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Dormindo mais aliviados

Miguel Debiasi

A palavra “fome” deriva diretamente do termo latino fames, famis, que significa “fome” ou “necessidade de comer” para a sobrevivência. No século XXI, o Brasil saiu duas vezes do Mapa Mundial da Fome da ONU. A primeira aconteceu em 2014 e a segunda em 2025, após ter retornado à lista em 2021 devido à deterioração das políticas sociais.

A antropologia vê a fome não apenas como falta de comida, mas como um fenômeno social complexo que reflete desigualdades de poder, acesso a recursos e sistemas alimentares. A fome é um reflexo de estruturas sociais, relações de poder e desigualdades que impedem que todos tenham acesso a alimentos, precisando de ações políticas e sociais eficazes em níveis locais, nacionais e globais para ser erradicada.

A sociologia compreende a fome como um fenômeno social complexo, resultante de desigualdades econômicas e sociais, políticas públicas inadequadas e desastres naturais, que se manifestam de forma diferente no Brasil e no mundo. No Brasil, historicamente o problema da fome se aprofunda pela concentração de renda e terras, com raízes históricas na escravidão, e ficou acentuado pela concentração econômica e esvaziamento de políticas de segurança alimentar.

Na avaliação dos sociólogos a reforma trabalhista (2017) e reforma previdenciária (2019) impactaram a renda e o emprego, piorando a crise alimentar da população brasileira. No Brasil, faz-se necessário a implementação de políticas de emprego, renda e transferência social, bem como a recuperação e fortalecimento de programas como o Plano de Aquisição de Alimentos (PAA) para combater a fome.

O ensinamento de Jesus “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mateus 14,16) é um convite à partilha de recursos e ao cuidado com aqueles que precisam de ajuda para a sobrevivência. O milagre da multiplicação dos pães e peixes é um acontecimento simbólico da partilha, onde Jesus não só distribuiu alimentos, mas também inspirou os discípulos e a multidão a partilhar o que tinham para saciar a fome da multidão. A ação de recolher as sobras após a refeição é um ensino para evitar o desperdício de alimentos, um ato de respeito pela criação divina e pelos seus recursos (Mateus 14,13-21; Marcos 6,30-44; Lucas 9,12-17; João 6,1-15).

A tradição cristã inclui dar de comer aos famintos como um dos principais atos de misericórdia e justiça social. A partilha com quem tem fome é um ato de fé que reconhece Cristo presente nos mais necessitados, pois Jesus mesmo disse: “Todas as vezes que fizeste isso a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).

No catecismo cristão e na Doutrina Social da Igreja, a partilha do pão é compreendida como uma forma de criar elo de fraternidade e comunhão entre as pessoas, superando o egoísmo e a ganância. É um compromisso com a justiça social, exigindo que os bens da criação sejam partilhados de forma a garantir uma vida digna para todos.

O Brasil está oficialmente fora do Mapa da Fome das Nações Unidas (ONU). Notícia divulgada no dia 28 de julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), através do Relatório O Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025), que se baseia em médias trienais – neste caso, de 2022 a 2024. Segundo a FAO, o Brasil reduziu para menos de 2,5% o percentual de sua população em risco de subnutrição.

No relatório da FAO, em 2022, o Brasil enfrentava um cenário crítico de insegurança alimentar, ainda assim, em apenas dois anos o país conseguiu reverter esse quadro. Fato devido a uma combinação de políticas sociais, incentivo ao trabalho, valorização da agricultura familiar e implementação de programas sociais eficazes.   

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2022 e 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros saíram da insegurança alimentar grave. Em paralelo, a pobreza extrema foi reduzida a 4,4% em 2023, o menor índice da história do país, tirando quase 10 milhões de pessoas dessa condição desde 2021.

Na análise dos economistas, o bom desempenho econômico do país também contribuiu para a retirada o país do Mapa Mundial da Fome. Em 2024, o Brasil alcançou a menor taxa de desemprego desde 2012 (6,6%) e bateu recordes de renda domiciliar per capita, que chegou a R$ 2.020. A desigualdade também recuou: o índice de Gini caiu para 0,506, em 2024, uma queda de 2,3%, impulsionada pelo crescimento de 10,7% na renda do trabalho dos 10% mais pobres.

Para o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias: “Essa vitória é fruto de políticas públicas eficazes, como o Plano Brasil sem Fome, que engloba o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Cozinha Solidária, a valorização do salário mínimo, o crédito para a agricultura familiar, o incentivo à qualificação profissional, ao emprego e ao empreendedorismo, além do fortalecimento da alimentação escolar”.

Ainda é preciso ressaltar que durante sua presidência no G20 em 2024, o Brasil propôs a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Hoje, mais de 100 países, além das fundações, organizações e instituições financeiras internacionais assumiram a Aliança Global. A meta da Aliança é contribuir para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, especialmente na erradicação da fome e da pobreza.

A saída do Mapa Mundial da Fome é uma grande conquista do país. Ainda que seja pouco diante do desafio da superação da grande desigualdade econômica e social, as autoridades públicas, bem como os cristãos, podem dormir com a consciência e o coração aliviados.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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