de 2,4 bilhões de adeptos em 2019, seguida do islamismo com 1,9 bilhões e do hinduísmo com 1,15 bilhões.

Segundo o anuário pontifício ou do Vaticano, em 2023, havia 1.375.852.000 católicos no mundo. Este número representa um aumento de 16,2 milhões em relação a 2022. A Igreja Católica, também denominada Igreja Católica Romana ou Igreja Católica Apostólica Romana, é a maior igreja cristã do mundo.

O anuário pontifício divulgado em 05 de abril de 2024 aponta que o número de católicos no mundo vem aumentando e quem mais contribuiu para esse crescimento foram os continentes da África, Ásia e Oceania. Já nos continentes da Europa e América há sinais de retrocesso, como da diminuição das vocações sacerdotais, os religiosos de vida consagrada, os professores sacerdotes e religiosas professoras.

A colonização da América do Sul que começou em 1492 quando Cristóvão Colombo chegou às ilhas de Caraíbas, deu-se a fase de expansão europeia na América. Em 1494, o Tratado de Tordesilhas, acordo entre Portugal e Espanha dividiu o mundo em duas áreas de exploração, uma portuguesa e outra espanhola. Em 1500, os portugueses chegaram à costa do Brasil. Em 1534, os portugueses começaram a colonizar o Brasil, dividindo o território em capitanias hereditárias. Em 1555, os franceses fundaram a colônia de França Antártica na Baía do Rio de Janeiro, como processo de colonização.

A colonização foi marcada por extermínio, escravidão e eliminação de povos originários e práticas culturais indígenas. Os conflitos, as doenças e a escravização fizeram com que milhões de indígenas que habitavam o Caribe ou da América Caribenha, no final do século XV, passassem a poucos milhares, em meados do século XVI. O Brasil se tornou independente em 7 de setembro de 1822, através de Dom Pedro de Alcântara de Bragança, Príncipe Regente do Brasil.     

Nesta fase de expansão colonial europeia a Igreja católica passou por muitas alternâncias. Ora atrelada a Coroa ou Império e alguns séculos depois, aconteceu grande alternância da Igreja promovida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), a fase da necessidade de afirmação de sua identidade de Povo de Deus. O Concílio proporcionou a mudança eclesial com resgate dos leigos como protagonista da evangelização, revisão da doutrina e das regras canônicas, reforma da liturgia, da catequese e a renovação nos métodos e da linguagem.

Decorrido sessenta anos do Concílio, a Igreja católica entra na fase da consolidação de sua identidade institucional, mostrando que suas alternativas são limitadas e a criatividade pastoral insuficiente. A Igreja no Brasil e na América Latina hoje é incapaz de responder ao movimento pentecostal, de superar problemas históricos como da falta de aproximação com o movimento indigenista, feminista, favelados, diversidade sexual, de gênero, do renascimento da cultura negra e do Hip Hop e outros.

Por outro lado, a Igreja católica como instituição solidamente estabelecida já mostrou historicamente que é sensível a todos aspectos culturais e aos novos sinais dos tempos; que é perseverante em sua inculturação em ambientes urbanos e rurais; que inventa métodos para anunciar o Evangelho a todas sociedades; que sabe como nenhuma instituição enfrentar as crises e os seus desafios.

A celebração dos sessenta anos do Concílio Vaticano acontece em um novo contexto e momento histórico, do qual surgem novos movimentos políticos, sociais, de gênero e de mudanças socioculturais. Para responder aos novos sinais dos tempos, a Igreja católica sob a sabedoria do Papa Francisco busca reinventar-se para superar seus próprios arcaísmos.

O Papa Francisco tem ensinado e pregado que será preciso contar com a maior força capaz de rejuvenescer a Igreja Católica como instituição e comunidade viva, a do Evangelho e do Espírito Santo. Vendo o número de católicos aumentando pelo mundo, acredita-se que o Evangelho e Espírito Santo podem renovar toda face da Terra, (Salmo 104,30; João 14,15-27) e reinventar e renovar o agir da Igreja Católica.  

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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