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Pé de galinha e osso para o povo

Miguel Debiasi

“Para se poder falar de autêntico progresso, será preciso verificar que se produza melhoria global na qualidade de vida”, escreve o Papa Francisco na encíclica Laudato Si (n. 147). A qualidade de vida das pessoas é o termômetro para mensurar o autêntico ou não progresso. Os incrédulos com o sistema capitalista sabem que não há outra saída senão redistribuir rendas para uma melhoria da humanidade. Ainda que isto seja uma utopia, é possível de realização, por meio de projetos econômicos voltados para o bem de todos os humanos.

 

É admirável o progresso que produz crescimento humano, equilíbrio ecológico, oferece bens de consumo a todos, inova em serviços e tecnologias, avança em pesquisas científicas, implementa políticas públicas, planejamentos, previsões catastróficas, urbanização e de outras iniciativas de bem comum. Muito louvável é o progresso que busca automatismos reduzindo custos, integra seres humanos e meio ambiente, preserva de forma sustentável a matéria-prima e respeita as capacidades regenerativas de cada ecossistema. Enfim, do bom progresso em cultura, consciência, ética, justiça, solidariedade. Obviamente, todos aplaudem o bom progresso que eleva a melhoria da qualidade de vida da humanidade.

 

O Papa Francisco na encíclica Laudato Si, propõe que se analise todo progresso a partir dos espaços onde as pessoas transcorrem a sua existência. A partir dos ambientes de onde as pessoas influenciam a maneira de ver a vida, sentir a existência humana e agir como parte integrante do mundo. Ou seja, fazer uma análise dos ambientes que as pessoas usam para viver e para exprimir a sua identidade, como os espaços residenciais, de vizinhanças e os públicos. Em suma, ter uma visão local e ampla da vida e da existência humana para que o progresso chegue a casa e a todas as famílias. Em sua análise, o Papa propõe derrubar os muros dos nacionalismos e as barreiras dos egoísmos nacionais, privados para a melhoria da qualidade de vida da humanidade. 

O Papa Paulo VI (1963-1978) escreveu que o logro atinge os ideólogos do progresso. O logro aqui é entendido como mero crescimento material, técnico, econômico e militar. Os ideólogos do progresso ignoraram que o verdadeiro progresso da humanidade consiste no desenvolvimento que corresponde à natureza ética e espiritual dos humanos. Na encíclica Pacem in Terris, escreveu: “os homens se jactaram com o termo progresso. Mas, ninguém tinha realmente, ou inteligentemente, o cuidado do progresso humano”. Paulo VI alerta que os ideólogos esqueceram de pensar no progresso equilibrado e total e que foram incapazes de rever os homens concretos, suas vidas, suas famílias, suas necessidades materiais e espirituais. Denuncia que o progresso pensado para minoria é mortal e se esquece dos princípios religioso e ético de todas as coisas, Aquele que tudo fez em benefício de todos os humanos (Apocalipse 22,13).

 

O autêntico progresso para a Igreja percorre o caminho do agir ético que confere algo de inestimável: a paz mundial com seu desenvolvimento humano global. O autêntico progresso é uma espécie de conquista global, avanço que sacia a vida humana em suas necessidades vitais, espirituais e éticas. No Brasil o autêntico progresso está longe de acontecer e chegar em todas as casas de famílias, como comunica um cartaz exposto na vitrine de um supermercado: “promoção de pé de galinha e osso só hoje: R$ 7,89 o quilo”. Hoje, o povo só pode comer pé de galinha e osso, porque nestes últimos cincos anos o governo federal governou para seus interesses. Foi incapaz de pensar um projeto econômico sustentável para o desenvolvimento do país com distribuição de renda, geração de postos de trabalhos. Foi incapaz de pensar uma proposta de progresso nacional onde todos poderiam ter acesso a universidade, emprego, comida, energia, combustível, cultura, lazer, serviços públicos de qualidade. Assim, milhares de empresas fecham anualmente e o desemprego atinge o maior patamar da história do país, 14,7%.

Como senão bastasse a falta de projeto econômico e proposta de desenvolvimento, os investimentos públicos e privados em infraestrutura, serviços diversos, pesquisas, tecnologias, empregos e outros setores, nestes cincos anos foram os mais baixos das últimas duas décadas. Enquanto isso o ministro da economia, Paulo Guedes fica em média anual R$ 14 milhões mais rico, pelos investimentos pessoais em paraísos fiscais. Este é o Brasil do caminho certo e do “Deus acima de tudo”, ao menos para os ricos e bilionários. Obviamente, seria uma benção se este Brasil terminar meio logo, sobretudo, para os pobres, desempregados, famintos, desassistidos e outros poderem sonhar com comida, saúde, trabalho, educação, dignidade humana ...   

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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