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Quinto domingo da quaresma

por João Carlos Romanini

Subsídios exegéticos para a liturgia dominical - ano A 29/03/2020

Foto: Divulgação

Subsídios exegéticos para a liturgia dominical - ano A 29/03/2020

Quinto domingo da quaresma

Evangelho: jo 11,1-45

Primeira Leitura: Ez 37,12-14

Sl 130,1-2.3-4ab.5-6.7-8 (R.7)

Segunda Leitura: Rm 8,8-11

 

Jo 11,1-45

Curiosamente o sinal mais extraordinário realizado por Jesus é relatado somente por João. Surpreende o silêncio dos sinóticos sobre esse fato estrepitoso. João redige uma página estupenda de cristologia. O evangelista subordina a precisão factual da revivificação de Lázaro ao seu valor simbólico: Jesus se destaca em todo o relato; Lázaro não diz nenhuma palavra.

A estrutura do episódio: ambientação e personagens (v.1-6); encontro com Marta e Maria (v.17-27. 28-37); relato do sinal/milagre (38-44).

O centro conceitual da perícope está focalizado sobre a solene autorrevelação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v.25). Jesus se proclama a ressurreição personificada. O retorno de Lázaro à vida física assume um valor prenhe de significado: preludiava ao evento pascal e à ressurreição dos mortos, pela possessão da vida eterna. Este sinal representa o coroamento das “obras” de Jesus, Senhor da vida e da morte.

v. 3: “aquele que amas está doente”; v.36: “Como ele o amava”. O discípulo amado e Lázaro seriam a mesma pessoa?

v. 11: “Lázaro dorme”. No grego e no hebraico adormecer é um eufemismo para morrer. Mencionando sono, quando na realidade Lázaro está morto, Jo acentua o mal-entendido. Pode-se ver aqui uma sugestão de que Jesus oferece uma nova compreensão a respeito da morte.

Os v. 23-27 constituem o ponto central do relato. Jesus se apresenta como dispensador da vida escatológica comunicada desde agora aos que creem na sua palavra.

Note-se a passagem do futuro “viverá” (v.25) ao presente “vive” (v.26). No v.25 com as palavras “ainda que morra”, Jesus se refere à morte física de Lázaro, enquanto no v.26 fala da morte escatológica. Marta indica entender o verbo anastésetai (v.23) no sentido da escatologia judaica: na morte a pessoa desce ao Xeol, mas ressuscitará no último dia. Jesus ressignifica essa ideia para uma escatologia já realizada: ele mesmo é a ressurreição, anástasis (v.25). Quem nele crê já passou da morte à vida. A morte física é um fato secundário e transitório, o que importa é a vida eterna, que somente Jesus pode comunicar.

A revivificação de Lázaro constitui um sinal do poder de Jesus de doar a verdadeira vida a quantos creem no seu nome, contexto que deve ser relacionado com a realidade do fim dos tempos, quando os mortos escutarão a voz do Filho de Deus (5,25.28).

A ressurreição e a vida eterna são dons eminentemente escatológicos; no entanto são parcialmente antecipados aos que creem em Jesus. Quem está unido a ele através da fé, já participa à vida divina, que lhe consentirá de fugir da morte eterna. A resposta de Marta (v.27) representa uma profissão de fé cristológica.

O diálogo entre Marta e Jesus antes do sinal/milagre oferece a chave para avaliar a importância dos milagres: Marta confessa que Jesus é o Filho de Deus que devia vir ao mundo, antes ainda que Jesus cumpra o milagre. Por isso representa o ideal da pessoa de fé que acredita sem ter visto (1,34 e 20,29). Outros creem somente depois do milagre. A importância do sinal/milagre é confirmada por uma forte tensão literária que se exprime nas atitudes de todos aqueles que fazem parte dela: os sentimentos das duas irmãs, a comoção de Jesus, a admiração dos presentes...

Pode-se comparar, ainda, Jo 11,27 com Mt 16,16-17. Em Mateus, a profissão de fé está na boca de Pedro. Em João, a confissão de fé está na boca de Marta.

v. 28-37 A descrição do encontro de Jesus com Maria, segue em forma reduzida aquele com Marta. O verbo “consternou-se” (enebrimésato, v.33) indica a sua cólera contra os poderes da morte; “perturbado” (etáraxen heautón v.33) exprime a agitação no seu espírito e a profunda comoção diante da tumba de Lázaro. O pranto de Jesus é assinalado por Jo somente aqui e por Lc 19,41 quando chora sobre a cidade de Jerusalém.

v. 38 A tumba de Lázaro consistia numa gruta natural, fechada por uma pedra. Não existiam cemitérios públicos.

V. 41-42 A descrição do sinal é extremamente sóbria. Jo quer concentrar a atenção do leitor/ouvinte sobre seu significado cristológico. Jesus “ergueu os olhos para o alto”, um gesto habitual em Jesus (cf. 17,1; Mc 6,41) para indicar a fonte da onde provinha seu poder taumatúrgico: da comunhão de vida e unidade de ação com o Pai. Ele não o invoca para obter o milagre, mas para agradecê-lo, havendo a certeza de ser atendido: “Pai dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves” (v.41).

v. 43-44 Jesus com um comando solene (gritou) restaurou a vida física a Lázaro, como sinal do seu poder de dar a vida eterna a quem nele crê. O verbo “gritar” kraugázein, que só aparece uma vez em Mt 12,19 e uma vez em Lc 4,41, é usado seis vezes por João. Quatro dessas seis ocorrências descrevem os gritos da multidão que quer crucificar Jesus. Que contraste entre o grito da multidão que pede a morte de Jesus e o grito de Jesus que restitui a vida a Lázaro! É desconcertante a veracidade com a qual é descrita a decomposição do cadáver (v.39) e a saída de Lázaro do sepulcro, envolto em faixas e panos.

A revivificação de Lázaro evidencia a filiação divina de Jesus. A realização deste sinal constitui o ponto de partida dos vários acontecimentos que conduzirão à morte de Jesus (11,45-54), ou seja, sua glorificação na cruz. O relato no evangelho de João manifesta que a todos os que creem será oferecida a possibilidade de partilhar da sua ressurreição, visto que, pela cruz se efetivará a manifestação da glória escatológica.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da

Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana:

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

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