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A corrida pelo topo mundial

Miguel Debiasi

No Brasil, 44% da população começa a trabalhar antes dos 14 anos de idade. Até 1988 a legislação trabalhista permitia o trabalho a partir dos 12 anos de idade, o qual foi proibido pela atual Constituição Federal. Na Inglaterra, o berço da industrialização, a idade mínima para trabalhar em meio período é de 13 anos e de 16 para trabalhar no período integral. Muitas vezes já ouvimos a frase: “o trabalho não mata ninguém. O que mata é stress”. Uma das causas do stress pode estar associada a modalidade de trabalho.

O processo de industrialização teve início com o desenvolvimento de indústrias na Inglaterra no século XVIII, por volta de 1760 a 1850. A industrialização nasceu da mudança da produção, até então, voltada basicamente para as atividades rurais primárias. Até então a base da economia era a produção de bens manufaturados ou com sistema e técnica de produção artesanal.

A Inglaterra, França e Estados Unidos sempre foram ícones de países industrializados. Rússia, China e Cuba realizaram o processo de industrialização com forte atuação estatal e controle da economia, ou chamada de industrialização planificada. O processo de industrialização do Brasil é tardio, próprio de países tidos como subdesenvolvidos.

Nos países subdesenvolvidos há o domínio da atividade agropecuária atrasando o processo de industrialização. No Brasil, a atuação estatal foi determinante para o desenvolvimento da indústria brasileira. Os primeiros passos para a industrialização ocorreram ainda no período imperial, em meados dos séculos XIX, diretamente ligados às ações do industrial Barão de Mauá (1813-1889).

Os governos Getúlio Vargas (1934-1945; 1951-1954) e Juscelino Kubitschek (1956-1961) foram os que mais investiram na industrialização do país. O período da Ditadura Militar (1964-1985) foi responsável pelo endividamento elevado do Brasil para a construção de infraestruturas variadas. A redemocratização do país marcou a ascensão de governos liberais que deram início a privatização dos setores industriais do Brasil.

Por longos anos o Brasil tem passado por um processo de desindustrialização, devido à perda massiva de emprego e renda da população brasileira. Hoje, o Brasil busca a reindustrialização com forte investimento em parceria dos setores público e privado.

A industrialização do mundo passa por sucessivas Revoluções Industriais. A Primeira Revolução Industrial, tendo a Inglaterra como pioneira, houve a transição do sistema econômico, anteriormente feudalista, para a lógica capitalista, com uso de maquinários, como a máquina vapor, que facilitou para fabricação de bens manufaturados.  

A Segunda Revolução Industrial desenvolveu-se entre o fim do século XIX e metade do século XX. O destaque desse processo são as formas de produção e a modernização das atividades industriais, que se expandiu para os países como da Europa Ocidental e Estados Unidos. Houve o desenvolvimento das indústrias química, elétrica e siderúrgica, usando como fontes de energia o petróleo e a eletricidade que foram os principais símbolos desse período.

A Terceira Revolução Industrial também conhecida como “revolução digital” ocorreu na metade do século XX. Nessa fase, aconteceu um conjunto de inovações como da informática que tornou mais rápidas as relações sociais e econômicas, os meios de produção e consumo, o desenvolvimento da tecnologia de produção e as tecnologias de inovação.

Os impactos da industrialização são positivos e também negativos. Os positivos são: substituição dos métodos manuais por processos mecanizados e em série; padronização e uniformização na produção; desenvolvimento de infraestrutura; oferta de empregos; geração de renda para a população; disponibilidade de maior variedade de produtos; recolhimento de impostos; desenvolvimento tecnológico; inovação de tecnologia de produção; especialização profissional.

Os impactos negativos da industrialização, são: alto impacto e degradação ambiental; desemprego estrutural; precarização do trabalho; êxodo rural; urbanização apressada da sociedade; exclusão social; pobreza sistêmica; concentração de riqueza; consolidação econômica da burguesia; substituição da mã0-de-obra por máquinas.  

Segundo o jornal britânico The Times, a Inglaterra saiu da lista dos dez primeiros países industriais. O Reino Unido deixou pela primeira vez a lista dos dez países líderes industriais, descendo abaixo do México e da Rússia. O Reino Unido ficou na posição de 12º lugar entre as maiores economias industriais, quatro posições abaixo do ano anterior, em 2022. A Rússia subiu várias posições devido ao aumento da produção da indústria de defesa. A China aparece em primeiro lugar na lista, seguida pelos EUA, o Japão se posicionou no terceiro lugar.

A queda da Inglaterra, por conseguinte, do Reino Unido deve-se a crise energética após deixar de importar gás russo devido à operação militar especial na Ucrânia. O país da Inglaterra deixou de comprar petróleo e carvão russos, que tinham preços mais atrativos. Com isso, houve um aumento nos preços de combustíveis e alimentos em toda a Europa. A Inglaterra também enfrenta uma recessão técnica, com um encolhimento do produto interno bruto (PIB) de 0,1% em 2023, com previsão em 2024 avançar apenas para 1,1%.

Um dos avanços do século XX aconteceu no setor trabalho e produção, a automação. Em contrapartida, que provocou maior índice de desemprego, precarização do trabalho, da saúde mental dos trabalhadores e estresses, segundo reportagem do jornal britânico.

Na corrida por uma nova industrialização vale lembrar o pensamento do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), que foi chamado de polímata, pelo seu conhecimento em diversas áreas dos saberes: “o prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”. Um trabalho é melhor executado quando há prazer no processo de produção. Ao fazê-lo de má vontade há a probabilidade de que o resultado seja negativo.

Para que o trabalho de produção dê bom resultado é preciso realizá-lo com prazer e com satisfação, ainda que seja obrigatório sua execução. É possível sentir felicidade no trabalho. Nesta competição pela inovação industrial, que ninguém saia prejudicado, seja os empreendedores, trabalhadores, meio ambiente e os consumidores.

O mais importante não é estar no topo dos países industrializados, mas sim, um modelo industrial altamente sustentável e tecnicamente desenvolvido, que evite as grandes fadigas humanas e ecológicas. Eis um desafio mundial e para o Brasil.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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