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Roque Simas: o orgulho de deixar São Paulo para trabalhar na banca do irmão

Baixar Áudio por Rodrigo Fischer

Este é o segundo de quatro episódios da série “Jornais, revistas e muitos mais: as vidas por trás das bancas de Caxias”, que conta a trajetória dos proprietários dos espaços na cidade.

Foto: Rodrigo Fischer/Divulgação

Dia 24 de julho de 2019. Em Caxias do Sul, a data representa o fechamento de quatro bancas de jornais e revistas que fizeram parte da cultural local. Para Roque Simas, 56 anos, proprietário do espaço próximo a Unidade de Pronto Atendimento 24 horas (UPA Central), marca o desfecho de uma vida construída em 1993, quando deixou o Estado de São Paulo para se aventurar no Sul do Brasil. O destino foi a Serra Gaúcha, na cidade polo da região.

O motivo: a falta de emprego na capital paulista. Nem a experiência pelo comércio adiantou para arrumar um trabalho.  A oportunidade surgiu em março daquele ano, quando seu irmão estava com problemas de saúde e o chamou para trabalhar com ele, em uma banca na rua Marechal Floriano, o mesmo lugar que herdou e atuou por 27 anos. Simas levou sua esposa, Enusia, e seus dois filhos, Gabriela e Marcus Vinicius, para o novo desafio em Caxias do Sul.

“Eu morava em São Paulo e, lá, a situação para serviço estava meio precária. Meu irmão me chamou para trabalhar com ele, porque estava com problema de saúde, como eu estava desempregado em São Paulo, resolvi vir. Falei com minha esposa, e meus filhos não opinavam na época, porque eram tudo pequeno. Aí em março de 1993, embarquei para Caxias para trabalhar com ele.”

Assim como Ivanda Francescatto, Simas nunca tinha cuidado de uma banca e levou tempo para se adaptar a sua nova realidade. Aos poucos pegou o jeito. Conheceu a clientela e entendeu mais sobre o ambiente quando começou a fazer encomendas de revistas e gibis para a freguesia. O trabalho se tornou um meio de aproximação com a comunidade, que gerou uma amizade com quem frequentava assiduamente o local. Simas relata que até hoje tem cliente que liga para saber como ele está.

“Eu nunca tinha trabalhado [com banca]. Com o tempo fui pegando o jeito, conhecendo os clientes, fazendo amizade e encomendas, assim foi indo. Foram 27 anos dessa forma, até hoje tem cliente que me liga para saber como eu estou e o que estou fazendo.”

Trabalho na loja de R$ 1,99

O ano de 2019 mudou a vida de todos os proprietários das bancas de jornal e revistas de Caxias do Sul, que viram seu espaço se transformar em vendas para produtos coloniais. A trajetória de Roque Simas mudou após perder seu local depois de 27 anos, mas o atino para o negócio sempre estava com ele. Trabalhava numa loja de R$ 1,99, em frente de sua então antiga banca, onde tinha um lugarzinho para fazer suas encomendas de gibis, entre outros gêneros. Chegou a ter aproximadamente 20 clientes. Era disso que tirava seus R$ 1000 por mês, o suficiente para ajudar sua esposa a pagar as contas e colocar comida em casa.

“Minha vida despencou, despencou de um jeito que para levantar nem voltando às bancas, pois devo um monte de dinheiro e tiraram meu sustento. Eu continuei com alguns clientes que pediam encomendas, estava numa lojinha de R$ 1,99 só para esse trabalho. Mas elas [encomendas] não sustentavam a minha vida, pois ganhava entre R$ 1.000 e R$ 1.200 para manter a casa, pagar luz, água e comida.”

Ao final de 2019, ele conseguiu uma acomodação na Rodoviária da cidade e improvisou sua banca. O local ficava na frente da plataforma de embarque e tinha três prateleiras para colocar suas revistas à venda a fim de tentar retomar a vida de “jornaleiro”, como gosta de se definir.  O movimento era pequeno em comparação ao seu antigo local. Ficou um mês no espaço até a aprovação do projeto de lei que tornou as bancas patrimônio cultural imaterial da cidade. A sanção da proposta deu de volta o que foi retirado dele. O lugar que deu tudo o que tem na vida.

“A banca me deu tudo que tenho hoje. Uma parte trouxe de São Paulo e a outra ela [banca] me deu, então posso dizer que a banca foi meu maior trabalho. Acho que vai continuar sendo, pelo menos até me aposentar.”

A volta em 06 de janeiro

Atualmente, Roque Simas está ao lugar que trouxe tantas amizades e aprendizados. Desde o dia 06 de janeiro trabalha na banca, mas o movimento ainda é pequeno. A falta de revistas deixa o lugar praticamente vazio, até porque depende de uma empresa de São Paulo para rever o espaço cheio de gente. Vai precisar de tempo para recuperar sua freguesia. O que nunca vai precisar reconquistar é a alegria de ver o negócio seu novamente. Muitos clientes ligaram para conversar sobre o retorno dele a banca.

“É uma alegria voltar a trabalhar e ter minha clientela. Teve muitos que me ligaram e perguntaram quando iria voltar, quando iria reabrir. Eu respondia que teria que verificar o que precisaria fazer, porque andaram mexendo no lugar. Na filmagem da abertura da banca da Ivanda ficou todo mundo feliz por voltar para o que sempre fizeram na vida.”

Simas faz uma retrospectiva da sua vida. O orgulho de ter deixado São Paulo e optado por Caxias do Sul, a felicidade de levantar todo dia cedo para estar na banca e trabalhar com as pessoas foram e são as melhores sensações nesses 27 anos de “jornaleiro”.

“Foi um orgulho ter vindo de São Paulo para Caxias e atuar em uma banca, um tipo de produto que nunca tinha trabalhado. Dá uma sensação gostosa ficar no meio do público, porque o pessoal entra no espaço e conversa contigo. É uma satisfação trabalhar com revista por 27 anos, me sinto bem. Levanto 5h30min e chego 18h em casa, nunca tive problemas com a família e nem com ninguém. Sempre foi uma satisfação muito gostosa de trabalhar.”

Este foi o segundo de quatro episódios da série “Jornais, revistas e muitos mais: as vidas por trás das bancas de Caxias”, que conta a trajetória dos proprietários dos espaços na cidade. A próxima história será de Rogério de Mello, dono do lugar localizado na Praça João Pessoa, na Avenida Júlio de Castilhos.

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