O centro caxiense: o que mudou nos últimos 50 anos?
Texto de Morgana Moraes e Sheila Amanda, alunas do Curso de Jornalismo da UCS
O tempo passa rápido demais. A impressão é de que os últimos 50 anos passaram em um piscar de olhos. Caxias do Sul mudou completamente: a vegetação diminuiu, o número de indústrias cresceu bastante, a quantidade de lojas aumentou, bem como o número de prédios ocupando as antigas residências.
Testemunha dessa história, Eleuthério Franzoi, descendente de imigrantes italianos e morador da Rua Moreira César, no centro caxiense, chegou ao município no ano de 1960. Trabalhava na propriedade da família em Vila Maestra, onde cultivavam uvas. Após um tempo, começou a trabalhar como caminhoneiro - profissão que seguiu por 14 anos.
Com o passar rápido dos anos, o avanço da idade e a doença da esposa Maria Franzoi, Eleuthério se viu impossibilitado de ficar longe de casa por um longo período. Aos 86 anos, já aposentado, dedica seus dias a um hobby peculiar: a confecção de veículos e aeromotores em madeira. A variedade é imensa: parte de carrinhos de mão da construção civil até aviões de transporte comerciais. Para manter viva a lembrança, ele também criou réplicas de alguns dos veículos que eram utilizados na propriedade onde vivia na infância.
Questionado acerca de como era o centro caxiense há 50 anos, Eleuthério afirma que não havia quase nada, eram poucas casas na região. No exato local onde hoje mora, existia apenas um sítio que margeava um grande banhado. Raros eram seus vizinhos e as ruas eram estradas de terra que serviam para conectar uma propriedade a outra. Atualmente, a Rua Moreira César compreende casas, prédios, lojas, bancos, postos de gasolina e academias.
No que se refere ao comércio local, conta que era escasso, pois as pessoas costumavam cultivar o que comiam e, quem não tinha como cultivar alguma coisa, comprava, negociava ou fazia trocas. Ele se recorda de quatro lugares na redondeza que comercializavam alimentos, mas que já não existem mais. Na área de vestuário, comenta que as mulheres compravam o tecido e costuravam as roupas para sua família em casa. Explica que havia, sim, algumas lojas, mas que os únicos que conseguiam frequentá-las eram os que possuíam maiores recursos.
Quando indagado sobre os costumes que prevalecem desde aquela época, Eleuthério responde de imediato: “A religião é a principal coisa que veio junto com a minha família. Somos católicos, sempre fomos na Igreja. Aqui no Centro, íamos ali na Igreja do Pio X, vimos uma capelinha de madeira com cerca de arame se transformar naquela igreja “grandona” e bonita que é hoje.” Além disso, o cultivo de uva segue presente - apesar da escala reduzida - representado em uma muda plantada em sua varanda. “Quando a uva nasce fica no ar um cheiro doce muito bom, lembra a infância e a casa onde me criei”, recorda.
Ao ser perguntado sobre a forma como se sentiu enquanto as mudanças iam ocorrendo à sua volta, Eleuthério afirma que não consegue se lembrar como ou quando as coisas começaram a mudar. “Enquanto a gente tá vivendo a gente não fica pensando na casa ou na rua que estavam ali ontem e hoje não estão mais. A gente vai aprendendo a viver com as coisas que mudam. A gente só percebe que alguma coisa realmente mudou depois que a gente para pra pensar nisso e vemos que as coisas que foram construídas estão sendo desmanchadas para outras coisas serem construídas em cima. Percebemos que as ruas não são mais de terra, agora elas são asfaltadas e têm nome. Tem muita loja por aí vendendo de tudo. A cidade mudou e a vizinhança mudou. As coisas não podem ser iguais pra sempre.”
Hoje o centro caxiense é movimentado e totalmente urbanizado, a vegetação foi substituída por prédios e lojas e tudo se tornou de fácil acesso. A vida, comparada com a metade do último século, se tornou mais prática. Não é preciso se deslocar por uma longa distância para fazer compras - e tampouco o som é o mesmo. O silêncio e a calmaria de 50 anos atrás hoje dão espaço a um trânsito intenso e a um movimento constante.
Aceitação! Essa é a palavra que se encaixa perfeitamente no sentimento carregado por Eleuthério. Essa sensação de conformidade é o que se deve compreender diariamente. As mudanças, como mencionou o entrevistado, devem acontecer, não é possível controlá-las ou impedi-las. Caxias do Sul não é mais a mesma de 50 anos atrás e, presumidamente, não será a mesma dentro de 50 anos.
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