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Depois do Carnaval

Vanildo Luis Zugno

 

Carnaval é festa. É transgressão. É subversão da ordem. É tempo de alegria e de ilusão. É ser por alguns dias aquilo que não se é e, nessa doce sensação, extravasar os desejos reprimidos pelas convenções e normas sociais.

Por isso, o símbolo maior do carnaval é a fantasia. Ela mostra a cara daquilo que não somos mas gostaríamos de ser. As fantasias, por mais exóticas que pareçam, revelam as mazelas e os desejos populares. Como filosofava Joãozinho Trinta, numa sociedade de pobres, a fantasia mais desejada é a que ostenta riqueza. Na mesma direção, podemos dizer que, numa sociedade de corpos reprimidos, a nudez dissimulada é a vitória, mesmo que momentânea, da autenticidade de ser homem e mulher em todas as formas e gêneros. Numa sociedade de repressão, o palavrão, a bebedeira, a transgressão, permitem viver a liberdade negada no dia a dia.

Quando o carnaval, livre das amarras do poder, traduz com músicas, danças, cores e amores os anseios populares, ele deixa de ser fantasia e se transforma em utopia. Que o diga o samba enredo da Estação Primeira da Mangueira: “Favela, pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão. Favela, pega a visão, eu faço fé na minha gente que é semente do seu chão”.

Mas o carnaval passou. É hora de voltar ao normal. Hora de voltar ao real. Volta que não implica no esquecimento das fantasias que impulsionaram o sonho. Pelo contrário, elas permanecem como critério para as duras escolhas do dia a dia. Afinal, para a fantasia se tornar realidade, é preciso escolher entre o sonho que alimenta a esperança e o fascínio do passado e do presente que nos dão segurança.

Para iniciar a longa marcha da transformação em direção à utopia, é preciso iniciar com uma opção: a quem vamos servir? Àqueles que sufocam nossos sonhos com o discurso do conformismo ou àquele que nos provoca à aventura dos caminhos nunca dantes percorridos?

É o momento da prova, o momento da tentação. Ele sempre marca o início de um novo projeto. Adão e Eva, no paraíso, foram colocados diante de uma escolha. Eles optaram pela satisfação imediata de um desejo que era real. Mas a satisfação no imediato ocultou o sonho do futuro. A fantasia do paraíso aqui e agora tornou-se sofrimento, dor e peso. Querer o céu na terra, aqui e agora, pode tornar-se o pior dos infernos.

Jesus, no início de sua missão, também passou pela tentação de abandonar o sonho do Reino em troca da acomodação aos poderes que tudo lhe ofereciam. Ele não sucumbiu. Preferiu sonhar com a fantasia divina onde a festa é para todos e não apenas para alguns. Na festa de Jesus, entram, cantam e dançam toda classe de pessoas. Pecadores, prostitutas, estrangeiros, judeus descumpridores da lei, doentes, mulheres, velhos, crianças... E aqueles e aquelas que, por medo ou pudor, não querem com eles e elas se misturar, ficarão fora da festa.

 

Jesus pagou caro por esse seu sonho. A quaresma termina com a cruz e a paixão. Mas ele não deixou de sonhar. Não esqueceu da alegria do encontro com Deus, sem leis e sem repressão. Por isso, o caminho da Quaresma, que segue ao Carnaval, não é apenas tempo de penitência. É tempo de continuar sonhando na ilusão de que a festa da inclusão seja plenificada pela festa da Ressurreição.

 

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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